Nossas Copas

O jornalista jornalista Edison Moiano, falecido em fevereiro deste ano, não verá a Copa de 2018 na Rússia. Meu chefe por anos na  Central do Interior, ele comemorava sempre que começava uma Copa do Mundo ou uma nova Olimpíada. “Outra Copa e eu ainda estou aqui”, falava, com aquele ar entre drama e ironia que o caracterizava. “Tu ainda vai ver muitas Copas”, eu dizia, mas ele retrucava: “Esta eu nem esperava, já estou no lucro”. Moiano havia enfrentado doenças sérias no decorrer da vida e sempre se saíra bem. A última foi um câncer de estômago, mas acabou falecendo de outras complicações. O câncer, ele combateu e venceu. Falo isso para destacar o quanto esses grandes eventos  mexem com a gente. São balizadores de uma época, nos lembramos perfeitamente o que estávamos fazendo naquela Copa de 70, de 82, e assim por diante.

Três Copas do Mundo passei na Vila Rica, a de 70, 74 e de 78. A Copa de 1970, no México, escutamos a final da casa do vizinho Orci Dal Forno. Eu e meu amigo Clécio ficamos batendo bola, enquanto meu pai e seu Orci festejavam os gols ao lado do rádio a pilha e quando o narrador da Guaíba gritava, seu Orci levantava bem o volume e então pulávamos abraçados. Nossos vizinhos eram descendente de italianos, mas nasceram no Brasil e torciam pelo Brasil, embora torcessem pela azurra quando esta jogava com outros países. A minha única lembrança desta Copa é mesmo da final. Recordo que o pai chegou em casa e deu dois tiros com seu revólver calibre 32 no início da noite, em direção aos matos. Antes eu e Clécio havíamos estourados uma bombinhas caseiras que ele aprendera a fazer com latas de alumínio e carbureto.

Em 1974, na Copa da Alemanha, a lembrança, claro, não é das melhores. Ficou uma sensação de que nada poderia ser feito contra a magistral “Laranja Mecânica”, ou o “Carrosel Holandês”, quando levamos 2 a 0 e fomos  brigar pelo terceiro lugar. A depressão foi tamanha que ainda lembro daquele cinzento sábado à tarde em que perdemos para a Polônia por 1 a 0. Em 78, na Argentina, a Copa foi mesmo uma palhaçada. A começar pelo primeiro jogo, contra a Suécia, quando Zico marcou o gol da vitória no final do jogo, depois de uma cobrança de escanteio. Mas o juiz invalidou o gol porque apitou o final da partida com a bola no ar. Eu fui assistir essa partida, a de estreia do Brasil na Copa, na casa do colega Carlos Rezende. Voltei para casa a pé, indignado e ali já previ que nossa história naquela Copa não seria nada fácil. A ditadura argentina usou e abusou do poder para estragar o evento e comprou um resultado de forma triste e lamentável, no famoso 6 a 0 no Peru para se classificar à final e eliminar o Brasil. O futebol também tem disso.

Depois, já longe da Vila Rica, vieram outras Copas. Ganhamos mais duas vezes. Não sei se vamos ganhar agora. Não importa, no futebol meus amigos, se ganha se perde e se empata. Tem interesses diversos, mas para um torcedor de  alma e coração o importante é levantar o caneco. Embora a disputa com dignidade também tenha um grande valor, como aquela Copa de 82, quando demos show,  mas acabamos eliminados pela Itália.  Como dizia o Moiano, veio outra Copa e ainda estamos aqui, Então vamos aproveitá-la, com ou sem caneco, mas com vida, paixão e arte.

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