Luiz Claudio Ramos: “Eu e o Chico temos uma grande identidade musical”

“No meu método, eu resolvo tudo em quatro escalas”, diz Luiz Claudio Ramos. Foto: Aveda / Divulgação / CP

O violonista carioca Luiz Claudio Ramos, de 69 anos, é autodidata, largou os estudos de Medicina para se dedicar à música, já gravou e tocou com grandes nomes da música brasileira: Tom Jobim, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Elis Regina, Cristóvão Bastos, Fagner, João Donato, Edu Lobo e claro com Chico Buarque, de quem é fiel parceiro e instrumentista desde 1973, quando gravou a música “Bárbara”, da trilha de “Calabar, mas que assina desde 1989 a direção musical dos discos e shows de Chico. Depois, eles se aprofundou em 1975, com “Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo” e ficou definitiva desta 1993 com “Paratodos”. Entre tantas canções de Chico, Luiz Claudio assina duas parcerias com ele: “Outra Noite” (de “Paratodos”) e “Cecília” (de “As Cidades”). O primeiro arranjo completo foi com “Mulheres de Atenas” (“Meus Caros Amigos” – 1976).
Nesta sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h, quando o público gaúcho vai se deparar pela primeira vez com o show da turnê “Caravanas”, no auditório Araújo Vianna (Osvaldo Aranha, 685), com ingressos esgotados, Chico mostrará nas quase 30 músicas que serão executadas deste disco de 2017 e de grandes momentos da carreira a força dos arranjos de Luiz Claudio, que é filho de uma gaúcha de Pelotas, dona Flora, falecida em 2002 aos 93 anos, ela mesma de uma família de 11 irmãos músicos, nem todos profissionais.  “Minha mãe tocava piano, violão e cantava. Executava peças complicadas de Debussy, Chopin e Ravel ao piano. Não tinha como eu não ser músico”, conta o diretor musical dos discos e shows de Chico, que é pai de um método de análise funcional para composição baseado em somente quatro escalas. Confira a entrevista com este genial parceiro de Chico Buarque neste Diálogos.

Correio do Povo: O que mudou na proposta de “Caravanas” em relação aos discos anteriores?
Luiz Claudio Ramos: Em tese, não mudou nada de “Carioca” para “Caravanas”. A trajetória do Chico nos últimos discos é mais ou menos evolutiva. Não vejo grandes mudanças de comportamento ou de proposta. Do disco para o show é que precisamos fazer uma adaptação dos arranjos. No disco, a gente tem mais possibilidades de orquestração, mas no show são adaptações. No caso da canção “Caravanas”, o funk, o beat box foi adaptado pelo Marcelo Bernardes (sopros) com a percussão do Chico Batera.

Correio do Povo: Como começou esta parceria e o que representa esta parceria tua com o Chico?
Luiz Claudio Ramos: Eu comecei a parceria somente como músico contratado. A primeira gravação que eu fiz foi “Bárbara”, no disco “Calabar”, que foi arranjo do Edu Lobo. Naquela época, no início dos anos 1970, eu estava entrando, vamos dizer, no mercado de gravação e fiz esta música. Eles gostaram e a partir daí eu passei a gravar com o Chico como músico. No show “Chico e Bethânia”, em 1975, eu comecei a participar um pouco mais na elaboração das harmonias. Quem fez os arranjos para orquestra foi o maestro (Lindolpho) Gaya. Eu já comecei a adaptar as harmonias junto com o Chico. Depois disso, eu participei de vários discos que ele fez e o primeiro arranjo que eu fiz para orquestra foi o “Mulheres de Atenas” (do disco “Meus Caros Amigos”, de 1976). Depois do show com a Maria Bethânia, ele passou um longo tempo sem fazer temporada, fazia shows esparsos, foi para Cuba, Angola, outros países. Nestes shows fora do país eu nem sempre tocava com ele. Não tinha dedicação exclusiva. Ele só retomou os shows regulares, com turnê, a partir do disco “Francisco”, de 1987, que tinha arranjos do Cristovão Bastos. Ele fez este disco a partir de um grupo que ele montou para o programa “Chico e Caetano”, em 1986. No disco seguinte chamado “Chico Buarque”, de 1989 – ele tem mais de um disco com este nome -, que tem “Morro Dois Irmãos” e “O Futebol”, aí eu fiz a maioria dos arranjos. Foi a partir do “Paratodos”, de 1993, que eu assumi a direção musical e que tenho feito a direção musical de todos estes shows.

Correio do Povo: Como se deu a “liga” para que você assumisse a direção musical dos discos e shows do Chico?
Luiz Claudio Ramos: Acho que foi devido a uma grande identidade musical entre a gente. Temos um tipo de cabeça parecida para a música, de uma mesma geração. Eu toco violão, ele também. Nós respeitamos os tempos um do outro. O processo pode ser bem demorado. O Chico entrega as músicas aos poucos para a gente fazer os arranjos. Também somos flexíveis quanto aos arranjos. Eles não ficam prontos, vão sendo trabalhados, inclusive com mudanças em meio às turnês, é um processo evolutivo. Temos liberdade dentro daquilo que o Chico quer desta ou daquela música. É uma parceria sempre em construção.

Correio do Povo: Duas músicas do disco “Caravanas” e consequentemente do show remetem a um elo familiar muito forte: “Massarandupió” e “Dueto”, uma por causa da parceria na composição com o neto Chico Brown, a outra pelo duo com a outra neta, Clara, irmã de Brown. Que grau de emoção acompanha estas duas canções no show?
Luiz Claudio Ramos: A “Massarandupió” é uma parceria. Então tem a ligação de parceria dele com o neto, Chiquinho, que é emocionante no sentido de criação mesmo. E a canção “Dueto” já foi gravada com outras cantoras (Nara Leão e Zizi Possi) e ele convidou a irmã do Chiquinho, a Clara, para participar do disco, pois eles já haviam registrado a música no documentário (“Chico, um artista brasileiro”, de Miguel Faria Jr., de 2015). É a continuidade da prole, da raça, da estirpe musical. Eles participaram do disco, mas nenhum dos dois acompanha a turnê pelo país e Europa. Eles foram em várias apresentações do Rio e São Paulo e o Chiquinho apareceu em Salvador, mas eles não participam da trupe e pelo que eu sei não irão a Porto Alegre, só se for meio de surpresa.

Correio do Povo: Queria que você falasse sobre outros parceiros seus, músicos com os quais gravou ao longo destas cinco décadas de carreira?
Luiz Claudio Ramos: Naquela época em que eu comecei, que foi o boom fonográfico no país, que ficou mais evidentes nas décadas de 70 e 80. Eu apareci com algumas novidades, como pedais de distorção e wah-wah, que eram os efeitos de guitarra modernos à época, e aí entrei no mercado e toquei com muita gente, a Elis Regina, por exemplo, o Sérgio Ricardo, o Wilson Simonal, o Caetano Veloso, o Edu Lobo, o meu irmão Carlos José.

Correio do Povo: E as ligações com o Rio Grande do Sul, parceiros, amigos, familiares?
Luiz Claudio Ramos: Eu já trabalhei com vários músicos gaúchos. Eu mesmo sou de família gaúcha. Minha mãe, Flora Antunes Maciel Ramos, era gaúcha de Pelotas, nascida em 1909 e falecida em 2002, com 93 anos. Acho que pouca gente sabe sobre esta minha origem. Minha mãe conheceu meu pai, Kylvio, em São Paulo, porque uma parte da família da minha mãe se mudou para lá. Ela era de uma família que tinha 11 irmãos e todos eles eram músicos, tocavam ou cantavam de alguma forma. Tinham outras profissões, mas todos exerciam música. Minha mãe tocava piano, tocava violão e cantava também. Todos tinham ligações e em um nível muito alto de desenvolvimento em música. Eu tive um tio que foi morar em São Paulo e que compunha muito bem músicas mais clássicas. A minha mãe tocava Chopin, Debussy, Ravel. Uma tia que morou a vida inteira com a gente tocava violoncelo. Vários deles tocavam piano. Eu comecei a tocar violão sem parar mais desde os 14 anos de idade. Eu tenho um irmão que é cantor profissional, o Carlos José. Ele é o mais velho de nós quatro, eu sou o mais novo. Os outros dois, Roberto e Maria Teresa (já falecida) também se envolveram com música, mas não profissionalmente. Ela cantava na igreja e ele tocava violão bem.

Correio do Povo: Uma última pergunta. Você também é muito reconhecido por um método específico de lidar com a música, das quatro escalas. Explique um pouco desta sua descoberta.
Luiz Claudio Ramos: Foi numa noite de 1986 que tive o estalo deste método que passou a ser muito interessante e que recentemente gravei um workshop para uma escola virtual chamada Planeta Música. Eles gravaram comigo durante a temporada do show em São Paulo. Acabei entendendo como funcionava a música. Parece pretensão. Elaborei um método, uma análise funcional, para escrever, compor, harmonizar, improvisar. Eu resolvo tudo basicamente com quatro escalas e passei a usar este método em todas as músicas que fiz desde então.

*Por Luiz Gonzaga Lopes

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