Correio do Povo | Notícias | Amoêdo não trabalha para o megainvestidor George Soros

Porto Alegre

18ºC

Ver a previsão completa

Porto Alegre, sábado, 22 de Setembro de 2018

  • 11/09/2018
  • 15:17
  • Atualização: 15:20

Amoêdo não trabalha para o megainvestidor George Soros

Vídeo que liga candidato do Partido Novo ao magnata é enganoso

Amoêdo não trabalha para o megainvestidor George Soros | Foto: Comprova / Reprodução / CP

Amoêdo não trabalha para o megainvestidor George Soros | Foto: Comprova / Reprodução / CP

  • Comentários
  • Correio do Povo

É enganoso o vídeo que afirma que o candidato do Partido Novo à Presidência, João Amoêdo, é ligado ao magnata George Soros e trabalha para uma de suas organizações, a Open Society Foundations, acusada na gravação de ser “criminosa” e de "financiar a esquerda em todo o mundo". Há fatos verdadeiros no vídeo, mas que aparecem misturados a informações inverídicas.

Um dos principais argumentos do vídeo para ligar Amoêdo a Soros é a relação do bilionário húngaro-americano com o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga (1999-2003). Entre 1993 e 1999, o economista brasileiro foi diretor-gerente do Soros Fund Management (SFM), a firma de investimentos de Soros, mas após deixar o BC abriu sua própria empresa, a Gávea Investimentos. Ao Comprova, Fraga disse admirar o trabalho da Open Society Foundations, mas confirmou que não tem vínculos com Soros.

No vídeo, Armínio Fraga é apontado como parceiro de Amoêdo na criação do Partido Novo. Ocorre que o economista não está na relação de fundadores do Novo e não é filiado à agremiação. A assessoria do partido informou ao Comprova que Amoêdo e Fraga são “conhecidos, mas nunca tiveram relação pessoal”. Fraga, por sua vez, afirmou que nunca atuou em sociedade com Amoêdo.

Além de Fraga e Amoêdo, o vídeo aponta uma terceira pessoa como artífice da criação do Partido Novo: outro ex-presidente do Banco Central, Fernão Bracher. O vídeo acerta ao afirmar que Bracher comandou o Banco Central no governo de José Sarney, responsável por iniciar a política de venda de estatais, mas não é possível apontar que Bracher, enquanto no cargo, era o "líder do programa de privatizações".

De fato, Bracher fundou o banco BBA, como diz o vídeo, mas após deixar o governo, em 1988. O banco atuou nas privatizações e foi a única instituição brasileira a coordenar o consórcio de bancos estrangeiros para investimentos no programa de privatização.

A origem da relação entre Bracher e Amoêdo que aparece no vídeo está correta. Amoêdo trabalhou no BBA ao lado de Bracher. A companhia cresceu e, em 2002, foi vendida ao banco Itaú. Hoje, a Itaú-BBA é o braço do conglomerado responsável por atender investidores e empresas com alto faturamento.

O que não procede no vídeo é a alegação de que Fraga atuou com a dupla. Nos 11 anos em que Amoêdo atuou no banco BBA (1988/1999), Armínio Fraga, que supostamente seria a ligação do candidato com Soros e a Open Society, passou pela gerência de operações do Banco Garantia (1985/1988), no Rio de Janeiro, pela vice-presidência do Salomon Brothers, em Nova Iorque (1989/1991), pela direção de assuntos internacionais do Banco Central do Brasil (1991/1992) e pela Soros Fund Management (1993/1999), também em Nova Iorque.

Outra suposta ligação entre Amoêdo e Soros seria o banco Itaú, apontado na peça como um “império” que teria “fortes ligações com George Soros”. O Itaú Unibanco é, de fato, um dos maiores conglomerados financeiros do mundo, mas não há qualquer evidência sobre Soros ser o dono do banco. Em 2010, ele comprou ações do Itaú, conforme publicou a revista Exame. Essa publicação tem servido para alimentar boatos sobre a instituição pertencer ao megainvestidor.

O vínculo de Amoêdo com o Itaú se deu apenas por meio do braço da instituição dedicado aos altos investidores, o Itaú-BBA, resultado de aquisição realizada em 2002. Entre 2009 e 2015, ele integrou o conselho de administração da investidora. Amoêdo entrou pouco depois da fusão entre Itaú e Unibanco, anunciada em novembro de 2008. Antes disso, a partir de 2004, ele havia sido vice-presidente e membro do conselho de administração do Unibanco.

O Partido Novo é apontado no vídeo como extensão do banco Itaú e da atuação do suposto trio Bracher-Amoêdo-Fraga. Como dito acima, Fraga não atuou com Bracher e Amoêdo. Bracher, que foi presidente da Itaú-BBA, não está na lista de fundadores do Partido Novo, mas doou R$ 50 mil para ajudar a erguer o partido, fundado sob liderança de Amoêdo em 2011, além de outros R$ 50 mil à campanha presidencial deste ano. Seu filho, Candido Bracher, é atualmente o presidente do Itaú Unibanco.

O Itaú não tem vínculos institucionais com o Partido Novo, mas executivos e ex-executivos do banco estão entre os diversos empresários que fizeram doações à agremiação quando esta foi criada, como mostrou reportagem do jornal Valor Econômico de setembro de 2016. Atualmente, o Novo é presidido por Moisés Jardim, que foi diretor do Itaucred, outro braço do Itaú Unibanco.

Para apresentar o Novo como um partido de esquerda com "layout novo” e financiado por George Soros, o vídeo elenca equivocadamente uma série de organizações supostamente patrocinadas pela Open Society Foundations, a organização filantrópica do bilionário. A OSF já investiu 32 bilhões de dólares em projetos ao redor do mundo, e seus financiamentos concedidos são abertos.

Não há na listagem patrocínios a Foro de São Paulo, MST, “Partido Comunista”, PT ou PSDB — nomes citados no boato. Por outro lado, consta um financiamento de cinco meses à Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso, em 2016, no valor de 15.700 dóalres, e um de 53.633 dólares à organização Quebrando o Tabu, que recebeu dinheiro da OSF por 18 meses.

A peça, de quase cinco minutos, foi enviada ao WhatsApp do Comprova (11) 97795-0022 por diversos leitores. O Comprova entrou em contato com a Open Society Foundations e um porta-voz da organização informou que o vídeo é “impreciso”. Procurado pelo Comprova, o Itaú preferiu não se manifestar.

Projeto Comprova

Esta checagem foi publicada pelo projeto Comprova. A verificação foi realizada por jornalistas de Folha de S.Paulo, Gazeta Online, O Estado de S.Paulo, O Povo e SBT.

O projeto colaborativo Comprova reúne 24 organizações brasileiras de mídia com o objetivo de combater desinformação e conteúdos enganosos na internet durante a campanha eleitoral. Denúncias de conteúdos suspeitos ou falsos relacionados às eleições pelo número de WhatsApp (11) 97795-0022.