De silêncios e de saudades

Onde está a minha saudade? Onde estão os lugares que gostei e que hoje sofro recordações? Não são tantos assim, são poucos, apesar de ter andado bastante por este mundão, mas ainda menos do que gostaria. Contudo, quando fecho os olhos,  os ventos vêm e me transportam para longe, lá para o pátio onde cresci, onde ainda esperam por mim. Lá havia sábios de barbas brancas que adivinhavam o porvir, que me ensinaram a transpor as cercas, a não enxergar apenas o fixo, o convencionado, mas o desnudo, o avesso e o inverso. O que está emborcado. Lá eu vi o punhal do dia sangrando a luz da manhã. Depois, o poncho negro da noite enlutando os substantivos. Abrindo as porteiras das metáforas que saíam em disparada, escarceando endiabradas pela noite adentro. Foi lá, debaixo dos cinamomos, no oitão do bolicho, olhando a várzea estendida que a minha alegria se arranchou na garganta.

Desmonto. A arte da escrita é isso, contar pelo indizível, enveredar pelos silêncios da alma, recriar o bem dito, expor os entremeios, arrancar as pétalas da vida, aquela que reluz mesmo sem ser ouro. Lá onde mora a minha saudade eu consto na paisagem esverdeada, um costilhar de sombra e de encantamento juvenil. Onde pesquei lambaris, onde soltei pandorgas, onde joguei bolitas, onde colhi pitangas maduras, onde nadei no açude e na sanga, onde degustei ambrosia, onde assei churrasco no fogo de chão, onde tudo vive nas reentrâncias da minha memória afetiva. Por mais que o tempo passe lá estou, mateando, juntando gravetos, repontando vacas de leite, cortando nacos de fumo em corda atrás do balcão num final de dia, no lusco-fusco das tardes. Ainda estão lá o cheiro dos meus trapos rasgados, minhas camisas puídas, o meu chapéu preto furado e amassado, minhas alpargatas barbudas e meus sonhos despedaçados.

Vim embora e choveu palavra na minha vivência. Peguei ideias com as mãos como se pescasse traíras prateadas. Me encontrei na literatura regional, inventando, compondo, recordando, me ajudando e ajudando outros que como eu têm a terra no sangue. Por isso o grito dos quero-queros me recita, por isso eu alongo os rios e caço manhãs de primaveras, mas às vezes, velhacas, elas fogem como novilhas ariscas. Eu recrio o que outros criaram com novas pilchas. Por outras, uso roupas antigas, em desuso, que parecem novas. Minha escrita é assim, uma cordeona que se abre em silêncio, páginas e páginas de ausências, dores de amigos perdidos, mas é também tábua de salvação, galpão de paredes de taquara e barro, coberto de capim onde desencilho no fim do dia assobiando chamamés e milongas. Minha literatura é simples e humilde, eivada de versos em prosa que vertem da alma, conversa que vêm dos socavões da história e do esquecimento.

Conto. Canto e escrevo para que isso não se perca. Para que falem os que nunca tiveram voz. Sou a querência, os corredores sem fim, a peonada e os que vagam ao léu, sem rancho, os que campeiam horizontes. Então, abatido, condoído, em transe, tomo um trago e me transformo num tropeiro antigo que cavalga a madrugada dos galos. Um homem velho e triste, quase um fantasma , chorando sua solidão, castigado por um açoite que lhe abre as antigas cicatrizes, por dentro…

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