Coplas para os abandonados

Quantas vezes destaquei meu respeito pela gente humilde e simples esquecida pelos corredores do Pampa. Vocês leitores são testemunhas do que sempre disse nessas “Campereadas”. São depoimentos emotivos porque eu vivi entre eles, lá na minha distante Vila Rica, vi e ouvi suas tristezas, seus desenganos e suas desilusões. Uma noite, quando ouvi o Surdinho, com os olhos cheios d`água falando de sua vida cheia de percalços, jurei para mim mesmo que seria jornalista, só para contar essas injustiças. Sabia que seria difícil, fui dormir muito triste e me amontoei por cima daquele colchão de palha de arroz, me cobri com o poncho velho e furado e pensei: vou escrever essas histórias, vou contar para todo mundo saber que o Rio Grande trata mal seus peões, seus trabalhadores, trata mal a gente que vive changueando em busca de uns trocados por dia, por um pedaço de pão, por um quilo de feijão, sem lugar para dormir. E ao mesmo tempo eu via gente com tanta terra, tanto gado, tanto dinheiro! “O mundo sempre foi assim”, dizia minha mãe, mas eu nunca me conformei. Por isso estou aqui, ainda inconformado, sempre querendo ajudar os mais necessitados, os pobres, os que não têm vez nem voz.

Não, não tenham vergonha disso meus conterrâneos da Vila Rica. Não tenham vergonha de um homem que desde guri sofreu as agruras do mundo e agora fala, fala com toda a força de seus pulmões. Tenho tantos amigos na Vila Rica, e gosto de todos eles, mas alguns me disseram que discordam da minha opção em prol da ralé, dos miseráveis. Que eu devia exaltar as tradições do Rio Grande, as coisas boas, ter uma postura mais positiva. Ah, queridos amigos, não cheguei aqui para isso, para ser a voz oficial dos poderosos.  Nesse caso, eu é que sentiria vergonha, por ser uma farsa histórica. Eu seguirei assim, “campereando” em defesa da gente que vi morrer à míngua ao meu redor, tentando preservar os novos campeiritos, para que não morram como flores pisoteadas, para que eles possam ter uma nova chance aqui na terra. A mesma chance que eu tive.

Quem souber que cante coplas para eles, os desesperados, os machucados, aqueles que mostram suas chagas abertas no corpo e na alma sob as soalheiras de janeiro e as invernias de agosto. Vocês conhecem eles, tenho certeza, pois estão por aí, todos os dias, trabalhando de sol a sol em busca de uns mirrados para comprar o pouco que podem para suas famílias. Eu rezo por eles e para eles, peço a Deus que tenha compaixão,  que nunca os abandone, pois são meus irmãos e nas veias deles corre o meu sangue, a minha raça e a minha esperança.

Cantem coplas para os abandonados. Façam versos para os miseráveis, os que sofrem, os desgraçados. Deem um pouco do que têm para os que nada possuem. Olhem para o céu, admirem o amanhecer, curtam o pôr de sol todos os dias que puderem. Abracem seus amigos, beijem seus pais, estendam a mão para os doentes. Eu rogo, meus conterrâneos, nunca me maldigam por estar ao lado dessa gente. Quando acordo, agradeço pela vida, pelos dias que já tive, pelos amigos e companheiros, pelos familiares e penso numa nova “campereada”.  E nela sempre estará meu coração interiorano e minha opção pelos que estão sós. Isso reaviva minha memória e me mantém vivo.

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