Maurício Dulac: “Temos toda uma preparação para esse processo de merecer ganhar”

Maurício Dulac foi o responsável por criar o departamento de análises de desempenho da CBF – Foto: Lucas Figueiredo / CBF / Divulgação / CP

Por Carmelito Bifano

O auxiliar técnico do Inter Maurício Dulac será os “olhos de Tite” durante a Copa do Mundo da Rússia. A função do gaúcho de Porto Alegre será observar os concorrentes diretos do Brasil e abastecer o ex-técnico da dupla com dados fundamentais para vencer os jogos. Nesse “Diálogos”, Dulac fala sobre o trabalho na Seleção com Tite e com Dunga, sobre a função que irá exercer na Rússia e quem são os principais adversários.

O auxiliar também comenta sobre o momento do Inter. Dulac explica como funciona o trabalho com Odair Hellmann, onde o Colorado pode chegar e outros assuntos. Leia:

 

CP: Como você iniciou o trabalho no futebol?

CP: Como evoluiu até chegar a ser o analista de desempenho da Seleção?

Maurício Dulac: Assumi a função em 2007, quando o Guto (Ferreira, atual técnico do Bahia) era o observador. O grande crescimento ocorreu quando passei a assistir muitos jogos. Tem que gostar de assistir futebol. Não adianta outros fazerem o trabalho e te passarem as observações. Por baixo, assistimos quatro partidas por semana, mais os melhores momentos, mais um lance disso e outro daquilo. No mínimo, quatro em uma semana normal. Se colocar esse tempo de 2007 a 2018 podemos ver a quantidade de jogos que assisti (quase 2,4 mil partidas). Com isso, vamos evoluindo.

Dulac iniciou o trabalho com Dunga e permaneceu com Tite na Seleção – Foto: Lucas Figueiredo / CBF / Divulgação / CP

CP: Qual o principal ensinamento que você passaria para aqueles que desejam seguir a profissão?

Maurício Dulac: A primeira é a dedicação extrema. Às vezes, pode parecer fácil, mas não é. E tem muita gente qualificada no mercado. Passa pelo amor que você sente pelo teu trabalho. Todo mundo que trabalha com o futebol sabe que, você está em casa com a esposa e a filha e elas querem fazer uma coisa, mas eu assisto ao jogo. Elas sabem que vou assistir. Então, tenho um espaço com uma televisão que ninguém mexe, pois tenho que ver os jogos. O profissional tem que abrir mão de muitas coisas com a expectativa de conseguir ser um bom profissional e ser reconhecido.

Não só o profissional da comissão técnica, mas os jogadores abrem mão de muitas coisas para poder exercer a sua função. A nossa também exige isso. Abrir mão de brincar com os seus filhos, por exemplo. Eu fiquei um ano e meio longe (quando trabalhava no Rio com a Seleção) e a família não foi comigo.

CP: Como funciona o trabalho do analista junto ao treinador?

Maurício Dulac: O treinador tem que tomar decisões. Quanto mais fundamentado e mais conversar com as pessoas, melhor ele estará preparado. Eu e o Odair (atual técnico do Inter) fazemos muito isso. Ele escuta todas as pessoas, não só a mim. Claro, estou um pouco mais perto, pelo dia a dia e pelo tempo de trabalho. Com o Tite também é assim. Eu e o Odair tentamos adequar as coisas boas dos grandes treinadores com quem trabalhamos aqui no Inter. Coisas como a tomada de decisão, respeitar ao próximo, que são ideias que trabalhamos bastante.

Dulac levou para a seleção tecnologia de ponta – Foto: Lucas Figueiredo / CBF / Divulgação / CP

CP: Existe ocasiões que você passa ideias, o treinador não segue elas e o resultado não sai como o esperado. Talvez se tivesse usado as suas opiniões fosse diferente. Como é resolvido este tipo de divergência?

Maurício Dulac: Como auxiliar, muitas vezes a gente discorda. Não só por discordar. Tentamos encontrar algumas coisas que o treinador não consegue ver, pois ele tem muitas outras tarefas que tem que estar atento e envolvido ao mesmo tempo. Independente da decisão que ele tomar, estaremos juntos, mesmo que sejam as nossas (ideias) ou não. Vamos trabalhar para que dê certo. Em nenhum momento, vou discordar e afirmar que deveríamos ter feito isso ou aquilo. Não. Vamos trabalhar e torcer para que funcione.

CP: Mas depois há a análise do que poderia ter sido feito?

Maurício Dulac: Depois vem o processo de análise do jogo. Pensamos isso e deu certo? Não deu? Qual o motivo? Muitas vezes as minhas discordâncias também não dariam certo. É um processo de análise de jogo e conversar. Muitas vezes, a gente está na beira do campo e consegue ver que tal situação que tínhamos pensado não está dando certo. Então, fazemos um ajuste no intervalo ou mesmo durante a partida. O futebol não é tão simples como parece. “Se fizer isso vai arrumar”, dizem. Não, pois, às vezes, você faz “isso” e desarruma toda uma situação que está por trás. Então, tem que ser bem estudado. Muitas vezes são feitas no intervalo e, em outras, só no próximo jogo, se não está dificultando muito as situações naquela partida. Quanto menos mudarmos na hora do jogo, mais seguro é.

CP: Como chegou na Seleção?

Maurício Dulac: Eu trabalhava com observação quando o Dunga estava no Inter e, quando ele assumiu a Seleção, tive a oportunidade de ir com ele, mas acabei não aceitando. (Apesar da negativa) Tive algumas convocações para a função. Em uma dessas, quando estava na Copa América, o Gilmar (Rinaldi, coordenador de seleções entre 2014 e 2016) fez o convite para eu ficar ligado diretamente à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Na época, o Inter estava em uma semifinal de Libertadores e o Diego (Aguirre) me levava para o banco em alguns jogos. Naquele momento, entendi que não seria oportuno sair. O Diego caiu, o Odair assumiu e fizemos o Gre-Nal (5 a 0, na Arena) e a partida contra o Fluminense.

Depois daquilo, achei que era o momento de sair e para ver o que iria acontecer. Saí e fiz todo o planejamento da CBF. Criei um setor, pois não existia. Participei da aquisição de materiais e a forma como iríamos acompanhar os jogadores que estavam fora. Quando o Dunga saiu, demos prosseguimento com o Tite. Claro, com muitas evoluções, pois muito mais gente está trabalhando (na área). O trabalho ficou lá e culminará na Copa do Mundo.

CP: Mas, no meio do caminho, você optou por voltar para o Inter?

Maurício Dulac: Sim, a opção foi minha, pela questão familiar. Não consegui levar a minha esposa e as minhas duas filhas. Minha pequena estava tendo um pouquinho de dificuldade no colégio e no dia a dia. Conversei com o Tite. Inicialmente, ele não queria. Ele me dizia, “como tu vai sair da Seleção?”. As pessoas me ligavam e diziam: “Como tu vai sair da Seleção e voltar para um Inter na segunda divisão?”

Agradeço muito ao Tite, pois ele me ajudou. Pensei, “cheguei ao ápice da minha carreira e vou voltar para o Inter, que é um grande clube, mas poderia perder uma Copa do Mundo”. Mas Tite disse que, se eles (integrantes da comissão técnica) conseguissem, voltaria para a Seleção, ajudaria e iria para a Copa do Mundo. Deixou mais claro, então, fiz a escolha certa, pois mais importante que a minha carreira, é a minha família.

Dulac crê que Seleção tem todas as condições de fazer uma boa campanha na Copa – Foto: Lucas Figueiredo / CBF / Divulgação / CP

CP: A tua função mudou nas últimas convocações?

Maurício Dulac: Antes eu era o coordenador de análise e desempenho e analista de desempenho. Na Seleção, temos funções específicas. Um fica diretamente ligado aos adversários. Outro com a equipe. Estou indo para fazer a função de observação dos nossos adversários. Vou ajudar nas funções no dia a dia. Temos o Fernando (Lázaro, do Corinthians) e o Thomaz (Araújo) que ficam especificamente na parte do jogo do Brasil. Eu vou ficar estritamente com os adversários trabalhando muito mais ligado ao Cléber Xavier, profissional com quem tenho uma parceria de longa data.

Tem mais dois observadores que olham todas as outras seleções. Quando passarmos de fase, vou lá e olho o adversário com o material que foi preparado para eles. Vou aos jogos da nossa chave. Se tiver jogo de um futuro adversário, vou e assisto, mas sempre volto para a concentração.

CP: Você estava com o Dunga e seguiu com o Tite, como essa seleção mudou tão radicalmente?

Maurício Dulac: Primeiro, é uma pressão muito grande jogar na Seleção. Vínhamos em um momento… Lembro bem do último jogo contra o Peru. Tomamos um gol espírita e o momento era de uma pressão muito grande em cima daquela Seleção que o Dunga comandava. Passou por um momento de instabilidade e com alguns jogadores não atuando da mesma forma como estavam (nos seus clubes). (A Seleção atual) Acho que deu liga. Claro, tem todo um trabalho do Tite e da comissão técnica.

CP: Os trabalhos são semelhantes?

Maurício Dulac: Não, os trabalhos não são semelhantes. São estilos diferentes de comando. Deu uma situação um pouco melhor com o Tite. Na Copa de 2010, teve (rendimento) com o Dunga, mas não teve os resultados. E futebol é isso, resultado.

CP: Todos nós o conhecemos, mas quem é o Tite?

Maurício Dulac: Para resumir, ele é humano. O mais humano que possa existir na forma de tratar, na forma como fala com as pessoas e em qualquer coisa… É um gestor dessa parte humana como ninguém. Além disso, é um treinador excepcional. Ele sabe. Ele estuda. Acontece um lance e ele manda uma mensagem pedindo para separar. Muitas vezes, olhando um lance de 30 segundos passavámos uma tarde toda para chegar a uma conclusão sobre um posicionamento, sobre uma atitude e uma tomada de decisão. Conseguiu aliar tudo que um treinador precisa.

O Odair tem a parte humana, tem a parte tática, mas estamos em um processo de evolução. O Tite já passou desse processo, está em afirmação e conseguiu transformar essa parte humana na Seleção. Tem muita qualidade como treinador. Quer saber os porquês. Ele treina. Não é só a parte humana. É um baita de um treinador!

 

Cléber Xavier é considerado por Dulac “o espelho” do profissional que deseja ser como auxiliar – Foto: Lucas Figueiredo / CBF/ Divulgação / CP

CP: Dá para buscar o hexacampeonato na Rússia?

 

Maurício Dulac: O Brasil tem condições de fazer uma grande participação. A gente vem pensando em fazer isso. Em jogar bem. O Tite fala muito em merecimento. Merecer chegar a uma final. Merecer ser campeão. É um processo. As Eliminatórias foram assim. Viemos em um processo, começamos a ganhar e o time entrou em uma situação de confiança. Agora começa tudo de novo. Temos uma preparação toda para esse processo de merecer ganhar.

CP: Para o observador dos adversários do Brasil, quais são as seleções que podem vencer a Copa?

Maurício Dulac: Tem algumas boas seleções. França, Alemanha, Argentina, que tem bons jogadores. Tem, no mínimo, umas cinco ou seis seleções que podem chegar a uma final e fazer boas campanhas.

CP: Sei que as funções são muitas, mas qual o trabalho que você faz como auxiliar do Inter? Por exemplo, acompanhei você comandando especificamente a defesa em um treino no começo da temporada… Quais são as outras?

Maurício Dulac é o principal auxiliar de Odair Hellmann – Foto: Ricardo Duarte / Inter / Divulgação / CP

Maurício Dulac: O trabalho é de servir de apoio no dia a dia. Você comentou sobre o trabalho de defesa, que é uma coisa que sempre gostei e é algo com que me familiarizo. Gosto, por mais que não tenha jogado nada (risos). Eu e o Odair temos feito muitas coisas assim, principalmente, na pré-temporada. Quando temos uma semana cheia, ele fica com os atacantes e eu com a defesa. Sempre com o comando dele, pois é um trabalho que fazemos juntos.

Eu e o Odair chegamos cedo ao clube. Ele tipo umas 7h30min ou 7h45min, mas sempre chego um pouco antes (que ele). Planejamos os treinos sempre com antecedência, mas, quando chegamos, precisamos adequar uma coisa ou outra. Um jogador pode ter algum problema (físico) ou outras questões podem mudar. Então, o dia a dia é eu, o Caíco (auxiliar), o (André) Volpe (auxiliar da preparação física), o Cristiano (Nunes, preparador físico) e o Élio (Carravetta, coordenador da preparação física). Nós sentamos, fazemos uma reunião e passamos as funções, para que todos saibam o que precisam fazer naquele dia. Eu coordeno esse planejamento.

CP: Você trabalha há muitos anos com o Odair, fale um pouco sobre o jovem técnico do Inter?

Maurício Dulac: O Odair tem uma coisa muito importante para o treinador, que é saber escutar. Ele deixa as pessoas falarem, dá liberdade. Um exemplo bem claro. Os jogadores chamam ele de “Papito”. A essência dele é assim. Lembro que, logo quando tivemos o convite para assumir, ele me disse: “Não vou mudar isso”. Eu falei para ele mudar qualquer coisa, menos o jeito dele, pois é a essência dele. Se mudar, vai ser outra pessoa.

É extremamente companheiro e escuta as pessoas. É muito pressionado, como qualquer treinador. O dia todo. Esse é só o começo. Claro, começamos no Inter que é o top, mas acredito que ele terá uma excelente carreira.

CP: Foram duas semanas de pré-temporada, o que é pouco para a preparação, mas vocês estão há seis meses trabalhando neste projeto. Como você vê o estágio do Inter no momento (a entrevista foi realizada após o Gre-Nal da Arena que terminou em 0 a 0)? O Inter, anteriormente, nos anos 2000, e o Grêmio, atualmente, demoraram anos para criar uma equipe vencedora. Pelo clube ser gigante, a torcida exige resultados em todas as partidas, mas a equipe está em formação, como equalizar os dois temas?

 

CP: Você tem o desejo de ser treinador?

Maurício Dulac: O meu projeto hoje é ser o melhor auxiliar que eu puder. Talvez, com mais tempo, eu pense em ser treinador, mas, hoje, é ser o melhor que eu puder como auxiliar.

CP: Qual o auxiliar técnico que você procura se espelhar?

Maurício Dulac: Eu gosto muito do Cléber Xavier, que é o auxiliar do Tite. Tento me espelhar nele, pois é muito centrado, tem opinião, que discorda e, às vezes, vai para o pau mesmo com o Tite. Gosto desta forma que ele atua. Até por ter trabalhado muito tempo com ele e por conviver com ele na Seleção. Se chegar um pouco perto dele, vou ficar feliz.

CP: A função de auxiliar está mais valorizada?

Maurício Dulac auxilia nos trabalhos do dia a dia e é o responsável pela programação de trabalhos – Foto: Ricardo Duarte / Inter / Divulgação / CP

Maurício Dulac: Eu acho que os próprios treinadores passaram a valorizar mais. Antigamente, os treinadores se fechavam e tinham que tomar muitas decisões. Hoje começaram a abrir mais isso por uma forma de agir, que julgo correta. Eles começaram a ver a importância do trabalho e a destacar os auxiliares nas conquistas.

Assim como os jogadores sabem quantas pessoas precisam estar em volta para ganhar um jogo. Se pegarmos todo o vestiário, são os 11, mais a pessoa que limpa, o Seu Gentil (da rouparia) que limpa a chuteira deles todo o dia, a pessoa que serve o cafezinho, o cara que entrega o uniforme limpinho e dobradinho. Acho que as pessoas estão se dando mais valor para as outras, por uma questão de consciência.

CP: Chateou muito o fato de um companheiro de profissão (Renato Portaluppi após o Gre-Nal) menosprezar o trabalho de vocês?

Maurício Dulac: Não me afetou em nada. Preferi nem ouvir ele falar, pois tenho o Renato como um espelho. Vejo ele fazendo bons trabalhos e vejo o time dele jogando de um jeito muito bom. Não podemos falar nada diferente, pois o Grêmio é disparado na frente dos outros o melhor time do Brasil.

Não sei se foi o momento, pois… talvez, se criou uma expectativa muito grande no jogo. Não só deles, mas de todas as pessoas, que ia ser um massacre. Talvez, isso tenha levado ele a fazer… mas, sinceramente, não me afetou em nada porque o meu foco é no trabalho. Tenho que pensar na Chapecoense (entrevista realizada no dia 16). No Corinthians e assim por diante.

CP: Deixe um recado para os colorados.

Maurício Dulac: É preciso acreditar no que está sendo feito no clube. E acreditar que isso é um processo e que não vai ser de um dia para o outro que vamos ser campeões brasileiros. Que não vai ser de um dia para o outro que vamos vencer em casa por três, quatro ou cinco (gols), como ocorria antigamente. É só acreditar neste processo e saber que as pessoas que estão trabalhando com o maior respeito e com a maior vontade de ganhar.

Queremos ganhar, mas não é varinha mágica, que encosta e saem os gols. Eu sei que é difícil jogar e não ganhar. Como foi contra o Cruzeiro, quando jogamos muito bem e a bola não entrou. A frustração que ficamos quando isso ocorre é mais ou menos a da torcida quando não ganhamos os jogos. Temos que acreditar no trabalho. Treinador e auxiliar é 24 horas pensando em como melhorar, os motivos de ter levado gol, as razões de não ter marcado, então, a maior vontade de ganhar é nossa, da comissão técnica. Temos que provar. O Inter nos deu a oportunidade e é a melhor que temos, por isso, temos que provar.

Redação :