A prosa dos derrotados

A coluna “Campereada” desde sua primeira edição, lá no distante 30 de setembro de 2009, enveredou por um caminho inverso ao da maioria dos escritores regionalistas: deixou de lado os heróis consagrados dos livros de História para saudar o povo desamparado que vive pelos corredores sem fim do pago; jamais caminhou convenientemente ao lado dos poderosos e abastados e optou por dar voz aos que nunca tiveram voz,  os que sempre foram castigados pelo destino e emudecidos pelas oligarquias; e abandonou o discurso oficialista dos vencedores e preferiu dar novas cores para a fala quase inaudível dos derrotados, dos humilhados, dos que vivem uma vida inteira a pé, de freio na mão e pelego debaixo do braço.  Por isso, desde o início, se tornou a procissão de fé dos desvalidos, o grito campeiro dos que perambulam sem rancho, ao léu, o hino dos maltrapilhos, dos que caminham descalços,  macerando as carnes, enrijecendo os músculos e dilacerando os nervos.

Já disse aqui mais de uma vez e repito: saí de minha Vila Rica para me tornar jornalista e contar o que vi e ouvi. Por anos fui bolicheiro, carroceiro, leiteiro, pequeno agricultor e até repontei umas vacas leiteiras por aquelas estradas de terra vermelha.  No dia que recebi meu diploma sabia que começava ali uma grande jornada e eu, que já escrevia para aquela gente, me tornei ainda mais convicto do que deveria fazer.  Muitos criticam a forma explícita de apoiar os desvalidos, os peões abandonados, as cozinheiras, as velhas lavadeiras e até crianças indefesas que são usadas em serviços insalubres, de forma ilegal, por esses confins do nosso Rio Grande amado.  Mas não me vergo, parece que vim ao mundo para isso, fazer da minha escrita a válvula de escape para esse brado que não se cala nunca, que é forte e de muitos. Sinto-me puxado para lá, para o rodeio dos que perderam casas, empregos e esperanças. Sei que esse povo pobre do campo e dos arrabaldes precisa de mim e eu preciso deles. Eu vim de onde eles brotam, eu sou o sangue e a carne deles, por isso o que escrevo é a minha e a voz deles, pois muitos mal e porcamente sabem escrever o nome, nem sabem mais onde foram parar seus pequenos sonhos.

O escritor argentino Ricardo Piglia já alertava que nada pode ser pior para um derrotado do que ler, anos mais tarde,  a história contada pelo viés atrofiado dos vencedores. E sempre a história é contada pelos que venceram e, quase sempre, é eivada de mentiras. Então, meus amigos, o que faço tenta ser, de certa forma, a redenção dos que não têm a pena na mão para contar o que passaram e todos os sofrimentos que os esperam.

Reconto à minha moda e risco em busca de um pouco de verdade para os novos campeiros.  Para que tenham orgulho de seus humildes ancestrais. Não esperem de mim a ladainha insossa dos bajuladores e sim a palavra  que desafoga e afaga. Bebi na fonte, estive na culatra da tropa, repontei os causos e os trago gordos, lindos e sãos de lombo. Esta é a minha prosa, límpida e larga, a cantilena dos desesperados,  dos que tropeçam mas não caem, e, se caem, levantam de cabeça erguida. A minha literatura é composta pela prosa dolorida dos perdedores e dos miseráveis, mas é simples, pura e digna, como a própria gente que ela retrata.

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