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Porto Alegre, domingo, 24 de Setembro de 2017

  • 09/09/2017
  • 13:50
  • Atualização: 13:53

Saneamento esquecido na área rural

Água tratada e redes de coleta de esgoto ainda são raras em zonas afastadas das cidades

Prefeituras têm obrigação de elaborar planos municipais e incluir áreas urbanas e rurais | Foto: Stephany Sander / CP

Prefeituras têm obrigação de elaborar planos municipais e incluir áreas urbanas e rurais | Foto: Stephany Sander / CP

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  • Jessica Hübler

O saneamento na área rural sofre com o esquecimento – é muito menos lembrado que o de áreas urbanas ou, quando é o caso, com o atendimento parcial ou precário. Além disso, há dificuldade para se obter informações sobre a condição dos serviços que chegam às famílias que vivem afastadas das zonas urbanas. Quem aponta os entraves é a engenheira ambiental e mestre em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, Anelise Hüffner, que também é professora da Engenharia Ambiental e Sanitária na Ulbra de Canoas. “Isso implica um déficit de atendimento e, consequentemente, falta de informação”, afirma.

No Rio Grande do Sul, cerca de 1,8 milhão de pessoas residem em áreas rurais. No Brasil, esse número chega 29,9 milhões. Segundo a pesquisadora, é muito comum que as prefeituras não consigam enxergar a extensão além da zona urbana como sendo parte do município. “Então acabam não contemplando essas zonas nos seus planejamentos e fica a deficiência”, observa.

Para entender o que o saneamento engloba, Anelise enfatiza que não é apenas o tratamento de esgoto. “Há também o abastecimento de água. Muitas comunidades têm acesso a um líquido não potável, muitas vezes contaminado, com coliformes ou, mais grave ainda, por agrotóxico”, lamenta. Os problemas existem e são muitos. Principalmente por falta de um controle ou uma análise do abastecimento de certas regiões, fazendo com que boa parte da população tenha acesso a uma água que nem é conhecida pelos órgãos reguladores.

De acordo com a assessora técnica da área do Meio Ambiente da Famurs, Marion Heinrich, os municípios têm obrigação de elaborar o Plano Municipal de Saneamento e incluir tanto a área urbana quanto a área rural. “É feito o diagnóstico e, através de metas, executada a política municipal de saneamento”, explica. Segundo Marion, mesmo que o município seja o titular do serviço de saneamento básico, “é preciso que existam ações conjuntas, com o esforço das esferas municipal, estadual e federal, para que esses instrumentos da política de saneamento básico sejam implementados e para que os índices de saneamento mudem”. Marion destaca que a Famurs orienta os municípios sobre o planejamento e também promove eventos de capacitação para os técnicos da área. “Trabalhamos para que eles (municípios) façam o que precisa ser feito”, enfatiza.

Na Emater, conforme o presidente, Clair Tomé Kuhn, os produtores encontram orientação. “Vamos até as propriedades, chegamos ao agricultor e analisamos a área como um todo”, descreve. Após, os técnicos da Emater orientam o agricultor em relação aos problemas existentes e como ele pode encontrar as soluções. Segundo Kuhn, os técnicos se dedicam bastante à questão do reaproveitamento dos resíduos sólidos para compostagem e também orientam para o armazenamento correto do restante dos resíduos. “Indicamos ao agricultor que ele pode levar os resíduos à zona urbana, se for necessário”, disse.

Com relação ao esgotamento sanitário, Kuhn ressaltou que os técnicos da Emater aplicam tecnologias desenvolvidas pela Embrapa. Segundo ele, o trabalho da Emater é realizado com base nas ações que a Embrapa já pesquisou e validou. “Nos preocupamos muito com isso e pretendemos lançar uma campanha mais forte em cima disso (saneamento na área rural), envolvendo todo o Estado”, revela.

Segundo o vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Nestor Bonfanti, a falta de saneamento nas áreas rurais preocupa a entidade. “O meio rural é bem diferente do meio urbano. Preocupa principalmente a proximidade das fontes de água com as fossas sanitárias, por exemplo”, destaca. Segundo Bonfanti, os agricultores têm acesso à informação e às orientações específicas sobre o saneamento, mas as ações “dependem de cada família”.

Para o dirigente da Fetag, o saneamento público não chega e nunca chegou ao campo. Bonfanti observa que os agricultores vão às reuniões que tratam do assunto e são orientados para terem cuidados com as fossas sanitárias e com os poços artesianos, “mas não têm nada de auxílio do poder público”. Afirma, ainda, que a Fetag basicamente orienta as famílias para que tenham um cuidado melhor com o abastecimento de água e com as fossas.