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  • 18/08/2018
  • 11:21
  • Atualização: 12:15

Mandioca perde espaço para tabaco, milho e soja

Tendência é que próxima safra cubra entre 12% e 15% da atual área de cultivo

Desestímulo é resultado de não renovação contratos de fornecimento ao Programa de Aquisição de Alimentos  | Foto: Lula Helfer / Gazeta do Sul / CP Memória

Desestímulo é resultado de não renovação contratos de fornecimento ao Programa de Aquisição de Alimentos | Foto: Lula Helfer / Gazeta do Sul / CP Memória

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Embora o Censo Agropecuário do IBGE aponte aumento na produção de mandioca em Venâncio Aires no período de 2006 a 2017, a tendência é que já na próxima safra entre 12% e 15% da atual área de cultivo seja usada para outras lavouras, como tabaco, milho ou soja. O chefe do escritório municipal da Emater, Vicente Fin, afirma que o preço pago ao agricultor pela raiz é o pior dos últimos oito anos.

Cultivos históricos estão em declínio com expansão da soja

O produtor Robério Adolfo Krammes, de Linha Travessa, cultiva entre 4 e 5 hectares de mandioca, mas também compra de terceiros para abastecer a Ceasa de Porto Alegre. Ele relata que o valor pago na lavoura está em R$ 6,00 pela caixa de 20 a 23 quilos e afirma que o agricultor deveria receber pelo menos entre R$ 10,00 e R$ 12,00 por causa da mão de obra necessária ao cultivo. Krammes atribui a queda do preço ao aumento da produção deste ano em consequência do clima favorável e à queda no consumo diante da perda do poder aquisitivo da população. “A mandioca é alimento do povão”, afirma. “Aquele que colhe mil caixas ainda consegue pequena margem de lucro, mas abaixo disso só acaba empatando”, explica Fin.

Segundo maior produtor de mandioca do Estado, Venâncio Aires tem mais de 2 mil famílias na cultura. Destas, conforme a Emater, 432 cultivam para a comercialização, principalmente para a venda na Ceasa, em Porto Alegre. O engenheiro agrônomo da Emater destaca que a produção está estagnada há alguns anos no município. “Este ano vai dar mais, pois o clima favoreceu e as raízes cresceram mais”, diz Fin. Em Venâncio Aires há cinco agroindústrias familiares que descascam as raízes, agregando valor ao produto. Mas Fin afirma que falta uma fecularia, para a transformação da matéria-prima em outros produtos.

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Em Encruzilhada do Sul, maior produtor entre os municípios do Estado, os cultivadores de mandioca sofrem desestímulo após o governo federal não renovar os contratos de fornecimento ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) para abastecer a região metropolitana de Porto Alegre. De quase 30 famílias de agricultores favorecidas, entre 80% e 90% eram pequenos proprietários de áreas de assentados, conforme o extensionista rural da Emater, Osmar Borges Nunes. Assim, resta apenas a venda direta ao consumidor nas feira da cidade ou nos mercados locais.

Outro entrave, segundo Nunes, é a exigência, estabelecida pelo mercado, de mandioca descascada. Hoje não há agroindústria do setor no município. “Há campo para o empreendimento e interesse das famílias, mas demora para se chegar lá”, destaca. O técnico agrícola acredita que a expansão da soja não terá impacto no cultivo da mandioca, porque este é feito em pequenas propriedades.

Envelhecimento prejudica cebola

São José do Norte, no Sul do Estado, continua sendo o maior produtor gaúcho de cebola, com 31,7 mil toneladas, mais de um terço da produção total do Rio Grande do Sul. Mas mesmo neste município o cultivo encontra-se em declínio. A produção, que era de 44,3 mil toneladas em 2006, hoje está em 31,7 mil toneladas. O Censo 2017 registrou 983 estabelecimentos dedicados ao cultivo, com uma redução de 615 estabelecimentos em relação ao levantamento anterior.

O coordenador operacional do Censo Agropecuário 2017, Luís Eduardo Puchalski, salienta que a cebola, por exemplo, enfrenta um problema crônico relacionado à renda do produtor. “Quando chega determinada safra, os produtores jogam fora a cebola porque o preço não compensa”, afirma. O resultado é a expansão da soja na região situada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, onde tradicionalmente se cultivava cebola.

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O envelhecimento da população do campo, também apontado pelo Censo, é outro fator citado por Puchalski. “Os filhos muitas vezes não ficam na propriedade, o produtor vai envelhecendo, chega a um ponto em que já não pode trabalhar, e ele arrenda para um terceiro, que vai produzir soja, normalmente”, descreve. Conforme o IBGE, o percentual de produtores gaúchos com mais de 65 anos passou de 17,5%, em 2006, para 23,1% em 2017, enquanto os jovens com menos de 25 anos, que já eram minoria, caíram de 1,9% para 1,2%.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São José do Norte, Charles Amaral da Silveira, avalia que os números devem-se principalmente ao envelhecimento da população rural e à rentabilidade da cultura. Os jovens têm demonstrado pouco interesse pela produção, enquanto muitos agricultores antigos se aposentaram ou reduziram a área. “A tendência é diminuir mais esse número”, lamenta o dirigente. Para que a cebola pudesse ser rentável, Silveira calcula que o preço pago ao produtor deveria ser superior a R$ 1,00 o quilo. Na última safra, porém, a cotação ficou em torno de R$ 0,60.