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  • 07/07/2018
  • 10:01
  • Atualização: 10:48

Número de engenheiras agrônomas cresce no Rio Grande Sul

Pelo menos 43% dos alunos formados pela UFRGS no curso são mulheres

As estudantes  da Ufrgs, têm sonhos diferentes, mas todos ligados às atividades do campo | Foto: Mauro Schaefer

As estudantes da Ufrgs, têm sonhos diferentes, mas todos ligados às atividades do campo | Foto: Mauro Schaefer

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  • Nereida Vergara

A história sugere que foram as mulheres que descobriram a agricultura. O pesquisador Luis da Câmara Cascudo, em Civilização e Cultura, explica que elas o fizeram para garantir a subsistência da família sem de afastar da moradia, enquanto o homem saía em busca de caça. No campo, desde sempre, é comum a mulher trabalhar duro, contribuindo de forma significativa para o sucesso das propriedades. Hoje, contudo, o universo feminino é muito maior que as cercanias da casa e as mulheres querem e conseguem influir e reinventar a atividade que é o esteio da economia e da sobrevivência humana. Interessadas em atuar nos ramos mais diversos, elas mudaram o panorama de uma profissão antes território essencialmente masculino: a Agronomia.

Com 120 anos completados em 2017, a Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) formou no ano passado duas turmas, com um total próximo de 80 alunos. Nas duas formaturas, 34 meninas pegaram seus diplomas de engenheiras agrônomas, representando 43% do total de formandos. O avanço é substancioso se for analisada a trajetória da participação feminina no curso, que até o final dos anos 1980 não ultrapassava os 10%. No Estado, a primeira engenheira agrônoma diplomada foi Maria Eulália da Costa, na Imperial Escola de Medicina Veterinária e Agricultura Prática, em Pelotas. Na Ufrgs, a pioneira foi Julieta Neves Botelho, em 1944. No início dos anos 1990, a frequência de meninas no campus do bairro Agronomia, em Porto Alegre, começou a ganhar consistência, se estabilizando na casa dos 30% a 35% dos aprovados no vestibular.

O diretor da Faculdade de Agronomia (que também inclui o Departamento de Zootecnia) da Ufrgs, Carlos Alberto Bissani, diz que o interesse do público feminino pelo curso não se deu apenas pela evolução social que trouxe aumento da inserção da mulher em todos os setores. Bissani acredita que a diversificação da atividade agropecuária e a quantidade de postos de trabalho que exigem a presença de um agrônomo, dentro e fora das porteiras, chamou a atenção inclusive de alunas oriundas do meio urbano.

“Há colocação para os agrônomos nas indústrias de insumos, de alimentação, no segmento de preservação ambiental e na pesquisa, o que tornou o curso mais atrativo, independentemente do gênero”, analisa o professor. Na pesquisa, ressalta Bissani, as mulheres já representam a metade dos alunos matriculados nos cursos de mestrado e doutorado, o que deve gerar uma nova geração de professoras para o quadro docente. Atualmente, dos 80 professores da Faculdade de Agronomia, 25% são mulheres.

Estrutura

Diretor do Departamento de Agronomia, o professor Sérgio Francisco Schwarz avalia que o maior interesse das meninas pelas vagas no curso nos últimos anos tem a ver também com o fenômeno de a sociedade voltar a olhar para o campo com mais interesse. Schwarz lembra que a disseminação de informações fez as pessoas despertarem para o lugar de onde vem seus alimentos e pensarem na qualidade da produção. “Se observa hoje, eu diria que na maioria dos alunos, uma história familiar que remete à vida no campo e a vontade que eles têm de retomar a atividade, mas com a qualificação que os antepassados não tinham”, salienta. O professor, doutor em Produção Vegetal, destaca ainda que é flagrante o interesse das meninas pelos sistemas de produção de alimentos orgânicos, que têm grande influência das mulheres em todo o Brasil, inclusive no Rio Grande do Sul e na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Schwarz garante que não houve nenhuma adequação curricular em razão do aumento do número de mulheres no curso de Agronomia, e que a exigência é igual para as disciplinas em sala de aula e nas atividades de campo. Já do ponto de vista estrutural, o coordenador admite que o campus teve de se adequar. “Para se ter uma ideia, até os anos 1980, em todo o campus havia um único banheiro feminino, e pequeno”, recorda. “Hoje tudo isto está superado”.

Sobre ainda haver machismo neste ramo acadêmico, alunas como Gabriela Rodrigues Machado, 19 anos, no terceiro semestre de formação, dizem que diminuiu, mas que existe. “Há professores e colegas que reagem de forma diferente quando quem se manifesta é homem ou mulher”, reclama.