Porto Alegre, 02 de Agosto de 2014

Resultado Posts em abril de 2013



Entrevistas marcantes: Eribon e a homofobia

Postado por Juremir em 30 de abril de 2013 - Uncategorized

Eribon, a questão gay como espelho da sociedade

Filósofo e especialista em história das ideias, o francês Didier Eribon é um intelectual de prestígio internacional. Professor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, transita com desenvoltura pelas principais universidades dos Estados Unidos. Autor de uma importante biografia de Michel Foucault, publicada em 1989, traduzida em 17 línguas, ficou também conhecido por seus livros de entrevistas com Georges Dumézil, Claude Lévi-Strauss e Ernst Gombrich. Com “Reflexões sobre a questão gay (Fayard, 1999), ele retomou o caminho da polêmica e agitou a imprensa cultural francesa. Pilotando um texto simples e claro, mas extremamente rico em fontes literárias de primeira qualidade, como Marcel Proust e André Gide, sem contar o imenso aparato teórico devedor de Michel Foucault e, em termos mais recentes, de Pierre Bourdieu, Eribon revisita os preconceitos deste fim de século contra o homossexualismo e mostra como o Ocidente constrói o estigma para definir identidades sociais inferiorizadas e excluídas. Militante pelos direitos dos homossexuais, o autor crê na resistência e vê na arte e nas grandes cidades os espaços privilegiados para o exercício de uma mínima liberdade sexual. Sem ilusões, tampouco sem desencanto, revela os mecanismos conservadores de defesa dos privilégios dos homens, dos brancos e dos heterossexuais. Nas campanhas que, pela derrisão ou pelo desprezo, atacam o dito “politicamente correto”, vê o mais recente avatar do terrível medo da igualdade de direitos sexuais. Analista de um tempo pretensamente sem tabus, Eribon denuncia a homofobia contemporânea. As muitas mudanças ainda não transformaram o substrato de um imaginário refratário ao homossexualismo. Curioso é fato de que o livro de Eribon não se impõe como um manifesto. O poder intelectual e analítico supera qualquer simpatia, de resto assumida, pelos movimentos homossexuais. Nesta entrevista que fiz para a Folha de S. Paulo, Didier Eribon exercita o seu passatempo predileto: dar nome aos bois.

JMS — O senhor vem de publicar, na França, um livro instigante e provocador, Reflexões sobre a questão gay, cujo título faz referência a Jean-Paul Sartre. Trata-se de dar um estatuto filosófico ao tema da homossexualidade?

Didier Eribon — Ao escolher esse título, que faz evidentemente referência às Reflexões sobre a questão judaica, de Jean-Paul Sartre, quis, claro, afirmar que se pode e se deve produzir uma reflexão teórica e filosófica sobre a homossexualidade. Colocar a homossexualidade no registro da análise intelectual e não ficar nas habituais discussões polêmicas que irrompem de maneira um tanto irracional desde o momento em que se toca no assunto.

Mas quis também me inspirar na tese desenvolvida por Sartre nesse pequeno livro de 1946: é a sociedade antissemita, escreve ele, que forja o ser judeu, e este não escolha, a não ser aceitar o que é (o que Sartre chama de “autenticidade”) ou então de fugir ao que é na vergonha ou na negação de si mesmo (o que Sartre chama de “inautenticidade”). Parece-me que é a mesma coisa para os gays: a ordem social determina ao homossexual um status inferiorizado, o que determina em profundidade a personalidade e mesmo a identidade dos indivíduos assim designados. E não há escolha. Deve-se aceitar e reapropriar-se dessa identidade ou então vivê-la na vergonha e na dissimulação. No fundo, o conceito sartreano de autenticidade é bastante análogo ao de “orgulho”: pride.

— O seu livro, bastante engajado no combate legítimo aos preconceitos, foi lançado pouco antes do atentado, em Londres, contra um pub gay. O Ocidente chega ao final deste século atolado na homofobia, apesar da aparente evolução dos costumes?

Eribon — Creio que muitas coisas mudaram ao longos dos últimos anos, graças ao surgimento, em escala internacional, de um movimento gay e lésbico que adotou múltiplas formas. Mas isso não fez, evidentemente, regredir a homofobia. Talvez o contrário tenha acontecido: vê-se bem, historicamente, que cada grande momento de afirmação homossexual e de reivindicação do direito à homossexualidade provocou uma reação homofóbica. Basta pensar em Oscar Wilde e na repressão da qual foi vítima. Ou pensar na recepção ao livro de Gide, Corydon. A violência resultante da publicação desse livrinho, que nos parece hoje tão convencional, é simplesmente assustadora. A mesma violência pode ser encontrada por toda parte quando se trata da questão do reconhecimento jurídico dos casamentos entre pessoas de mesmo sexo.

— Para muitos analistas, os Estados Unidos, em nome do politicamente correto, estão vivendo uma caça às bruxas ao avesso, através da qual as minorias se transformariam em juízes implacáveis dos seus opressores. O senhor conhece profundamente a literatura norte-americana sobre o assunto de que trata. Há mais liberdade sexual (homossexual) nos Estados Unidos do que na Europa?

Eribon — Sempre que uma minoria reivindica direitos, desde que um movimento tenta mexer em certas coisas, os guardiães da ordem social mobilizam-se para opor-se às transformações e ao progresso. E um dos grandes temas discursivos dessa mobilização conservadora consiste em afirmar que em breve as minorias imporão a sua ditadura. Ainda aí é possível encontrar tudo isso na história: quando Gide publica Corydon, escritores conservadores revoltam-se questionando: será que ainda se tem o direito de ser heterossexual? Como se afirmar o direito à homossexualidade significasse impedir os heterossexuais de ser o que são. Trata-se da maneira pela qual os dominantes sempre reafirmam os próprios privilégios. Vale lembrar, por exemplo, que foi a direita conservadora americana que forjou a expressão “politicamente correto” para combater e denunciar os movimentos de afirmação dos direitos das minorias. Era uma campanha de difamação contra os movimentos feminista, gay e lésbico, étnicos, etc. Essa campanha teve pleno sucesso, pois aparentava defender o bom senso democrático contra os pretensos excessos de movimentos que só pretendiam derrubar as hierarquias implícitas nos discursos, na cultura, no saber, na política, garantindo e mantendo os privilégios dos homens, brancos e heterossexuais.

— O seu belo livro bebe muito nas fontes literárias, por exemplo, em Marcel Proust, e tem a marca, em ciências humanas, de Michel Foucault e de Pierre Bourdieu. O senhor cita várias vezes A Dominação masculina, onde se encontra uma visão pouco otimista do progresso da liberação das mulheres, tendo sido criticada até mesmo por muitas feministas. A revolução sexual fracassou?

Eribon — Não. A herança dos anos 60 e 70 é bastante considerável e deve-se defendê-la a qualquer preço contra todas as tentativas de retorno às situações anteriores. Mas o que surpreende, e Bourdieu tem razão em salientar isso, é o fato de que todas essas transformações, que afetaram a situação das mulheres, dos gays e das lésbicas, ao menos nas sociedades ocidentais, não alteraram, ao fim e ao cabo, a estrutura mesma da dominação e da opressão. Devemos, portanto, refletir não somente sobre o que mudou, mas também analisar as permanências, as invariantes, e tentar ver, como faz Bourdieu a respeito das mulheres, quais são as instituições que operam para perpetuar a ordem social e a ordem sexual: Igreja, escola, mundo do trabalho, ideologias políticas, etc.

— O senhor mostra, em seu livro, como a injúria serve, muito cedo na vida de alguém, para estigmatizar irrecuperavelmente. As cidades aparecem, então, como o lugar possível da liberação comportamental, onde os estigmatizados podem encontrar espaço para existir. O que é ser homossexual numa época em que todos os interditos, em princípio, teriam desabado?

Eribon — Não é possível apresentar uma definição de homossexual, pois existem mil maneiras de ser homossexual hoje. Certo, porém, é que a sociedade define um lugar estigmatizado para os homossexuais e, por causa disso, eles são assim definidos coletivamente, seja qual for a maneira através da qual cada indivíduo pensa — aceita ou recusa — a sua relação com tal coletivo. Essa definição coletiva parece-me, com efeito, estar simbolizada pela injúria que atinge os “bichas” ou as “sapatões”. Cada gay ou lésbica pode ser vítima da injúria, na rua, no local de trabalho, em cada momento da vida. Mas essa injúria aparece também sob a forma de caricatura nos jornais, na televisão, no cinema. Tudo isso forma o que chamei de um “modo de injúrias”, responsável pela estruturação da relação do homossexual com os outros e consigo mesmo. É essa subjetividade insultada, essa identidade inferiorizada, que se deve superar pela afirmação de si, através da reinvenção da própria personalidade, e da vida, num gesto pessoal e coletivo de afastamento das normas de submissão.

— Na França, em 1998, muito se discutiu um projeto de lei para regularizar a situação dos casais de homossexuais. A direita viu nisso uma casamento “bis”. A esquerda tentou mostrar que não se tratava disso. O senhor acredita que se deve ter a coragem de votar pelo direito ao casamento de homossexuais nos mesmos moldes e com os mesmos direitos dos casamentos heterossexuais? Há quem diga que os homossexuais lutam para ter acesso a uma instituição decadente.

Eribon — A direita opôs-se aos projetos de reconhecimento legal de casais de mesmo sexo. A esquerda tentou limitar esse reconhecimento a alguns direitos simples que não acarretam o reconhecimento simbólico e social do casal de mesmo sexo. São duas versões, diferentes, claro, mas ainda assim duas versões, da ideologia da homofobia: nos dois casos, trata-se de manter os homossexuais numa situação de inferioridade jurídica e social. Por isso me parece fundamental lutar pela igualdade total, com direito ao casamento, à adoção de crianças, etc. Mas, obviamente, reivindicar um direito, lutar pela igualdade de direitos, não significa pregar para os homossexuais o casamento como modo de vida obrigatório. Os gays e as lésbicas inventaram outros modos de vida, outras formas de relação, e não se trata de querer “normalizá-los” reivindicando o direito ao casamento. A questão é de direito. Nada mais. Eu não tenho vontade de casar, mas conheço inúmeros casais que gostariam de fazê-lo. Acho insuportável que sejam impedidos. Existem tantos heterossexuais que não casados e não têm vontade de casar. Isso não lhes tira o direito de fazê-lo se vierem a desejá-lo. Precisa-se alcançar a mesma situação para os homossexuais.

— Com o caso Oscar Wilde o senhor aborda a questão das máscaras, mas também trata da arte que, como as cidades, serve de “refúgio” aos estigmatizados. A literatura (Gide, Wilde, Proust, Isherwood, etc.) desempenharam papel importante para a mudança do imaginário sexual contemporâneo?

Eribon — Fala-se da importância da invenção cultural em dois sentidos: há, por um lado, a cultura literária e intelectual e, por outro, a cultura popular. Por isso, tento estudar como escritores e acadêmicos, entre outros, buscaram dar existência a uma palavra homossexual através de livros, apesar das interdições, dos tabus, da repressão exercida contra eles. Com frequência, tiveram de dissimular o discurso, utilizando “máscaras”, “códigos”. Cada autor tentou beber nas fontes precedentes. Oscar Wilde buscou apoio nos seus mestres, os helenistas de Oxford; Gide apoiou-se em Wilde; e sabe-se que Gide teve enorme influência posterior. Genet, Barthes e Foucault, por exemplo, foram bastante marcados por Gide. E nós somos um pouco os herdeiros de toda essa história.

Mas essa história intelectual só pôde existir por ter acontecido também uma história mais concreta: os homossexuais fizeram existir, nas grandes cidades, e isso já desde de muito tempo, o que se pode chamar de “mundo gay”, constituído de lugares de encontro, de bares, de restaurantes. Essa interação entre os modos de vida gay e a cultura de elite é que me interessou, ainda mais que ela me parece ainda mais forte hoje.

— Como ultrapassar a situação atual de exclusão do homossexual. Pode-se sonhar com uma “utopia sexual”?

Eribon — Não, não creio de jeito nenhum que estejamos nos dirigindo para uma sociedade melhor na qual a opressão exercida contra os homossexuais desapareça. Mas acredito que é possível construir espaços políticos, culturais e sociais de resistência a essa opressão. Não creio em utopia, mas sim em resistência.



Entrevistas marcantes: Eco e a leitura

Postado por Juremir em 29 de abril de 2013 - Uncategorized

O erudito na era da informática

Umberto Eco realmente dispensa apresentação. Em todo caso, vale dizer que ele, o sábio italiano nascido no Piemonte, em 5 de janeiro de 1932, professor de Semiologia na Universidade de Bolohna, autor do clássico Tratado de Semiótica Geral e dos best-sellers O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, foi escolhido para brilhar no Colégio da França, a prestigiosa instituição parisiense criada em 1530 e que não organiza exames e nem emite diplomas. Em resumo, existe para estimular a pesquisa pura, o ensino no grau máximo da sofisticação e coroar a carreira dos eruditos. Na aula inaugural, no dia 2 de outubro de 1992, compareceram ao tradicional rito acadêmico o poderoso ministro da Educação e Cultura da França, Jack Lang, e ilustres jornalistas culturais como Bernard Pivot. Chamado a falar durante quatro meses sobre A Procura de uma Língua Perfeita na Cultura Européia, o mestre viajou da cabala ao esperanto passando pelas reflexões de Dante, Descartes, Wilkins, Raymond Lulle, Porfírio e mais uma infinidade de filosofias, teologias, seitas e códigos secretos. Um voo absoluto no reino da fascinação intelectual. Um mergulho soberano na erudição. Um jogo de livre-associação que só poderia ser superado por um computador programado para estabelecer relações lógicas (e certamente inúteis) a partir do patrimônio cultural da humanidade. Abençoado pelo frio do outono, Eco concedeu esta entrevista. Vertiginoso, aceitou colocar tudo no devido lugar e precisou, outra vez, o papel dos meios de comunicação de massa, a função do erudito, o valor da literatura e, acima de tudo, as características da civilização da informática (segui o seu curso do primeiro ao último dia)

JMS – O senhor mescla erudição e meios de comunicação de massa com perfeição. Trata-se da mistura da cultura considerada legítima com o brilho da mídia ainda menosprezada pelos intelectuais. Como analisar o papel das imagens no mundo atual? Crise da modernidade e ameaça de uma nova barbárie ou expansão comunicacional democratizante ?

Umberto Eco. Uma pesquisa recente, publicada na Inglaterra, demonstra que hoje os jovens leem mais do que os seus pais. Conclusão: a geração da televisão e do computador é ainda encorajada a ler, mais do que em relação às gerações precedentes. Com todos os seus defeitos, é evidente que a civilização dos meios de comunicação de massa faz circular a informação, mesmo superficial, e a informação estimula a necessidade de conhecimento. Portanto, a superficialidade da mídia empurra a juventude a buscar experiências mais profundas e satisfatórias. Na década de sessenta, McLuhan podia anunciar o fim da civilização alfabética e o nascimento do poder da aldeia global. Hoje, entretanto, as telas de computador não mostram imagens, mas textos. Estamos prestes a entrar em uma nova galáxia Gutenberg. A leitura das informações informatizadas esbarra na ausência de aprofundamento, claro. Em todo caso, estou seguro, depois de três horas na frente de um computador, explode a vontade de ler um bom livro. A escrita não perdeu a guerra para a audiovisual. Ao contrário, ela está face à vitória absoluta.

JMS – Erudito e apaixonado pela informática, o senhor associa o sábio do passado, que armazenava informações extraordinárias na memória, e o intelectual da era pós-industrial, ligado aos bancos de dados internacionais. Não o assusta, em uma espécie de ficção científica com forte tendência à realidade, a possibilidade de ser secundarizado pelo cérebro artificial? Dito de outra forma: qual é a função do intelectual ao final do século XX?

Eco – O computador é um instrumento como o eram as fichas dos intelectuais de antigamente. O erudito antigo passava incontáveis dias a pesquisar informações bibliográficas que hoje podem ser manipuladas em segundos a partir de arquivos eletrônicos. Neste sentido, o computador faz simplesmente uma parte do trabalho mecânico que os eruditos do passado eram obrigados a realizar. A fotocópia, no mesmo sentido, permite ganhar o tempo outrora dedicado à cópia dos textos. Na verdade, eu me irrito um pouco com o excesso de informação erudita produzida pelos arquivos eletrônicos. Temo que a abundância possa matar a informação relevante. Se eu vou levantar dados em uma biblioteca, trabalho um dia e adquiro o conhecimento de cerca de trinta livros, dos quais me lembrarei. Mas se aperto um botão e surgem, sobre o mesmo assunto, dez mil títulos, ficarei, em razão da quantidade, impossibilitado de reter as obras verdadeiramente importantes. Do ponto de vista da escrita, pretende-se que o computador é hemingwayniano, frases curtas e secas. Erro: ele é proustiano e favorece a repercussão de todas as contradições. Logo, em face dos novos meios, incontornáveis, os eruditos devem aprender uma nova disciplina de pesquisa.

JMS – Em um texto de 1967, o senhor falava da guerrilha da mídia e questionava-se sobre o verdadeiro sujeito criador das ideologias ou dos costumes, modas e valores. Ainda é pertinente dissertar sobre a potência absoluta dos meios de comunicação de massa, sobretudo da televisão, ou os intelectuais de esquerda, no Brasil, por exemplo, agarram-se a uma análise esclerosada quando denunciam o poder da Rede Globo de fazer e desfazer a realidade ?

Eco – Devemos considerar, mais uma vez, os efeitos da abundância: uma só rede de televisão pode influir sobre as ideias dos telespectadores. Mas quando o mesmo telespectador é submetido a dez redes e viaja entre elas, o que ele absorve é o ruído. Neste caso, a influência da mídia anula-se em vez de crescer e a independência é favorecida. Em um plebiscito recente, na Itália, os grandes partidos e os meios de comunicação que os representavam ou contrariavam resolveram silenciar de modo a estimular a abstenção. A maioria dos italianos, contudo, compareceu às urnas e votou pelo sim. A população tinha aceitado o chamado dos meios menores e rejeitado o comando das grandes cadeias. Existem, de fato, os espaços de escolha e as margens de manobra. Eu condeno a idéia maniqueísta dos falsos intelectuais que consideram a escrita representativa do bem e a imagem como o mal.

JMS – Poder-se-ia imaginar que os meios de comunicação de massa são detentores de poderes absolutos no Terceiro Mundo e domesticados nos países desenvolvidos?

Eco – Para o Terceiro Mundo talvez a situação seja diferente, justamente porque não há possibilidade de escolha entre diferentes mensagens de mídia. Mas é preciso não esquecer que muitos países trabalharam para aumentar o índice de alfabetização, fator positivo, e elevaram a barreira contra a homogeneização midíatica. Precisamos, o que é mais importante, parar de pensar em universos compostos apenas pelos meios de comunicação de massa. As sociedades são plurais. Nos Estados Unidos, Ross Perot comprou enormes espaços na mídia. Clinton optou pelas equipes de jovens voluntários que estabeleceram contatos corpo a corpo. Qual foi o resultado? Se os meios de comunicação de massa fossem mesmo possuidores de todo o poder, Perot teria vencido. O tecido social, felizmente, é articulado de modo plural.

JMS – Houve o tempo do estruturalismo, da linguística, da semiótica, da semiologia e dos mestres da área, entre os quais Umberto Eco. Eram modas? Passado o período de febre, qual o balanço possível?

Eco – Sempre acontece de certas disciplinas ou correntes artísticas gerarem sua própria moda. Depois, passado o apogeu, vencida a moda, resta a pesquisa. Necessitamos julgar as investigações, não as aparências. Ultrapassamos a época em que um movimento destruía o anterior, de acordo com uma visão hegeliana da história. O que caracteriza a nossa civilização é o entrelaçamento da televisão com o cinema, a imprensa, os Beatles, Stockhausen e a literatura. Inventaram o termo pós-modernidade para o que eu prefiro chamar de poliglotismo generalizado da cultura. Em síntese, prevalece a convivência.

JMS – O senhor escreveu romances que se transformaram em best-sellers. O Pêndulo de Foucault, paradoxalmente, é ilegível pelo menos até a página 27. Houve um projeto deliberado de construção literária hermética? O senhor buscou um estilo inacessível ?

Eco - Eu digo com frequência que o meu leitor ideal deve ganhar o prazer da leitura com esforço, como se ganha o prazer da paisagem escalando a montanha. O fato de que os meus romances, escritos a partir da violação de todas as regras do best-seller, transformem-se em fenômenos de vendagem prova que os leitores são mais exigentes do que acreditam os meios de comunicação de massa.

JMS – O Pêndulo de Foucault é uma critica das utopias clássicas, do poder, da razão absoluta e do marxismo ? Existe uma passagem em que uma brasileira, ex-estudante de sociologia em Paris, marxista, participa de uma sessão de candomblé. Trata-se da caricatura dá queda do materialismo diante do misticismo exótico ?

Eco – O episódio brasileiro do Pêndulo é uma parábola do que se passará com os meus personagens na Europa. Sim, eu pensei na crise do imaginário de maio de 68 e nisto que se chama de retorno do sagrado da parte de uma geração em crise de identidade. Mas este retorno não foi, na maioria dos casos, uma volta a teologias ou a filosofias. Retornou-se ao sagrado massificado, produto com o selo dos mercadores do absoluto. A literatura, em todo caso, resiste. Eu passei minha vida a colecionar livros antigos e a escrever livros novos. Sinto-me mal dentro deste tempo e só posso experimentar compreendê-Io , escrevendo, para fugir ao mal-estar.

JMS – Em vez de conflito entre cultura visual e cultura da leitura, o senhor prefere, de toda maneira, pensar em termos de integração?

Eco – O senhor falou no sucesso dos meus romances. No século XIX, certamente, eu teria conseguido um número menor de leitores, mesmo em proporção à população mundial da época. E então? Vê-se muito a televisão, constata-se a força da civilização da visão e esquece-se que há uma civilização da leitura em marcha. Ela não desapareceu. Ao contrário, expressa-se na sede de narrativas e na procura de jornais, de novelas de televisão, do cinema e dos livros. Reina o desejo da narrativa.

JMS – Mergulhado em viagens, conferências e cursos no exterior a rotina de um erudito célebre, o senhor encontra ainda tempo para a leitura?

Eco – Eu tenho cada vez menos tempo para ler livros. O problema mais grave para um sábio na atualidade é a enorme produção de preprints, os textos, inventários de pesquisa, que chegam antes da publicação. A relação de trocas científica passa-se, agora, através desses textos, verdadeira indústria anterior às edições. Quando uma pesquisa é publicada como livro, em geral, ela já está caduca.

Novembro de 1992 (republicado em O pensamento do fim do século (L&PM)



Lembranças do gaudério Dom Benito

Postado por Juremir em 28 de abril de 2013 - Uncategorized

Branqueiam as águas no Passo da Cruz,

Lá vai Dom Benito,

gaúcho lendário,

No seu cavalo de luz

Envolto num poncho sudário

De baeta encarnada

Atravessa as fronteiras

Sem medo de nada

Sem eira nem beira

Repontando a tropilha

Galopa, galopa, galopa,

coberto de poeira,

O último herói farroupilha

Cavalgam-lhe solitas no peito,

lanhadas pela imaginação,

Lembranças dos feitos

Malevas de revolução.

Pampa e tapera

Arma e cartuxo

Palomas ainda espera

a volta do Bruxo

Doma, contrabando e sovéu

Degolas ao léu e tropeadas

Dom Benito rasga as estradas

Em busca da invernada do céu

Pachola e franzino

Sem nada de seu

Janguinho menino

Segue o gaudério

Saudoso do que não viveu

Trago, mulher e bagual

Pampa, curral e carpeta

Palomas espreita o rastro

da derradeira carreta.

Crepúsculo e aurora

Dom Benito e Janguinho

Marcham campo afora

Como um ginete sozinho

Pampa e fronteira

Numa mesma visão

Na Palomas caborteira

Dom Benito e Janguinho

pastoreiam a solidão

Por eles ainda dobram os sinos

Da capela da sina-sina

Por eles ainda chora o vento

Dos últimos anos de desalento.

Por eles ainda tomba o aguaceiro

Olhos turvos vigiam

À sombra dos pessegueiros.

E Palomas dorme no berço da cordilheira,

Ao canto do eterno,

A saudade da sua história inteira

Enquanto não chega o negrume do inverno.



Entrevistas marcantes: Habermas e a modernidade

Postado por Juremir em 28 de abril de 2013 - Uncategorized

O holofote da racionalidade

Nascido em 1929, o amigo e colaborador de Theodor Adorno esteve em Porto Alegre em setembro de 1989. Professor em Heidelberg de 1961 a 1964, depois em Frankfurt, em 1971 tornou-se diretor do importante Instituto Max Planck, empenhado em uma pesquisa multidisciplinar da realidade social contemporânea. Em 1973, recebeu o prêmio Hegel, em Sttutgart, uma das mais importantes honrarias intelectuais da Alemanha. Em 1980, foi agraciado com o prêmio Theodor Adorno, em Frankfurt. Tornou-se um pensador de primeira linha e destacou-se pela abrangência de seus conhecimentos, retirando densas contribuições da ciência política, sociologia, filosofia, psicologia e história, entre outras áreas. Defensor radical da razão, travou luta contra os irracionalismos e sustentou a existência de uma falácia no pós-moderno. Em 1981, publicou A Teoria da Ação Comunicativa, vasta e complexa obra, que continua exigindo poderosos esforços para sua total decodificação. Aos poucos, tornou-se o nome de maior evidência no terreno intelectual europeu. No mesmo ano em que veio ao Brasil, Habermas visitou outros países da América Latina. No México, atraiu milhares de pessoas. Na Argentina, os salões superlotaram. E tudo isso para ver e ouvir um pensador dificílimo, cuja importância pode ser constatada por esta entrevista, concedida em Porto Alegre.

JMS – A crise do Estado do Bem Estar Social, o crescimento das taxas de desemprego na Europa e a investida neoconservadora atual no sentido de diminuir as prerrogativas estatais indicam um colapso iminente do capitalismo como anunciam alguns setores da esquerda? Ao mesmo tempo, os acontecimentos na China, Polônia e Alemanha Oriental e até mesmo a glasnost soviética apontam para uma derrocada ou morte do marxismo ? Diante disso não haveria um impasse e um esgotamento absoluto das energias ut6picas ?

Habermas – Esta é uma pergunta de muita amplitude. Falar do colapso do capitalismo, creio, hoje, ninguém mais sustenta. Do ponto de vista dos países ocidentais desenvolvidos, eu diria que a perspectiva é bem diferente do processo de dissolução do sistema político soviético. O capitalismo hoje parece não contar com nenhuma a alternativa como antigamente. Essas pelo menos são as posições neoliberais e neoconservadoras. Essas interpretações são perigosas e paralisam as poucas energias reformistas com as quais contamos. No início da minha viagem, um secretário de Estado norte-americano, em matéria publicada no New York Times, interpretou o conceito da pós-história nesse sentido, ou seja, de que agora as formas de vida e socialidade, assim como estão estabelecidas, impuseram-se definitivamente e não contam com nenhuma forma concorrente. Nesta situação, é naturalmente importante lembrar-se de que o capitalismo dos países altamente desenvolvidos somente se tomou razoavelmente suportável pelo fato das nossas sociedades terem dado um passo histórico em um processo de aprendizagem. Refiro-me com isso à realização do Estado do Bem Estar Social depois da Segunda Guerra Mundial. Essa evolução parece ter chegado a um termo. De sorte que é necessário promover um esforço adicional com vistas a reformas, em relação à vinculação entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo. Os problemas são tão complexos que estamos a ponto de desesperar da possibilidade de encontràr uma saída com as nossas próprias forças. A idéia de uma ausência de perspectiva é particularmente desastrosa.

JMS – Uma prática social baseada em sua teoria da ação comunicativa é possível no Terceiro Mundo? Que base haveria para que se realizasse um consenso a partir de um jogo argumentativo ? Para o senhor, que disse a Perry Andersen, em entrevista, que sua perspectiva é eurocêntrica, que sentido faz umafilosofia social que expurga uma enorme parcela da população mundial?

Habermas –  Em relação ao eurocentrismo quero dizer que efetivamente a Perry Andersen manifestei a realidade pessoal do meu interesse pelo Terceiro Mundo, que está baseada apenas em leitura de jornais e como homem contemporâneo. Não me debrucei sobre os problemas como cientista. Seria absurdo afirmar que uma teoria que somente espelha a perspectiva dos países desenvolvidos seria suficiente para enfocar as questões mais candentes do mercado mundial. Trata-se de uma limitação dos meus próprios interesses. Não chego à América Latina como um especialista em seus problemas. Meu conceito de ação comunicativa não se trata de um rousseauismo, de um utopismo e nada tem a ver com otimismo ou pessimismo. Trabalho com as bases da nossa comunicação cotidiana. Tento esclarecer pontos que não foram suficientemente explicados na tradição marxista nem na teoria crítica da sociedade. Viso estabelecer um fundamento normativo que permita o exercício da crítica, sem o qual ele seria impossível. Marx operou com premissas procedentes da filosofia da História, que hoje não podemos aceitar sem mais nem menos. Busco as premissas dessa comunicação enquanto não se parte para o recurso da violência, manifesta ou camuflada. À medida que nos interessamos por fagulhas de racionalidade, que estão na própria comunicação, não estamos afirmando o governo da razão, mas estamos obtendo uma medida que nos permite analisar criticamente a realidade. No Rio de Janeiro, nenhuma criança chega à vida adulta sem que a mãe dê a ela determinadas condições e sem uma família em que ela cresça, e em meio aos vizinhos. Nessa família e com esses vizinhos existe o agir comunicativo. Do contrário, a criança não chegaria a completar um ano de idade. Isso independe de passar fome ou não. A outra verdade é que não há miséria só nessas favelas. Mas também em Nova Iorque e outras partes do Primeiro Mundo. A violação dos direitos humanos faz parte do cotidiano nas sociedades desenvolvidas. A minha abordagem teórica não é uma visão otimista da vida boa, mas um instrumento de investigação.

JMS – O senhor tem recusado as teses sobre o esgotamento da modernidade e aproximou os pós-estruturalistas franceses do neoconservadorismo. Entretanto há intelectuais que o consideram conservador por insistir em pensar a pós-modernidade com os parâmetros da modemidade. O fil6sofo brasileiro José Guilherme Merquior afirma que a sua divisão da razão em “razão sábia” e “razão instrumental” é insustentável e geral, uma noção de razão para situações nobres e outra para tarefas simples. O senhor tenta relativizar a razão da Ilustração e depois reintroduzi-la como princípio unificador e totalizador da realidade ?

Habermas – Vamos discutir este tema na sexta-feira (na palestra sobre “A Questão da Racionalidade na Pós-Modernidade”, realizada no Salão de Atos da UFRGS). É difícil discuti-lo em duas palavras. Há muitas opiniões embutidas nessa pergunta que não posso aceitar. A aproximação do neoconservadorismo e do pós-estruturalismo francês (feita por Andersen) é uma distorção do que escrevi em meu livro O Discurso Filosófico da Modernidade. Uns me chamavam de conservador e outros de jovem conservador. Sabe o que é ser um jovem conservador? Quem sabe abandonamos este tema? Não proponho nenhuma mudança de paradigmas. A teoria do agir comunicativo sai de uma razão centrada no próprio sujeito e articula-se em estruturas da comunicação cotidiana e nas posturas de reconhecimento recíproco. Essa razão comunicativa não consiste de várias partes, mas ela tem diversos aspectos, o que podemos reconhecer quando analisamos uma expressão como “Me dê um copo de água?”. Você pode contestar essa expressão a partir de três pontos: 1) Nesse copo não há água, mas álcool; 2) Esta não é a ocasião para solicitar de mim uma prestação de serviço; 3) Pode ainda duvidar da veracidade da articulação da expressão. Como se vê, são formuladas três pretensões de validade. A razão comunicativa, apesar de seus aspectos diferentes, forma uma certa unidade. Não vejo uma oposição entre razão instrumental e meta-razão. Não posso aceitar a premissa de que a razão comunicativa introduz no jogo uma força que unifica e totaliza. Essa é uma peça polêmica pós-estruturalista. A razão é uma força de pluralização. A medida que isso exista há a possibilidade de um consenso, que se situa sobre o fato de que os participantes desistem de dizer não. O conceito de inter-relação por meio de linguagem representa o contrário de uma totalidade unificadora. Diferencio o meu conceito de comunicação da Vontade Geral de Rousseau e da razão em Hegel.

JMS – Na prática, como controlar a robotização da vida -da subjetividade, afetividade e relações interpessoais -e o massacre da técnica pela esfera instrumental ?

Habermas – Nada posso dizer de original. Responderei de forma adicional. As sociedades precisam organizar-se a partir de baixo, da base. Temos que trabalhar no sentido de que também em sociedades complexas exista uma opinião pública que funcione nas discussões sobre política. Existe uma certa esperança de que aquilo que os homens efetivamente desejam realize-se, diante daquilo que é racional apenas na aparência. Todas as outras respostas teriam que ser muito mais concretas e passar por uma análise do contexto social. Só posso falar da República Federal da Alemanha.

JMS – Como o senhor encara as micropráticas, a hist6ria do cotidiano, os movimentos de minorias, a ecologia e as múltiplas racionalidades ao final da década de 80? São apenas visões, como querem alguns ideólogos, da entediada classe média europeia transportados para o Terceiro Mundo enquanto ideias fora de lugar?

Habermas – Não vejo por que essas ideias estariam fora de lugar, afinal, aqui no Brasil não ocorre desmatamento?

JMS – Respondo com uma pergunta. Outro dia, o antropó1ogo brasileiro Darcy Ribeiro, um dos intelectuais nacionais mais conhecidos no mundo, afirmou que a ênfase da ecologia é uma consequência dos anseios da pequena burguesia europeia voltada para os seus jardinzinhos. Neste sentido, as idéias poderiam estar fora do lugar…

Habermas – Não vou falar sobre o que acontece com as ideias europeias transplantadas para o Brasil. Aquilo que sensibiliza a opinião pública no Primeiro Mundo pode ter alguma relevância para o Terceiro Mundo. Há uma sensibilidade crescente nos países desenvolvidos em relação aos problemas que necessitam ser resolvidos aqui. O problema, em princípio, consiste em que as nações dependentes não possuem nenhum potencial de ameaça que convença os desenvolvidos a tomar determinadas medidas. Em uma comparação com o final do século XIX talvez possa dizer que não há nenhum equivalente para a greve de operários. Não sei como o Terceiro Mundo poderia entrar em greve diante do Primeiro. Seria importante que os terceiro-mundistas usassem melhor a força produtiva contida numa associação dos povos, o que infelizmente não acontece. É preciso entrar no repertório das ideias que sensibilizam os europeus e os norte-americanos. Os novos movimentos sociais representam uma das poucas esperanças orientados em temas que têm componentes universais.

JMS – O senhor acredita que os movimentos estudantis da década de 80 estão na defensiva. Isso significa uma despolitização, um desencantamento e uma necessidade de reorganização para retomar uma prática participativa dos anos 60? Não é contradição sustentar uma teoria de comunicação participativa em uma época em que não são poucas as vozes a anunciar a desarticulação, o fim das utopias e a descrença em qualquer totalidade ou princ(pio unificador?

Habermas – Não temos nenhum movimento estudantil atuante na Europa. Desde alguns anos, formou-se um movimento social centrado na questão do desarmamento mundial, o que, felizmente, com Gorbachev está encontrando uma solução, e questões de feminismo e ecologia. Os temas novos ganharam incrível repercussão. Surgiu um novo partido que mudou o enfoque das temáticas discutidas. Eu não compartilho das posições enunciadas a respeito da individualização. Em termos eleitorais, o individualismo produziu um novo comportamento eleitoral em sentido claramente positivo. Assim, os compromissos de grandes estruturas partidárias, vinculando os eleitores de uma forma não crítica tomou-se mais frouxa. Além disso, houve um enriquecimento do debate pela substância argumentativa. Os novos movimentos não processaram enormes mudanças institucionais, mas fizeram deslanchar processos importantes, favoráveis às subculturas. Mesmo se fosse diferente, a minha abordagem não depende dessa situação. Afora isso, é fundamental um holofote que ilumine a falta de racionalidade frequentemente encontrada.

Setembro de 1989

(republicada em meu livro “O pensamento do fim do século”(L&PM)



Velhas entrevistas: Edgar Morin e o futuro

Postado por Juremir em 27 de abril de 2013 - Uncategorized

Edgar Morin, o mestre da complexidade

Pensador pluralista, Edgar Morin, nascido em 1921, mescla as ciências humanas com a biologia e a física para estudar os problemas do mundo contemporâneo. Interessa a ele compreender com o objetivo de imaginar o desdobramento do processo histórico. Morin assegura que o Sujeito é fundamental na construção do presente. Enquanto houver sonho de mudança social, afirma, haverá política. Entre os livros fundamentais que escreveu deve-se citar com paixão O Cinema e o Homem Imaginário, O Paradigma Perdido, a natureza humana, As Estrelas, os quatros volumes do Método, Para Sair do Século XX, Terra-Pátria e Meus demônios. A entrevista que segue, em duas partes, é o resultado de dois encontros formais, em Porto Alegre (1993) e em Paris (1995). Nesta última ocasião, Morin, homenageado pela Universidade Euro-árabe Itinerante, indicou-me para ser o comentador de sua obra e seu interlocutor em um debate acontecido em 1° de junho na Sorbonne. Preparou-se um dossiê com textos de personalidades sobre o « pensador da complexidade », além de um inédito deste e da entrevista (segunda parte) que realizei com ele e republico agora em português.

I Parte

JMS – O que representa a decadência do futuro quanto à possibilidade de construção de um presente melhor?

Edgar Morin – Vivemos a decadência de um tipo de ideia de futuro: uma concepção determinista, otimista e crente no progresso. Acreditava-se acriticamente na técnica, na ciência e nos efeitos benéficos, necessariamente emancipadores, da Razão. Nas nações do socialismo real ou no mundo capitalista, com a mesma intensidade, apostou-se no futuro radioso. A crise não é derivada apenas da queda do comunismo, mas também de um abalo geral de civilização. A instabilidade econômica é global. Até 30 anos atrás os intelectuais ainda se deixavam cegar pela promessa futurista. Descobrimos, porém, que a ciência também pode produzir ignorância, pois o conhecimento fecha-se na especialização. A indústria fabrica objetos úteis e também ameaças ao universo como a poluição. Por fim, o fundamento mesmo do futuro radioso não se sustenta mais: ninguém sabe o que acontecerá amanhã. Não há modo de fazer previsões seguras.

Quais as implicações principais da crise do futuro para o cotidiano das sociedades ?

Edgar Morin – Ninguém vive sem projeções relativas ao devir ainda que seja em nome de seus próprios filhos. A angústia do futuro torna-se um sofrimento do presente. Precisamos operar com uma dialética temporal: pensar o futuro sem abandonar o presente. O futuro está doente. Mergulhamos em um nevoeiro histórico. Isso repercute sobre o presente. Somos seres de raízes e de mudança, de comunidades e de universalização. Quando o futuro está doente, acaba ocorrendo um retorno ao passado. Acontece que o futuro pode ser também erro e superstição. O medo instaura a retomada virulenta, por exemplo, do integrismo religioso. Nossa tarefa é construir um novo futuro, diferente daquele que faliu: um futuro da consciência e da vontade. O amanhã não será oferecido pela história.

O senhor combate os dogmas e privilegia a incerteza no processo histórico. Qual o papel do Sujeito na elaboração do presente e do futuro ?

Edgar Morin – Abandonei a certeza do futuro garantido. Para afirmar que o Sujeito morreu, como fizeram os estruturalistas, é preciso ser um Sujeito. A ideia da morte do Homem foi uma ilusão intelectual. Somos seres dotados de uma autonomia relativa, dependentes de condições ambientais e históricas. O problema é como tomar consciência da ilusão. A política, hoje, se complexificou. Muitos elementos que não eram considerados pertencentes ao campo político, entre os quais a ecologia e a manipulação genética, passaram a ter um cunho fortemente político em função de novas lutas, perigos ou avanços científicos. A civilização é a principal questão política, na medida em que existem várias formas de barbárie espreitando. O sujeito será o construtor do mundo melhor. Sem ele, com certeza, não haverá mais justiça ou liberdade.

Quais são as formas de barbárie que o senhor identifica neste momento em relação ao Ocidente ?

Edgar Morin – Os partidos políticos estão fossilizados. Falta consciência ainda da relevância dessa fossilização. A primeira forma de barbárie que nos ameaça é a da dominação, da conquista, do fanatismo e da intolerância. A segunda, terrível, esconde-se atrás da ciência e da técnica, gerando uma organização congeladora da vida, um universo burocrático desumano e irracional. A terceira modalidade foi percebida por Marx: tudo se transforma em mercadoria. Mas na época de Marx o fenômeno era limitado. Na atualidade, o sol, o sangue e os órgãos humanos, tudo, enfim, é mercadoria. Os valores perdem importância.

O senhor disse, em outra oportunidade, que o capitalismo atual é o fruto do fracasso do socialismo. Por quê ?

Edgar Morin – Refiro-me ao capitalismo dos países do leste europeu. O fracasso do socialismo real engendrou a fé cega no capitalismo. Digo, então, que lá o capitalismo é o estágio supremo do socialismo. O mercado para funcionar exige um Estado forte, com regras, leis, direito instituído e competição leal. Na Rússia, agora, reinam a máfia, os monopólios e a violência. O socialismo real destruiu, em alguns lugares, a socialdemocracia. Em outros, os socialdemocratas tornaram a vida mais aceitável. Na França, em todo caso, o excesso de burocracia entravou os avanços. A socialdemocracia ainda pode ter um futuro, desde que rompa com os compromissos messiânicos. O elogio do capitalismo, a partir da queda do socialismo real, é um erro enorme.

Qual o espaço de manobra da esquerda após os verdadeiros terremotos da década de 80 ?

Edgar Morin _ A esquerda é uma constelação. Assim como Marx é um pensador em meio a uma constelação de intelectuais. Não podemos reduzir a pluralidade à unidade. Enquanto espaço de aspiração à liberdade, à emancipação e à justiça, a esquerda conservará sempre a sua legitimidade. Os ideais emancipatórios não perderam o valor. A esquerda esfacelou-se enquanto estrutura voltada para a tomada do poder e a implantação de projetos totalizantes.

Os meios de comunicação de massa sempre interessaram ao senhor: é lícito responsabilizá-los pelos problemas do mundo atual? Fenômenos como Madonna e Michael Jackson são preocupantes?

Edgar Morin – Os meios de comunicação de massa fazem parte da sociedade. É esta que fundamenta e legitima posições. Não cabe exagerar o papel da televisão. Madonna não representa um perigo público. Educadores, pais e intelectuais recorrem ao argumento cômodo segundo o qual a televisão aliena. Mas a situação é mais complexa. Não há, por exemplo, como estabelecer uma relação clara de causa e efeito entre a violência e a programação de televisão, a não ser em casos muito específicos e certamente não previstos pela emissão. Preocupo-me com a cretinização promovida pela televisão, mas também com essa que é disseminada pelos intelectuais.

II Parte

O que é a complexidade? A busca do complexo não deveria ser sempre o objetivo (assim como um método de pesquisa) de toda ciência?

Edgar Morin – O problema não é a busca, mas a necessidade de responder ao desafio da complexidade. Em contrapartida, eu diria que o pensamento complexo tira sentido da palavra latina complexus : tecido junto. Trata-se do pensamento que liga os conhecimentos separados. Por que ligar? Porque o conhecimento só é pertinente quando situado no seu contexto e na globalidade. Ligar, contextualizar e globalizar fazem parte da necessidade natural do conhecimento. Para saber ligar, entretanto, é preciso utilizar instrumentos de pensamento estranhos aos procedimentos científicos clássicos, que obedecem à causalidade linear simples, a uma lógica rígida e que obedecem sobretudo ao princípio de separação. O homem, por exemplo, que é ao mesmo tempo um ser físico, químico, cerebral, mental, espiritual, social e cultural, é estudado de maneira fragmentada: a física, a química, a biologia, o cérebro, o espírito, a cultura e a sociedade, a psicologia, etc. Ora, em realidade essa separação não nos permite de compreender a complexidade humana. O pensamento complexo reage contra essa situação, sem ser, contudo, apenas o contrário do pensamento simples, e integra os modos de pensar simples e complexos numa concepção mais rica. Trata-se da « dialógica » do simples e do complexo, do separável e do não-separável, da ordem e da desordem, da « dialógica » entre a lógica clássica e a transgressão logica quando esta se impõe, ou antes entre a lógica clássica e a racionalidade aberta. Não se pode, portanto, aprender o pensamento complexo, sobretudo quando se tem a formação de um sistema reducionista, em um dia. A complexidade exige um novo e difícil aprendizado e a reforma do pensamento, a qual demanda a reforma da educação.

A propósito justamente da mudança de pensamento que o senhor propõe contra o reducionismo, as simplificações e o conformismo: em que consiste essa reforma e como iniciá-la?

Edgar Morin – a reforma consiste no aprendizado que já citei e ela é vital na atualidade porque vivemos numa época em que os problemas estão cada vez mais ligados uns aos outros. Não se pode encerrá-los numa nação, e os maiores desafios de vida ou morte são planetários. Existem dois tipos de pensamento fechados: há o isolamento nacionalista, religioso ou étnico, que só deseja ver o fragmento de humanidade por ele representado, ignorando o resto. Há também o fechamento próprio à tecnocracia, que só vê as dimensões quantitativas, econômicas, e esquece as outras facetas humanas. Como estamos no reino do pensamento mutilador ou fragmentário, a necessidade de contextualizar os problemas é de fato vital. De que forma? Todas as reformas começam marginalmente na medida em que existe uma contradição: como reformar os espíritos sem reformar antes o ensino e por consequência as instituições? Mas como reformar as instituições sem reformar antes os espíritos? É um círculo vicioso. As grandes reformas começam sempre pela tomada de decisão em algum lugar de criar uma nova instituição, nova experiência, na escola primária, secundária ou na universidade. Se a experiência mostra-se fecunda, pode generalizar-se. A universidade, por exemplo, foi teológica praticamente até o fim do século XVIII. A primeira universidade moderna, fundada sobre disciplinas, surgiu em Berlim no início do século XIX, num Estado periférico que era a Prússia; depois, esse modelo expandiu-se. Hoje, é preciso inventar um novo modelo e, como as necessidades da época exigem outro modo de pensar, ele terá chances de impor-se. O mesmo vale para a escola primária: seria preciso começar por uma reforma de ensino que partisse das questões fundamentais – quem somos?, de onde viemos?, para onde vamos? – e então ligar os conhecimentos de diferentes disciplinas. Vejo a possibilidade da reforma, mas toda evolução inicia por um desvio, por alguma coisa não ortodoxa e minoritária. É inevitável.

Qual é para o senhor o lugar da incerteza nas relações entre ordem, desordem e organização dos fenômenos naturais e sociais?

Edgar Morin – Devemos compreender que não somente no plano filosófico, mas também no científico, não existe certeza teórica absoluta. Temos certezas sobre fatos, por exemplo, que tem sol quando tem sol, ou que o sol aparecerá a tal hora amanhã e a tal hora depois de amanhã; assim, talvez, por algum tempo. Essas certezas estão situadas no tempo e no espaço e são biodegradáveis, pois a Terra não girou sempre com a mesma velocidade em torno do sol e em torno dela mesma. Houve um momento em que a Terra não existia; haverá um momento em que o sol explodirá. Nossas certezas, portanto, não são eternas. Nenhuma teoria científica, e aí reside, creio, a importância da contribuição de Karl Popper, está segura de ter certeza absoluta. Aquela que num instante específico conforma-se mais aos dados em questão impõe-se. Mas pode muito bem ser substituída por nova teoria, e a prova é que praticamente todas as teorias científicas do século XIX foram ultrapassadas no século XX ou provincializadas. Uma teoria é uma construção do espírito e, de resto, sabemos que o conhecimento não é o espelho da realidade, mas tradução e reconstrução de um mundo do qual recebemos mensagens através de nossos sentidos, como os olhos, que são traduzidas e codificadas por nosso sistema nervoso e retrabalhadas pelo cérebro que faz delas uma percepção. Se todo conhecimento é reconstrução e percepção, não pode ter valor de reflexo absoluto do real. Somos, portanto, obrigados a negociar com a incerteza. De outra parte, tivemos de abandonar, felizmente, a ideia de que o universo era uma máquina determinista perfeita, pois quando se tem tal máquina pode-se prever o futuro. Laplace imaginava que um demônio poderia conhecer todos os acontecimentos do futuro e do passado. Na realidade, estamos num universo que comporta desde o princípio o imprevisível. Desde o começo, existe calor, e o que é o calor? Agitação de partículas ou de moléculas cujos momentos particulares não podemos prever.

Somente com sistemas fechados é possível estabelecer leis estatísticas gerais. A história de nosso universo sempre comportou a incerteza: colisões de partículas ou de galáxias, logo com destruições mútuas, bifurcações, riscos, etc. Quando se olha a história da Terra, vê-se que ela não foi linear; houve acidentes, cataclismos ecológicos como os que provocaram o desaparecimento dos dinossauros. Penso que vivemos num mundo de mistura de ordem e de desordem – sendo ordem tudo que diz respeito ao determinismo, à estabilidade, à regularidade, e desordem tudo o que é colisão, agitação, destruição, explosão, irregularidade. Devemos desenvolver estratégias de ação face a tal universo.

No Método , o senhor subscreve a crítica de Karl Popper à indução, mas, em contrapartida, indica que é preciso ir mais longe do que ele quanto à dedução. O trabalho do epistemólogo austríaco ficou incompleto?

Edgar Morin – Disse que apesar da indução ser um instrumento fecundo de conhecimento, ela não dá a certeza absoluta, o que havia constatado também Popper. Mas seria possível crer, porém, que a dedução poderia oferecer essa certeza absoluta. É aí que podem ocorrer as derrapagens dedutivas como se sabe desde o aforisma do cretense, segundo o qual todos os cretenses mentem, isto é, quando dizem a verdade, mentem… Logo, a incerteza.

Depois de todos os teoremas da incompletude que colocam a incerteza nos domínios mais sofisticados da dedução, da lógica matemática, sabemos que a dedução entregue a si mesma encontra os seus limites. Temos uma lógica clássica que é indutiva, dedutiva e identitária. Não podemos confiar totalmente na indução, de outra maneira tampouco na dedução e quanto ao princípio de identidade, ou do terceiro excluído, desembocamos racionalmente em contradições que é preciso assumir.

O seu pensamento, acabamos de ver, é aberto à pluralidade. A mestiçagem, em todos os sentidos do termo, e o sincretismo devem desempenhar papel importante na maneira de olhar e de « ler » os fatos sociais?

Edgar Morin – Temos um duplo imperativo contraditório e é isso, no fundo, a necessidade complexa. De um lado, estamos num mundo onde processos de homogeneização tentam destruir as culturas; tudo que vem da técnica, da indústria, etc., atenta contra as culturas e sobretudo quando estas são fundadas sobre pequenas comunidades como os índios da Amazônia. O primeiro imperativo é a preservação, mas não de forma artificial, de todas as culturas que refletem a diversidade das possibilidades humanas. Ao mesmo tempo, devemos favorecer a mestiçagem porque ela é produtora de diversidade. Quando refletimos sobre nossas culturas, percebemos maior unidade nas que foram constituídas a partir de contribuições históricas muito diferentes. Exemplo: o flamenco, de extraordinária autenticidade, só existe porque os “gitanos “integraram elementos vindos da Índia, dos árabes, dos judeus, dos ibéricos, etc. Todas as grandes culturas foram o produto de encontros e de sínteses. A mestiçagem cria novas sínteses. Nas grandes cidades, nas capitais, pessoas oriundas de províncias encontram-se, casam-se e geram nova « espécie ». O parisiense é uma « espécie » diferente.

Vivemos numa época onde as necessidades de comunicação entre os homens fazem que o mestiço seja, em geral, o melhor comunicador entre as diferentes civilizações e culturas.

Diz-se que o Ocidente atravessa a época das sociedades pós-utópicas e que é preciso abandonar a ideia da construção do melhor dos mundos. O senhor, contudo, crê na possibilidade de edificar um mundo melhor. As populações dos países pobres sonham com isso. Pode-se ainda investir, complexificando as abordagens política e sociológica; numa nova forma de solidariedade?

Edgar Morin – É a minha esperança, embora eu não tenha nenhuma certeza. Como já disse, é preciso abandonar a utopia do melhor dos mundos – a utopia louca de um universo de onde seria banida a infelicidade, a solidão, a desordem, o conflito – e não creio que possamos nos passar da diversidade e por consequência do conflito, pois ideias diversas podem opor-se. A aspiração a um mundo melhor resta possível porque existem possibilidades humanas subdesenvolvidas. O ser humano é potencialmente capaz do pior e do melhor. Há nele um monstro possível, um sádico, um bruto, um assassino e também um herói, um santo, alguém que necessita dedicar-se aos outros. Todo mundo tem maior ou menor pulsão altruísta. O que é uma boa civilização? A que permita o pleno emprego das melhores pulsões humanas, da solidariedade; a má sociedade inibe essas pulsões em favor da agressividade e do egocentrismo.

Nada há de louco em esperar um mundo no qual seríamos menos inumanos, menos cruéis, menos atrozes e onde existiria menos pobreza ou talvez nenhuma, pois temos condições técnicas para suprimir a fome e não o fazemos por causa de dogmas econômicos. Outro mundo é possível. A humanidade passou por estágios e o novo era impensável a partir do antigo. As sociedades de caçadores e coletores, dez mil anos antes da nossa era, não possuíam Estado, nem cidades, nem instituições, nem exércitos, nem agricultura; não se podia imaginar que um dia surgiria uma sociedade com agricultura, com Estado, etc.

A sociedade histórica é de fato inimaginável a partir das primitivas. Ora, hoje, uma sorte de sociedade nova, federação livre, planetária, é impensável desde os Estados nacionais onipotentes. Não se vê como ultrapassá-los sem suprimi-los. A esperança para mim é a outra face da resistência. Resisti à barbárie, ao nazismo, ao comunismo stalinista e, agora, resisto à barbárie que toma a forma do fanatismo, da purificação étnica, da guerra e do massacre. Resisto à barbárie que nasce do nosso mundo tecnocientífico e industrial. Sem essa resistência não haveria esperança.

Qual a sua reação diante das críticas de certos intelectuais ao isolamento, à ausência de comunicação e ao fechamento étnico que se esconderia sob a cobertura da diversidade?

Edgar Morin – Até o presente, a diversidade humana, desde o homo sapiens, desenvolveu-se no mundo cada sociedade ignorando as outras. Não havia comunicação e somente na era planetária os grupos humanos foram levados a comunicar. Existem dois modos de comunicação: o mais bárbaro é a guerra, o fechamento, a ignorância do outro; o modo civilizado é a compreensão e a troca. Evidente, a diversidade humana permite esse fechamento, mas se pode ter também uma homogeneização que seja extremamente bárbara na medida em que todos pensariam da mesma maneira e haveria menos criatividade.

A crise do mito prometeico da modernidade e do progresso infinito semeou a dúvida a propósito dos benefícios da ciência. É preciso redefinir também o papel do científico no mundo contemporâneo? Haveria o perigo de perder-se a compreensão da globalidade em função das especializações cegas num época, paradoxalmente, de « planetarização » econômica e cultural?

Edgar Morin – Claro, porque a tragédia é que os cientistas têm um modelo de pensar preso à especialização e, evidentemente, diante dos problemas políticos, sociais e sobretudo planetários, estão desarmados ou só possuem ideias simplistas, falsas. Além disso, os cientistas, notadamente nas ciências físicas, creem-se proprietários da racionalidade porque controlam bem todos os processos em laboratório; mas a vida social não é um laboratório. Eis a razão pela qual existem tantos detentores do Nobel que tiveram as ideias mais pueris sobre a sociedade e o político. Quantos socialistas engoliram as besteiras contadas a propósito de Stalin!

A cientificidade não é uma garantia de lucidez em matéria de política, com frequência dá-se o contrário. Há um problema de consciência científica, mas sabe-se o quanto é difícil para os cientistas – formados desde o início do século com a pretensão de serem os proprietários da razão, da verdade e os espíritos mais avançados – perceberem a própria cegueira. Por vezes, acontecem sobressaltos de furor como no Manifesto de Heidelberg, onde os grandes nomes da ciência recusaram mesmo a consideração do problema ecológico.

Urge, portanto, acionar a reforma do pensamento científico?

Edgar Morin – Precisaria, mas aí também as tentativas são difíceis. Em contrapartida, existem ciências novas, sistêmicas, que reagrupam disciplinas: a ecologia reúne as competências da geografia, da biologia, da zoologia, da botânica, etc. O ecólogo estuda as organizações espontâneas chamadas ecossistemas e, hoje, a biosfera, ou seja, não somente o conjunto da vida, mas inclusive as atividades humanas que transformam essa biosfera.

Eis uma verdadeira ciência que faz a ponte entre o global e o local, entre os conhecimentos particulares e e o conhecimento geral, pois um conhecimento somente geral é vazio. O mesmo vale para as ciências da Terra. A partir do momento em que se considerou a Terra como um sistema complexo, em autodesenvolvimento, pôde-se compreender e fazer comunicar a sismologia, a vulcanologia, a geologia, etc. Ao invés de disciplinas compartimentadas e incomunicáveis, é preciso ter outras que possam considerar os problemas da vida como um todo complexo, os problemas do ser humano como um todo complexo. A reforma da ciência, portanto, deve vir do desenvolvimento das próprias ciências.

O senhor, por sinal, é um crítico do « cretinismo intelectual » e do racionalismo simplificador. Deve-se aceitar o não-racional, o mistério, por exemplo, no campo da ciência?

Edgar Morin – Oponho, em primeiro lugar, racionalidade e racionalização. A racionalidade é sempre aberta e autocrítica; a racionalização, sistema perfeitamente lógico, tem bases estreitas e sempre fechadas. As ciências, quanto mais avançam, mais aproximam-se das questões misteriosas, que ultrapassam o espírito humano. Por exemplo, a origem do universo: como conceber que o espaço, o tempo, a matéria sejam provenientes do não-tempo, do não-espaço e da não-matéria?

Os microfísicos tinham visto que a mesma partícula podia comportar-se, contraditoriamente, como onda ou corpúsculo. Mais se avança no conhecimento e mais se descobre a ignorância fundamental. A diferença é que antes estávamos numa ignorância que ignorava a si mesma, espécie de certeza ingênua; o progresso das ciências mostra que o conhecimento nos abre para os grandes problemas do universo que são, talvez, ininteligíveis para o espírito humano. De toda maneira, até o presente, o progresso da cosmologia e da astrologia colocaram-nos diante de um fosso de ignorância a propósito da origem do universo; o progresso da biologia põe-nos face ao mistério do nascimento da vida: acaso extraordinário? Outro mistério é o da complexidade da organização da menor bactéria ou do nosso próprio corpo, composto por cem bilhões de células. O progresso do conhecimento conduz-nos, portanto, na direção do caráter enigmático e mistério do universo.

A teoria do « big-bang », diga-se de passagem, não lhe parece a resposta final à questão da origem.

Edgar Morin – O « big-bang » é controvertido enquanto « big-bang ». Muitos físicos pensam que possivelmente uma espécie de despedaçamento do vazio inicial produziu uma expansão e uma propagação de energia extraordinárias. A isso se chamaria « big-bang ». Em todo caso, não é uma resposta. O « big-bang » representa a chegada a um grau limite de conhecimento. Houve, no começo, uma propagação energética e disso resultou ou não uma explosão. Existe algo de inconcebível e o conhecimento progredirá ainda nesse campo, mas não fornecerá a chave para compreender claramente os mistérios do universo.

A racionalidade é a forma mais elevada de conhecimento do monde empírico por comportar procedimentos de argumentação, de verificação, de crítica e de autocrítica, em oposição aos argumentos de autoridade. Mas ela não englobará todo o universo, pois existem fenômenos a-racionais, infra-racionais, extra-racionais, etc. A racionalidade nos permite de dialogar com o desconhecido, sem ter resposta para tudo.

O senhor estudou um aspecto fundamental do universo cinematográfico: as estrelas. Trata-se de um exemplo do seu interesse pela imagem, pelos meios de comunicação de massa e por maneiras particulares de estabelecimento de laços sociais. A imagem tornou-se um poder ou é o poder que burila as imagens para impor-se?

Edgar Morin – Trata-se de um circularidade causal. Um poder produz imagens que produzem um poder. Sempre considerei que havia uma realidade imaginária. A tese de meu livro O Cinema e o Homem Imaginário consiste em dizer que a realidade humana é sub-imaginária, não existindo realidade sem imaginário. Interessei-me pelo cinema por causa do imaginário, do mito, no centro de nossas sociedades consideradas racionalizadas e tipicamente planas. Nunca estudei a imagem enquanto imagem. Vivemos cercados de imagens; nós as produzimos e elas nos produzem.

O centenário do cinema incita-o a retomar esse tipo de reflexão?

Edgar Morin – Estou contente neste ano de comemoração dos cem anos do cinema porque na Itália um editor publicará meu livro sobre as estrelas. Isso me faz refletir sobre essa história fabulosa que eu havia abordado no Cinema e o Homem Imaginário ou como uma máquina criada para reproduzir o real foi apropriada pela ficção e pelo mito. O cinema é uma arte maravilhosa e que só encontra equivalente na ópera, pois atua em todos os registros: imagem, palavra, música, rostos, etc. É a arte mais sublime do século XX. Um romance medíocre é ilegível; um filme medíocre pode ser salvo por alguns rostos ou imagens. Sou fanático por cinema. Conhece-se países distantes graças aos filmes. Uma das grandes invenções humanas.

Em seu Diário 1994 aparecem gostos pouco ortodoxos. A confissão não o assusta?

Edgar Morin – Criticaram-me por achar engraçadas certas brincadeiras de Les Grosses Têtes, programa de televisão desprezado. Mas, por vezes, ouço coisas que fazem rir e não me envergonho de meu riso. Digo em Meus Demônios que cresci na cultura popular, infância de rua, em cinemas de bairro, folhetins, e não esqueci nada disso. Resta em mim um lado infantil muito forte.

Chegou-se ao tempo da realidade virtual. o real nunca lhe pareceu muito sólido e a análise da crise de fundamentos da Verdade levou-o ainda mais nessa direção. Está-se agora mais próximo da complexidade?

Edgar Morin – É uma nova aventura porque já quando se está no cinema, damos vida e alma a personagens que não passam de jogos de sombra. Damos-lhes carne, choramos, rimos, mas continuamos, de qualquer maneira, em nossa cadeira. Com a realidade virtual acontecerá outro salto, pois seremos capazes, sobretudo com captores sensoriais, de fazer virtualmente amor com um ser virtual. Poderemos provar sensações físicas surpreendentes.

A questão é saber se iremos nos afogar nessa virtualidade e abandonar nossa realidade prosaica ou se, ao contrário, exploraremos a realidade virtual como o fazemos com o imaginário e o mito. Eu adoraria tentar rapidamente algumas experiências virtuais.

As filosofias políticas dominantes ao longo do século XX valorizaram o futuro, que esteve presente também em sua reflexão, sem, em contrapartida, o desprezo do presente. O tempo é uma categoria fundamental em sua reflexão?

Edgar Morin – O tempo sempre foi uma categoria fundamental em meu trabalho. Quando estudo algo, quero situar-me no tempo e na história. A formação histórica é um elemento capital em minha cultura e sou contra todas as sociologias abstratas, estimuladores de estratificações, que só existem num tempo achatado. O tempo é um fator de transformação, de metamorfose, de morte, de vida, de renascimento, e creio que estamos condenados a pensar nossa condição tomando-se em consideração.

Agora, é certo que o Ocidente gerou um tempo unidirecional, ascendente, voltado para o futuro; uma maneira laica de providencialismo; enquanto no providencialismo de Teilhard de Chardin o mundo dirigia-se para o ponto « mega », no mundo laico caminhava-se para a melhor das sociedades, para o reino da razão, etc. Dito de outra maneira, marchávamos para um futuro telecomandado, o devir radioso, conforme a expressão utilizada na União Soviética. Ora, esse futuro desabou, inexiste um amanhã predeterminado e nem uma evolução ascensional.

O futuro é incerto.

(entrevista republicada em meu livro “Visões de uma certa Europa”, Edipucrs).



Caetano Veloso é f…ogo

Postado por Juremir em 26 de abril de 2013 - Uncategorized
Caetano Veloso arrasou no Araújo Viana especialmente com duas músicas para lá de arrojadas, provocativas e talentosas. Uma em homenagem a Carlos Marighella, executado pela ditadura militar, e outra como hino à Bossa Nova.
*
Um Comunista

Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta hauçá

Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?

Não que os seus inimigos
Estivessem lutando
Contra as nações terror
Que o comunismo urdia

Mas por vãos interesses
De poder e dinheiro
Quase sempre por menos
Quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado:
“eu que tinha morrido”
E que ele estava vivo,

Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
Não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
Segue trágica, sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
Samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror

Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
Discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
As ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica
Ela luz e era treva
Venta de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!

*

A Bossa Nova É Foda

O bruxo de Juazeiro numa caverna do louro francês
(Quem terá tido essa fazenda de areais?)
Fitas-cassete, uma ergométrica, uns restos de rabada
Lá fora o mundo ainda se torce para encarar a equação
Pura-invenção/dança-da-moda
A bossa nova é foda

O magno instrumento grego antigo
Diz que quando chegares aqui
Que é um dom que muito homem não tem
Que é influência do jazz
E tanto faz se o bardo judeu
Romântico de Minesota
Porqueiro Eumeu
O reconhece de volta a Ítaca:
A nossa vida nunca mais será igual
Samba-de-roda, neo-carnaval, Rio São Francisco
Rio de Janeiro
Canavial
A bossa nova é foda

O tom de tudo.