O pátio de casa

Dizem que a poesia é uma espécie de regresso para casa. Talvez seja, por isso mesmo, que tento desesperadamente resgatar o perdido para sempre, o que não tem mais volta. Antevendo, li tantos poemas, desde guri, depois que me vim embora deixando para trás o cheiro das maçanilhas nas manhãs de primavera, a marcela florida nas tardes de outono. Eu vim porque quis, não me obrigaram, eu era um potro que escarceava na coxilha, pedia rédea, escaramuçava e alçava cola. Então, um dia, rebentei a soga e larguei de tiro, levantando poeira na estrada, olhos vidrados no infinito,  porque o sonho era vasto e tinha ânsias no peito. Não vim reto, fui parando aqui e ali, arrebanhando experiência e tino, olhando e aprendendo, ouvindo os mais judiados de tanta Pampa e lonjuras.  Depois boleei a perna nesta capital, ao lado deste grande rio que me lembra os outros todos que cruzei. Passaram-se meses e anos, criei raízes. Fui ficando.

Lembro: a primeira parada grande foi em Santa Maria da Boca do Monte, na universidade federal. Na época, era um desafio para um bolicheiro de beira de estrada, carroceiro e filho de gente humilde, chacareiros. Guri criado “pra fora”, mas que sempre gostou da leitura e dos livros. Não foi fácil, mas cumpri a missão, com denodo, ajuda da família e dos amigos que fui juntando pelo caminho. Depois de algumas experiências profissionais,  fui tentar a sorte na Serra gaúcha, em Caxias do Sul, que nos anos 1980 já era uma potência industrial onde havia empregos, inclusive na área do jornalismo.  Após dois anos,  vim para a Capital fazer um mestrado na Ufrgs, na área de Literatura Brasileira. Por obra do destino,  acabei indo parar na redação do centenário Correio do Povo, onde fiz casa e morada. Era o jornal que aprendi a ler, onde li meus primeiros poemas. No dia que entrei naquele prédio pela primeira vez me emocionei tanto que comecei a chorar. Fui obrigado a ir ao banheiro me recompor antes de falar com a jornalista que iria me entrevistar. Felizmente deu tudo certo.

Tantas águas rolaram daquele dia para cá. Muitas coisas, algumas ruins, mas acho que no geral a maioria boa venceu. Tornei-me colunista, escritor, publiquei livros,  me chamam para palestras, fiz inúmeras amizades, ganhei prêmios e homenagens. A tudo isso eu só posso agradecer. Mas o guri de calça curta e pé no chão descalço ainda vive em mim embora eu envelheça e me procure pelos meus interiores, nos internos. Leio muito, recrio e transcrevo o que vivi, vasculho a memória, me desabrigo, componho, voo pelas imensidões do sonho e da imaginação. Mas tenho a impressão de que faço parte de uma tropeada . Um movimento circular e que depois de ter me afastado começo a me reaproximar.

De certa forma todos os dias volto para casa. Refaço o caminho solito como uma ave de arribação cansada que começa a pousar. Penso e sigo, assim, aos tropeços, destaperado de mim mesmo, resgatando o absoluto que existia e que hoje me falta. Por onde andei me trataram bem, me aceitaram e, reconheço,  me senti feliz. Porém, sempre me senti um forasteiro. Um dia voltarei para a Vila Rica para me plantar, para sempre, na querida e amada terra onde cresci, lá onde as andorinhas fazem desenhos bêbados no céu de dezembro.

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