Porto Alegre, 24 de Julho de 2014

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Os fantamas televisuais de Baudrillard

Postado por Juremir em 22 de dezembro de 2013 - Uncategorized

Sempre penso em Jean  Baudrillard. Era um homem extraordinariamente inteligente. Tive a honra de ser amigo dele. Morreu ainda novo.

Um texto dele que sempre releio é este que segue:

*

A televisão chama bastante a atenção nos tempos que correm. Faz falar dela. Em princípio, ela está aí para nos falar do mundo e para apagar-se diante do acontecimento como um médium que se respeite. Mas, depois de algum tempo, parece, ela não se respeita mais ou toma-se pelo acontecimento.

Mesmo os Guignols* do Canal + acabaram por tomar como alvo as confusas peripécias do microcosmo audiovisual, inclusive as da sua própria emissora. Sem falar no vaivém das vedetes, dos diretores de redes e de programas; sem contar as intrigas e a corrupção que imaginamos normais nessa selva; mas, desta vez, exibidas aos telespectadores como legítimo espetáculo.

Pressentíamos que a mídia não escaparia à síndrome compulsiva de investigação, de absolvição, de reabilitação e de arrependimento que afeta a classe política ou as grandes empresas depois de certo tempo. Todos os poderes estão afetados pela síndrome depressiva do poder – complexo de justificação de todo e qualquer poder ao tornar-se excessivo, sem representar mais nada. É o caso do político, e hoje da mídia. A televisão passa a girar em torno de si mesma, na própria órbita, e a detalhar à vontade as suas convulsões porque não é mais capaz de encontrar sentido no exterior, ultrapassar-se enquanto meio para encontrar o seu destino: produzir o mundo como informação e dar sentido a essa informação. Por ter usado e abusado do fato através das imagens, até se tornar suspeita de produzi-lo por inteiro, está virtualmente desconectada do mundo e involui no seu próprio universo como um significante vazio de sentido, buscando desesperadamente uma ética, na falta de credibilidade, e um estatuto moral, na falta de imaginação (uma vez mais, vale o mesmo para a classe política).

E aí que a televisão começa a corromper-se. Questionada por todos e incapaz de responder à interrogação fundamental que é, ao mesmo tempo, a principal acusação: que está acontecendo com as imagens e com o sentido destas, com o mito da informação e com a televisão que se exibe, sem vergonha, por toda parte? E a sua responsabilidade nisso tudo? Incapaz de responder a essas questões, e mesmo de colocá-las, o conjunto do corpo audiovisual prefere mostrar as suas chagas, oferecer-nos o espetáculo dos seus conflitos, de suas rivalidades, de seu desperdício, de sua má gestão. Tudo isso não passa de derivativo. Os fatos que hoje dão manchete, contratos abusivos, acertos de conta, a polêmica serviço público/emissoras privadas, mascaram o elemento fundamental: a televisão perdeu ao mesmo tempo a idéia do que faz e a imaginação do mundo real. Em consequência, só fala para si mesma ou, o que dá no mesmo, para um público não identificado do qual só espera a audiência. Por causa disso, perde credibilidade junto a esse mesmo público e qualquer crédito aos seus próprios olhos.

Face às últimas peripécias, parece não nutrir mais ilusões a respeito de suas próprias práticas.

A circularidade é o vício: o meio pelo meio, como outrora a arte pela arte – vício de todas as instituições, sistemas e organizações que passam a funcionar em autarquia, sem qualquer preocupação com objeto e função. Imensas máquinas celibatárias cuja energia se esgota na autoalimentação e na autorreprodução. Eis o nosso dilema, vindo do fundo da simulação: e se o signo não remetesse nem ao objeto nem ao sentido, mas à promoção do signo como signo? E se a informação não remetesse nem ao acontecimento nem aos fatos, mas à promoção da própria informação como acontecimento? E mais precisamente hoje: e se a televisão não remetesse a mais nada, a não ser a si mesma como mensagem? Então a fórmula de McLuhan torna-se totalmente brilhante: o meio engoliu a mensagem e, multimeio, prolifera em todas as direções. Vemos, de fato, a proliferação das redes, dos cabos, dos programas, com o desaparecimento e a liquidificação dos conteúdos.

O zapping quase  involuntário do telespectador fazendo eco ao zapping da TV sobre si mesma.

A verdadeira corrupção, porém, não se encontra aí. O vicio secreto está no fato, já assinalado por Umberto Eco, de que os meios de comunicação remetem uns aos outros, e só falam entre eles. O multimédium tornou-se intermédium. Essa situação já problemática se agrava quando um só hipermídia, a televisão, curva-se sobre si mesma. Ainda mais que esse telecentrismo se desdobra num juízo moral e político implícito implacável: subentende que as massas não têm essencialmente necessidades nem desejo de sentido ou de informação – querem apenas signos e imagens; o que a televisão lhes fornece em profusão, só reintegrando o universo real, com soberano desprezo, mesmo bem camuflado, sob a forma de reality show ou de enquetes de rua, isto é, sob a forma de autocomentário universal e de roteiro falsificado, apropriando-se das questões e das respostas.

A televisão, claro, não é a única a enfrentar esse destino, ou esse círculo vicioso das coisas que, não achando mais sua finalidade objetiva, encontram seu fim em si mesmas – por meio do qual se livram de toda responsabilidade, mas através do que também patinam nas próprias e insolúveis contradições. Trata-se particularmente da situação crítica da mídia atual, sendo as sondagens um bom exemplo disso. Tiveram a sua hora da verdade (assim como a televisão, de resto), quando eram o espelho representativo da opinião, ainda existente, antes de tornar-se uma resposta antecipada. Mas com o assédio perpétuo das sondagens, estas deixam de ser espelho e convertem-se em tela. E a massa comporta-se como massa, isto é, instala-se uma troca perversa entre pesquisas que não questionam realmente mais e as massas que não respondem mais. Ou, antes, transforma-se em parceiro astucioso, como os ratos nos laboratórios ou os vírus perseguidos pelas experiências. As massas jogam com as pesquisas tanto quanto as sondagens jogam com elas. Jogam um jogo duplo. Não é que as pesquisas sejam falsas ou enganadoras, mas se tornaram aleatórias em função do sucesso e do automatismo. Mesmo jogo duplo, mesma relação social perversa entre a todo-poderosa televisão, mas só fazendo sinal para si mesma, e a massa de telespectadores vagamente escandalizados por esse desvio, não somente de verbas públicas, mas de todo o sistema de valores da informação.

Não há necessidade de consciência política para saber que depois das famosas latas de lixo da história, estamos às voltas agora com as latas de lixo da informação. Ora, a informação é talvez um mito, mas nos empanturraram com esse mito sobressalente, substituto moderno dos demais valores. O contraste entre esse mito universal e a situação atual das coisas é impressionante. A verdadeira catástrofe da televisão é essa profunda decepção quanto à função moderna da informação.

Sonhamos, em princípio, com a imaginação no poder – no poder político se entende -, mas sonhamos com isso cada vez menos, ou mesmo nada. O fantasma deslocou-se então para a mídia e a informação. Tivemos a oportunidade de sonhar (coletivamente, ao menos, mesmo se continuávamos individualmente sem ilusão) em encontrar aí liberdade, franqueza, um novo espaço público. Desilusão: a mídia revelou-se muito mais conformista, muito mais servil do que previsto; mais servil, às vezes, do que os políticos profissionais.

Última transferência registrada da imaginação: para o judiciário. Ilusão recorrente, pois essa operação, afora o perfume reconfortante de escândalos, só encontrava valor precisamente por equiparar-se à da mídia. Terminaremos por procurar a imaginação cada vez mais longe do poder, de qualquer poder (sobretudo longe do poder cultural, tornado o mais convencional e o mais profissional possíveis): junto aos excluídos, aos imigrantes, aos SDF*. Mas é preciso de fato muita imaginação porque eles, que não têm mais sequer imagem, já são sequelas da imaginação do social. É aí que devemos chegar. Perceberemos a inutilidade de querer localizar a imaginação em algum lugar, simplesmente porque ela não existe mais. No dia em que isso se tornar flagrante, a vaga decepção coletiva que paira na atualidade se transformará numa náusea gigante.

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* Programa humorístico de marionetes, veiculado diariamente pelo Canal +, com grande sucesso de audiência. Sátira impiedosa do mundo político, cultural e da mídia franceses (N.T.)

* SDF – Sem Domicílio Fixo – morador de rua  (N.T.).

(3 de junho de 1996)