O segredo da vida

“Tenho um segredo para te contar”,  foi o que me disse no atropelo, esbaforido, meu pequeno sobrinho Romano em uma das últimas vezes que fui à Vila rica. O local e a situação em que estávamos era um pouco difícil, inóspita,  mas ele, ainda uma criança parecia mais confortável do que nós, os adultos.  Indaguei o que seria e ele me falou que só quando chegássemos em casa poderia contar e mostrar o tal segredo.  Mais tarde, superada nossa dolorosa  missão, fomos para casa e então fiquei sabendo do que se tratava. O guri, que estava começando aprender a ler, havia escolhido para aproveitar esse doce mistério,  o meu livro “Campereadas – Crônicas, Contos e Causos do Sul”, lançado em 2011 pela Editora Sulina. Sempre disse que tenho um carinho muito grande por esse livro, mas quando fiquei sabendo disso fiquei emocionado. Então o piá me mostrou a página em que estava e se atracou a me fazer as mais diversas perguntas. Se isto ou aquilo haviam mesmo ocorrido, “se era verdade”, essas coisas que todos perguntam para um cronista,, um escritor, inclusive os adultos. Respondi que sim, tudo que está escrito no livro é pura verdade,  mas se alguma coisa não tinha acontecido, deveria, porque eu me lembrava daquele jeito que havia contado. Os olhos claros de Romano brilharam, olhando para um ponto no infinito, sorriu, balançou a cabecinha concordando, e saiu, pulando, feliz, para guardar o livro em seu quarto. Pareceu-me que ele havia, naquele instante, compreendido um dos mistérios da literatura. Aquilo que o escritor escrevei aconteceu, de uma forma ou de outra.   Vejam o significado desse episódio aparentemente tão simples e corriqueiro. Um menino que aprende a ler e escolhe para seu primeiro livro, o primeiro de tantos outros que certamente lerá. Fiquei a imaginar que como eu. Romano nunca irá esquecer seu primeiro livro. O primeiro filme. O senhor ou a senhora já esqueceram? Eu nunca, mas isso vou contar numa próxima “Campereada”. Meu irmão José Luiz, disse-me que foi uma decisão sua, do menino, ninguém o forçou a nada. Ele simplesmente decidiu um certo dia que iria começar a ler “Campereadas” porque imaginou que iria gostar e que tinha ali algo que o interessava, ou pela capa do livro, ou pelos comentários em família dos assuntos nele contido, essas coisas. Ou por tudo isso junto, pouco importa.

Contando isso para vocês, lembrei que minha filha Paula disse-me dia desses que me conhece mesmo por meio de meus textos. E sabe de várias histórias da avó Merica, do avô José Mendes e que aprendeu a amar o campo e a cultura regional gaúcha lendo as colunas que publico no Correio do Povo. Só por esses dois fatos, o do Romano e o da minha filha,  já valeria a pena ter escrito essas histórias. Uma colega de trabalho também me falou que sente sua avó em todas as crônicas campeiras. “Você me trouxe a minha vó de volta”. Neste dia eu a abracei e comecei a chorar.

Meus amigos, tenho a pretensão de dizer que a arte serve para isso: para revelar, para iluminar, para abrir caminhos e para que possamos suportar esses tantos dias tristes. Nos olhos do Romano e nas palavras da Paulinha eu me descobri, eu me  reinventei e ganhei força.

Como disse o guri da Vila Rica, mesmo sem ter noção disso, aí, exatamente aí, está o segredo da vida.

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