Daniel Furlan: “É um elogio a pessoa não saber que sou eu que estou ali”

 

Ator, quadrinista, roteirista, dublador e humorista. Daniel Furlan representa a cara do novo humor no país, à frente de programas que caíram nas graças da internet como Choque de Cultura, Falha de Cobertura e Último Programa do Mundo. O capixaba de 38 anos, que começou sua carreira na Revista Quase, esteve presente na ComicCon RS, em Canoas, no penúltimo final de semana. Em entrevista ao Correio do Povo, Furlan falou sobre o reconhecimento dos fãs, o começo de seu trabalho e alguns projetos futuros.

 

Correio do Povo: Como foi para vocês sair da Revista Quase, que era um trabalho em quadrinhos, e ir partir para o humor, com a TV Quase?

Daniel Furlan: Foi acontecendo porque parte de nós começou a trabalhar com audiovisual em paralelo à revista. O Juliano (Enrico) começou a fazer um documentário e ganhou o edital para fazer o Doc TV e aí começou a fazer documentário, e com isso passou a ter em casa uma ilha de edição, montou uma estrutura. Então ele tinha ilha de edição, câmera. Enquanto isso o Raul (Chéquer) estava trabalhando de câmera na TV Assembleia do Espírito Santo, a escola de humor dele foi lá. Então a galera estava mexendo com isso e pessoal começou a botar essa pilha, de fazer vídeo e tal. Na verdade eu era totalmente contra, achava que não tinha nada a ver, que era loucura. Sei lá, queria continuar fazendo quadrinhos, mas acabei sendo voto vencido, sendo convencido pela maioria.

CP: Você trabalha com roteiro há muito tempo, mesmo em programas de sucesso. Mas era diferente a questão do reconhecimento, porque você escrevia para os outros. Como foi a transição neste sentido de você passar a ser o cara reconhecido pelo público? Em que momento a chave virou?

Daniel Furlan: Não sei, porque no programa da Tatá (Werneck, Lady Night), a gente já fazia coisas em que eu aparecia. E acho normal, porque também têm coisas que eu falo que às vezes não fui eu que escrevi e acabo recebendo os méritos, porque as pessoas às vezes esquecem que alguém escreveu aquilo. Então quando acontecia o contrário comigo, eu escrevia e a pessoa falava como se fosse uma grande doideira, é normal. E a Tatá também, como ela tem um jeito único de falar as coisas, ela coloca o DNA dela em tudo. Fora que há muita improvisação dela. É um programa que se mudar todo o time de roteiristas, se mantém firme porque a Tatá é muito presente em todas as etapas do processo.

CP: Em programas como o Choque de Cultura e o Falha de Cobertura, o que tem de improviso ali e o que é roteiro? E mais, cada ator escreve para o seu próprio personagem?

Daniel Furlan: Todo mundo escreve para o personagem de todo mundo. Quando estamos fazendo o brainstorm, escrevendo as ideias, elas às vezes já saem com a cara de algum personagem, às vezes sai alguma ideia que depois a gente vai ver quem vai falar… e todo mundo escreve para todo mundo. Dos quatro atores que são roteiristas e atuam e também do pessoal que é só roteirista. Em relação ao improviso, tem menos improviso do que parece. Tem improviso, tem roteiro e ele parece que é mais improvisado. Mas ele é mais roteirizado do que parece.

CP: São poucos os momentos de improviso então capazes de tirarem vocês dos personagens a ponto de rir ali mesmo, então?

Daniel Furlan: No Choque, muito mais do que no Falha, a gente passa muito as coisas, então chega na hora de gravar e a gente não ri porque já falamos aquilo 300 vezes e aí um já sabe o que o outro vai falar. Mas quando alguém fala alguma coisa de improviso, às vezes alguém ri. Mas no Choque a gente tem mais opções de câmera para fugir de quem tá rindo, no Falha nem tanto. Mas teve coisa do Choque que a gente riu também. Têm coisas que até entrou no corte final, se você reparar em um plano mais aberto, tem alguém começando a rir e aí corta.

CP: Isso porque é, digamos, a terceira versão, na primeira vocês riem mesmo?

Daniel Furlan: Muito não, a gente ri pouco. Mas a gente ri algumas vezes. Sei lá, a gente ri uma vez por dia, mais um menos, para pegar uma média. Gravamos quatro programas por dia, tem uma vez que alguém se perde e ri.

 

CP: Como funciona o processo de criação em termos de tempo e agenda, já que são vários programas? Acontece de vocês estarem, por exemplo, gravando o Choque e aparecer alguma coisa para o Falha?

Daniel Furlan: A gente tenta separar, senão… Óbvio que às vezes você está fazendo alguma coisa e surge uma ideia que é muito para o outro programa. Mas a gente tende a, quando está fazendo uma coisa, ficar mergulhado naquilo e ficar usando todas as ideias que temos para aquilo. A gente faz por temporada, então, por exemplo, durante a Copa do Mundo estava todo mundo mergulhado no Falha até a Copa acabar. E agora a gente começou a escrever a temporada nova do Choque.

CP: Já existe alguma previsão de estreia da nova temporada?

Daniel Furlan: Talvez em setembro, mas é neste segundo semestre.

CP: Se estuda aumentar o número de episódios por temporada? Vocês têm uma parceria com o (site) Omelete no Choque. Eles pediram mais episódios?

Daniel Furlan: Não, não pediram não. A gente achou que o número de episódios da temporada foi um número bom, que foram 12. Na verdade foram 12 mais os extras, então na verdade são 24.

CP: Surge muito convite para vocês migrarem do YouTube para a TV fechada ou aberta? Vocês acham que é um caminho natural?

Daniel Furlan: Não digo um caminho natural, mas se for uma coisa legal de fazer. Estou fazendo o Samantha, no Netflix, agora vou participar de um programa para a HBO, chama O Pico da Neblina, nem sei se pode falar, acho que pode…

CP: Há ainda o filme de vocês, não?

Daniel Furlan: Tem um filme que estou eu e o Caíto (Mainier), que é Uma Quase Dupla. Eu e ele estamos escrevendo um filme. E tem conversas tanto para um filme do Falha como do Choque. Mas pelo papo que saiu, parece que está mais adiantado do que está. O filme do Falha tem o roteiro bem adiantado, está, sei lá, no sexto tratamento, então nesse caso temos mesmo um roteiro. Mas nada garante que ele vai ser filmado um dia, temos o roteiro e só isso. Até existe o interesse de ser filmado, mas não há nada além disso. Porque saiu uma notícia que parecia que já estávamos indo fazer o filme. E o filme do Choque têm algumas ideias só, uma vontade da gente de fazer, tem mais uma ideia ou outra, não há nada escrito. Seria um projeto mais para frente.

CP: Você é formado em publicidade. Sempre quis trabalhar com humor ou foi algo que conseguistes encaixar dentro da publicidade?

Daniel Furlan: Na verdade nem pensava em trabalhar com humor e nem foi algo que se encaixou. Quando eu fazia publicidade, arrumei um estágio em uma agência e aí foi um pesadelo e eu desisti de trabalhar com isso. E não tinha pretensão de trabalhar com humor, mas começamos a fazer a revista em quadrinhos. Eu tinha alguns quadrinhos que eu fazia e publicava esporadicamente em um jornal aqui, em um site ali, mas também só quando alguém me chamava, sem muita ambição. E aí quando conheci o pessoal da Quase, que eles estavam com essa ambição de fazer a revista, aí comecei a me empolgar e a ver ali uma possibilidade de me dedicar mesmo, a gente era muito focado na revista. Eu queria ser cartunista, achava que ia ganhar dinheiro. E aí acabou que foi para um outro lado, de audiovisual.

CP: Você tem também projetos musicais, né?

Daniel Furlan: Tinha, né. A banda (Ócio) acabou há pouco tempo, esse ano.

CP: E você pretende fazer alguma outra coisa neste sentido?

Daniel Furlan: Infelizmente sim. Não consigo não fazer. É um saco porque fica naquelas “ah, vamos fazer uma banda”. E sempre dá errado. Mas provavelmente vou tentar fazer alguma outra coisa, mesmo contra a minha própria vontade. Não consigo não fazer. Então ano que vem vou fazer alguma coisa, outra banda, não sei. É porque ficamos distantes uns dos outros, um foi morar em Belo Horizonte, eu estou em São Paulo, tem outro em Vitória.

CP: Uma curiosidade em relação ao (personagem) Craque Daniel? Ele se diz ex-jogador. Em que posição ele jogava?

Daniel Furlan: É um grande mistério, até mesmo se ele realmente jogava, não se sabe. Ele se orgulha de nunca ter repetido um lateral, então não sei se é porque ele era lateral ou porque nunca cobrou um lateral e por isso nunca reverteu. Nem sei se eu já falei que ele fazia muito gol, acho que não. Mas não tenho essa informação.

CP: Quando começou o reconhecimento de vocês na rua? E dentro dessa pergunta, como foi aquela temporada em que vocês gravaram “O Último Programa do Mundo” na rua?

Daniel Furlan: Teve uma vez que a gente foi gravar no centro de São Paulo e estavam tacando fogo em um ônibus e a polícia jogando bomba em todo mundo. E saímos para a rua sem saber que estava rolando tudo aquilo, era só para ser um programa de externa. Aí alguém da produção falou: “Olha, está rolando um quebra-pau na Praça da Sé, vamos para não sei onde para evitar”. E eu disse que não, íamos justamente para lá, vamos para perto. Fomos e em alguns momentos tivemos que sair correndo e tal, mas nada de grave aconteceu. Foi maneiro gravar perto da bagunça, polícia fogo no ônibus, até porque tinha tudo a ver com o programa. Quanto ao reconhecimento, não sou um cara muito parado na rua. De vez em quando uma pessoa vem e fala, mas nunca foi uma coisa de um dia eu saí e todo mundo veio. Foi tão gradativo que quase não deu para sentir. Quando a gente fazia a revista, em Vitória, tinha uma galerinha que era bem de nicho, mas conhecia a revista, tinha então um pessoal que conhecia o trabalho. Quando fui para a MTV, passou a ser um pouco mais. A partir do “Último Programa do Mundo”, quando eu pegava o metrô para ir embora, já dava para sentir. E o “Choque” ainda mais.

CP: Tanto o Choque quando o Falha possibilitam, por ser internet, que vocês tenham uma noção mais precisa do público que assiste os programas. Vocês conseguem ter uma ideia de qual é o público de vocês hoje em dia?

Daniel Furlan: Não, a gente não olha muito essas coisas. Com o Choque, deu uma estourada na bolha, eu acho. Antes, as pessoas que nos paravam na rua, a gente meio que já sabia quando alguém vinha falar, pela faixa etária, o jeito de se vestir. Hoje em dia, com o Choque, isso mudou. São pessoas bem mais velhas, bem mais novas. O (desenho) Irmão do Jorel também, se bem que aí eu não apareço, né, mas o público tá ali. Mas o Choque deu uma esticada na faixa etária, deu uma aumentada no espectro, não saberia te dizer.

CP: Os seus personagens têm toda uma caracterização, que é mais elaborada que a de outros atores no Choque. É mais fácil de reconhecer, por exemplo, o Leandro (Ramos) na rua do que associar você ao Renan, no Choque, ou ao Craque Daniel, no Falha. Acontece deles serem mais reconhecidos que você?

Daniel Furlan: Sim, às vezes, quando a gente está na rua as pessoas vão falar com eles e não percebem que eu estou ali também. Perguntam de mim, inclusive, e eu estou ali. Eu acho isso bom. O ruim só é que às vezes eu fico ali do lado sem ter o que fazer. Mas é bom porque acho para mim um elogio a pessoa não saber que sou eu que estou ali.

CP: O que vocês acharam das fantasias do Choque de Cultura durante o Carnaval?

Daniel Furlan: Muito bom. Eu tenho umas máscaras em casa. O Juliano passou o Carnaval no Rio de Janeiro e pegou algumas.

CP: Tu já saiu com a tua própria máscara?

Daniel Furlan: Não, só tirei foto, mas ainda não saí. Mas tenho em casa.

*Por Carlos Correa e Roberta Requia

 

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