Eliades Ochoa: “Nossa batalha é fazer com que os gêneros musicais que tocamos não morram”

Ochoa: “Sei que quero continuar como embaixador da música cubana pelo mundo”. Foto: Carlos Pericas / Divulgação / CP

Por Luiz Gonzaga Lopes

O evento que marca a despedida da Orquesta Buena Vista Social Club de Porto Alegre será um acontecimento. Antes da apresentação do elenco de estrelas da música cubana no Auditório Araújo Vianna (avenida Osvaldo Aranha, 685), no próximo dia 15 de maio, às 21h, o público poderá conferir na íntegra, a partir das 18h, a exibição do documentário “Adiós’, de Lucy Walker, com os bastidores da Adiós Tour, que já dura mais de cinco anos e também o show de abertura feito pelo sexteto gaúcho Farabute, com sons afro-latinos, às 20h15min.

Entonces, a partir das 21h, os gaúchos poderão ver novamente a “Adiós Tour”, apresentada em Porto Alegre, no mesmo Araújo, em maio de 2013 e 2015. A noite terá a voz de Omara Portuondo, os sons do violonista Eliades Ochoa e do virtuoso alaudista Barbarito Torres, com gêneros de “sones e guajira” até “danzon e bolero”, “cha-cha-cha e rumba”. A defecção será do trompetista Luiz “Guajiro” Mirabal Vasquez, de 84 anos, que não poderá participar da turnê sul-americana por questões de saúde.

A Buena Vista mostrará os estilos e ritmos clássicos da música cubana em músicas eternizadas pelo filme de Wim Wenders, com direção musical de Ry Cooder, como “Chan Chan”, “El Cuarto de Tula”, “Candela”, “Dos Gardenias”, “De Camino a La Vereda”, “Veinte Años. O show também reflete a experiência da banda, o passado e presente, com homenagens a muitos dos músicos antigos e dos mais recentes que contribuíram tão ricamente para a história.

Os ingressos a partir de R$ 130 estão à venda no site Uhuu e na bilheteria do Teatro do Bourbon Country. No dia do show, a partir das 16h, também haverá venda no Auditório Araújo Vianna.

Sobre o show, os integrantes do grupo que já se foram, a resistência em manter o legado da música cubana e as parcerias com outros músicos e com os brasileiros estão em pauta nesta entrevista com o violonista e fundador da Buena Vista e também do grupo Patria, Mira entonces la charla con Don Eliades:

Diálogos – A Orquestra Buena Vista Social Club fez uma turnê de adeus e agora está voltando para se despedir. Então, ainda assim, esperamos ver shows em grupo após a apresentação de 15 de maio em Porto Alegre?
Eliades Ochoa – Olá, estou feliz em visitar o Brasil novamente depois de muito tempo. A esperança é a que nunca deve ser perdida, desde se tenha saúde, eu estarei no palco tocando para os seguidores de Eliades as músicas de nossa herança cubana, como sones, boleros, guarachas, a fim de agradá-los.

Como fundador do Buena Vista Social Club, desejo que vocês continuem a amar a música tradicional cubana e a do Brasil é muito interessante. Junto com o grupo Patria, que eu dirijo desde 1978, projetei orgulhosamente desde Santiago de Cuba parte do repertório que trabalho e estou contente em apresenta-lo no Brasil.

Diálogos – Como é o repertório atual da turnê? Que música foi tirada e o que foi incluído em relação à turnê Adios de 2015?
Eliades Ochoa – No show, tocaremos músicas familiares que fazem parte do bem-sucedido projeto Buena Vista Social Club, além de temas que faço com os músicos do meu grupo. Para aqueles que admiram “Chan Chan”, “Cuarto de Tula”, “Carretero”, eu lhes prometo que no repertório não faltarão e, de bom grado, convidamos vocês a desfrutar a nossa música, é um encontro de família carregado de calor humano, emoções e aplausos. Esta é a melhor recompensa na carreira de um artista.

Como lidar com as perdas sofridas pelos grandes nomes de Buena Vista, como Rubén González, Compay Segundo e Ibrain Ferrer?
Eliades Ochoa – Artistas como Rubén, Ibrain, Compay desapareceram fisicamente, mas no palco nunca se foram. Veja que todos nós fazermos suas músicas. Sempre fomos uma família bem entrosada desde a gravação do famoso best-seller “Buena Vista Social Club”. Grupos nacionais e estrangeiros gravam suas canções. Agora eles sabem que esta música se espalhou pelo mundo. Sei que estão felizes e eu estou contente em tê-los conhecido.

Diálogos – Como está a carreira de Eliades Ochoa fora dos trabalhos da Orquestra Buena Vista?
Eliades Ochoa – A carreira de Eliades Ochoa fora do Buena Vista continua firme. Sempre fui respeitado pelo público cubano e estrangeiro. Eu gosto de fazer as coisas direito. A música tradicional cubana é minha paixão desde a infância e ainda continuo trabalhando com ela. Eu tenho dois discos gravados recentemente. Canções conhecidas e outras de Eliades, e as colaborações não faltam com músicos de outros gêneros como o jazz.

É interessante transmitir e receber, não importa de onde seja a música. Eu realizei concertos nacionais e internacionais e continuo fazendo música. Estou como nunca, que é o título de uma das músicas que eu toco com o meu grupo Patria.

Diálogos – E os parceiros para as apresentações? Existe um convidado para a turnê brasileira? Você já tem amigos brasileiros e parceiros na música (por exemplo, Omara Portuondo já gravou e fez show com Maria Bethânia)?
Eliades – Há muito tempo, eu estive no Brasi com o meu grupo, Patria. Agora, estar com músicos da Buena Vista, me alegraria muito se aparecesse uma proposta para interagir com músicos do Brasil. Contem comigo, produtores, empresários, podem me convidar, sem receio. Sei que existem festivais, projetos interessantes.

Nas redes sociais, as pessoas me perguntam por que eu não fui? Eu digo a eles que há muitos que trabalham para que o músico possa ir, nós somos uma equipe e não é fácil. Deixo um abraço aos meus fãs, obrigado por sempre me convidarem. Minha felicidade é que nos veremos em breve.

Diálogos – Qual é o seu relacionamento com o violão e outros instrumentos de corda que você toca? Como começou, como se desenvolveu, etc.?
Eliades – O relacionamento com meu violão é eterno. Ele conhece todos os meus segredos, haha ​​… É meu fiel amigo, porque eu trato de estar praticando tudo a partir de suas cordas. Eu vou te dizer uma coisa que muitos já sabem: Eu toco violão há mais de cinquenta anos, comecei na minha cidade natal, Santiago de Cuba. A herança desse instrumento eu herdei de papai e mamãe, que foram os melhores mentores.

Nas festas de família que promovíamos e ainda promovemos, todavia escutei muitas músicas que formam o meu repertório. Eu não tenho nenhum estúdio de música, o pentagrama define como manchas no papel, eu não entendo nada disto. Em meu livro “Eliades Ochoa de la Trova para el Mundo”, Grisel Sande explica como eu me iniciei na música.

O livro está disponível pela Amazon. As oportunidades que tive para chegar a me realizar com um artista conhecido eu as devo ao projeto Buena Vista Social Club, a Nick Gold por havermos nos conhecido antes de fazer este famoso projeto. Eu gosto muito dele, porque o seu desejo de levar a música cubana para todos os cantos do mundo foi cumprido e eu sou grato por isso. Acredite em mim, eu estou feliz e realizado…

Diálogos – Em entrevista ao nosso jornal, o escritor Leonardo Padura Fuentes, ele explicou “que Cuba não consegue encontrar uma maneira econômica de se organizar”. O Estado continua sendo o grande controlador da economia. Isso tem sido improdutivo e ineficiente “. Como você analisa a situação atual em Cuba?
Eliades Ochoa – Sobre o escritor Leonardo Padura Fuentes eu posso te dizer que eu sou um músico empírico, não tenho palavras fáceis como vocês jornalistas ou como Padura. Sei que quero continuar como embaixador da música cubana pelo mundo, que afortundamente sempre me recebem de braços abertos em todos os rincões deste planeta.

Agora minha batalha é tentar que os gêneros musicais com os quais trabalho abalham não morram, como são os casos dos sones e dos boleros. Continuar o legado de Ibrain, Rubén, Compay e outros para que suas canções permaneçam neste mundo para sempre.

Diálogos – Fora da música, há alguma interação com outros artistas cubanos, da literatura, teatro, artes visuais, cinema?
Eliades – A interação entre as manifestações da arte funcionam muito bem. Há alguns meses eu fiz um trabalho com crianças do La Colmenita, um exitoso trabalho de Cremata. Além disso, também participei recentemente da trilha sonora para um documentário “Cubanos en Harward University” que é muito interessante.

No Festival Internacional de Cinema em Gibara-Holguín, o diretor Jorge Perugorria me fez um convite e lá trabalhei e compartilhei experiências com artistas de todas as manifestações de arte. Este festival é descentralizado, se move para todas as comunidades, o público é diversificado. Eu estou sempre disponível para este tipo de evento e quero voltar lá e animar as pessoas que admiram minha música.

Redação :