A vida por um chapéu

 

Trabalhando, trabalhando, não viu a vida passar / O suor que regou a terra, nem sementes viu brotar / Trabalhando, esperando, enfrentando chuva e sol / Enxada na terra alheia nunca traz dia melhor / Assim a geada dos anos/ Foi lhe branqueando a melena / E este homem rural hoje  é peão de suas penas.

Esta primeira parte da comovente letra da canção “Homem Rural”, do missioneiro Cenair Maicá,  nos remete de imediato a duas questões. A primeira recai sobre a excepcional qualidade deste artista que fez parte do chamado grupo “Troncos missioneiros”, composto por ele próprio,  mais Noel Guarany, Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça. De todos, me parece que Cenair Maicá é o que mais opina e o que mais consciência social expõe por meio da sua música e do seu canto. A segunda questão é que sua postura e alerta servem perfeitamente  para os dias atuais, não apenas para os homens rurais, mas também para os trabalhadores dos centros urbanos que voltam a correr sérios riscos em relação aos seus direitos trabalhistas e previdenciários.

Para não ser injusto com vários patrões do campo, gostaria de dizer que conheci fazendeiros preocupados com os seus empregados, tratando-os decentemente, pagando-lhes de forma correta, indenizando-os e, em épocas até bem antigas, assinando carteira de trabalho e oferecendo condições de trabalho muito boas. Mas, amigos, confesso que na maioria dos casos, nossos trabalhadores do campo são muito maltratados, labutam por salários irrisórios, em péssimas condições e, quase sempre, ao final das jornadas, deixam a porteira da entrada levando apenas uns “pila curto”.  Isso sempre foi uma realidade da campanha, eu vivi entre esse povo sofrido, os changueiros, os tropeiros, o peão por dia,  a lavadeira, a cozinheiro e até o caseiro velho. Doía-me ficar sabendo de suas histórias que me contavam com os olhos vidrados depois de alguns copos de canha ou de vinho tinto.

Vou contar um desses casos.  O irmão de meu pai, tio Otacílio, passara a vida inteira trabalhando em lavouras de arroz na região de Cacequi e São Vicente do Sul. Um dia, viúvo, com os filhos morando longe, apareceu lá em casa, para morar conosco. Veio praticamente sem nada, uma muda de roupa numa mala de garupa, chinelo de dedo e cego de um olho. Havia sido atingido por um grão que saltara da trilhadeira. Meu pai ao ver seu aspecto, perguntou-lhe se não havia sido indenizado ao deixar o trabalho onde ficara por mais de 30 anos. Então, seu Otacílio sorriu e disse-lhe que, ao contrário, a família dona das terras  onde trabalhara havia se mostrado muito grata e, para demonstrar essa gratidão, dera-lhe a título de consideração um chapéu preto novinho. Então tirou da cabeça o chapéu e apresentou orgulhoso o presente.

Nunca esqueci aquele dia, pois representa a cultura da submissão, a falta de direitos, o passado escravocrata ainda arraigado no campo.  Precisamos de peões dignos e patrões mais humanos. Que nunca falte o pão sobre a mesa de nossos trabalhadores, que eles possam chegar em casa e olhar para seus filhos. Que  trabalhem e, depois ao final da vida, possam se sentar na frente do rancho para descansar o corpo dolorido. Que suas vidas não se transformem apenas em mais um chapéu de feltro.

 

P.S.  Dois recados:

  1. Acompanhem as Campereadas todos os domingos no jornal impresso, dentro do caderno Correio do Povo Rural.

2. E vejam as lindas malas de garupa da grife “Campereada” no meu Facebook. De várias cores, macanudas. Excelente presente de Natal.

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