Criolo: “O Brasil é um país plural, amado pelo mundo todo, que não merece estes políticos que tem”

Foto: Otávio Sousa / Divulgação / CP Memória

Dois dos maiores artistas do rap nacional, Mano Brown e Criolo fazem apresentação que já pode ser considerada histórica no Pepsi On Stage (Severo Dullius, 1995), nesta sexta, a partir das 20h (show principal às 23h30min). O show que terá abertura do Grupo Rafuagi celebra a carreira de dois gigantes do rap nacional e da música brasileira: Criolo e Mano Brown. Com realização da BMoov, o encontro apresentando sucessos e clássicos da carreira de ambos, assim como faixas inéditas e revisita passagens marcantes dos Racionais MCs, além da interação da dupla. Nesta entrevista ao Correio do Povo, Criolo fala sobre a honra de estar com um ídolo num show, o pouco espaço que ainda é dado para o rap e para a periferia em geral e sobre a vergonha que tem da classe política, que um país plural e amado pelo mundo todo como o Brasil não merece.

Correio do Povo: Como é que vai ser esta parada de se apresentar com o Mano Brown?
Criolo: Para mim é muito especial este encontro, muito emblemático. O Mano é um ídolo, a gente já tem uma amizade de algum tempo, mas nunca tinha passado pela cabeça da gente, a ideia de fazer um show junto. É um momento único, de celebração de uma série de coisas da gente. Ele vem do fundão do Capão (Redondo), eu venho do fundão do Grajaú. Para a gente, isto é muito forte. A vida foi um pouco dura ali e poder viver este momento é especial para os dois.

CP: Neste show, qual será a referência de cada um em separado e juntos?
Criolo: Este show começa do zero. Não é um show do “Nó na Orelha” ou do “Espiral de Ilusão”, nem do Racionais ou do “Boogie Naipe”. É um show montado do zero com nós dois. É um espetáculo inédito. Ele canta os grandes sucessos dele e dos Racionais, os grandes clássicos e eu vou cantando algumas canções que foram colando nas pessoas, isto tudo pautado no rap. Rap de ponta a ponta.

CP: Estive na Flip recentemente e vejo que há mais espaço ou protagonismo da periferia, de quem tem que mostrar algo e não conseguia. Isto está acontecendo ou ainda não é o suficiente?
Criolo: Ainda temos que ter mais espaço. É muito pouco ainda. Pessoas como a Bell Puã, a Djamila Ribeiro, o Sérgio Vaz são muito especiais, de alma linda, maravilhosas, e fazem muito para abrir estes espaços. A gente ama estas pessoas e sabe que tudo que elas conquistaram foi com muito suor. Que bom que estas coisas estão acontecendo em locais como a Flip, feiras, eventos de música e feiras, mas ainda falta muito, tudo ainda acontece lentamente. O espaço ainda não é o que todas estas pessoas merecem. Tem que acontecer mais.

CP: E o grupo que fará a abertura do show de Porto Alegre, o Rafuagi, o que podes dizer. Tens algumas trocas com rappers do Sul?
Criolo: Conheço o Rafuagi desde 2005 quando eles iam lá para São Paulo. São muito talentosos. Eu tento sempre, mas eu chego no aeroporto de uma cidade, vou para o hotel e já tenho ensaio. Você se alimenta, dorme e aí já tem show, sai de novo. Não dá muito tempo, mas eu gosto muito quando rola esta troca com os grupos locais.

CP: E a situação do Brasil atual, política, de costumes, econômica, relações entre as pessoas?
Criolo: É um umbral, né. Muita tristeza, muito retrocesso, muita gente achando que é melhor que as outras, mergulhando no abismo dos seus equívocos. Chegou no nível máximo, hard, esta tristeza absurda, total. Rapaz, você veja bem, o Brasil é um país plural, amado pelo mundo todo, que não merece estes políticos que tem. Temos pessoas de grande potencial que conseguiram se destacar e tiveram um certo tipo de estrutura ou que não tiveram e mesmo assim aconteceram. Quantos talentos nós temos aqui na literatura, na música, na ciência, na área de humanas, em todos os setores, na tecnologia. Somos um povo maravilhoso, inteligentíssimo, que tem a criatividade como seu grande atributo, que consegue sobreviver ao próximo dia. O caminho de achar soluções é nosso. As pessoas do mundo todo elogiam o tamanho da criatividade, da inteligência e de luta do povo brasileiro para você ter um candidato a vice-presidente que diz que “descendente de africano é malandro”, meu Deus. Quando chega nesse ponto, a fratura está exposta.

CP: Deixe um convite ao público para este show.
Criolo: Se vocês puderem ir a este show, por favor vão, porque será uma celebração, mostrando tudo que o rap pode dizer e tentar mudar esta situação que está aí.

*Por Luiz Gonzaga Lopes

Redação :