Débora Mutter apresenta estudo sobre Assis Brasil

Maria Alice Braga, Débora Mutter, Luiz Antônio de Assis Brasil e Márcia Ivana Lima Silva

 

Por Luiz Gonzaga Lopes

 

Lançamento do livro “Um romancista ao Sul: a ficção de Luiz Antônio de Assis Brasil” teve mesa no Santander Cultural e sessão de autógrafos neste sábado.

 

O final da tarde deste sábado na Sala Leste do Santander Cultural foi um misto de fortuna crítica, ensaística, emoção, teoria literária e apreciação da obra “Um romancista ao Sul: a ficção de Luiz Antônio de Assis Brasil”, de Débora Mutter. O estudo crítico baseado na vida e obra de Assis Brasil é resultado da sua dissertação de Doutorado pela Ufrgs, em 2008. Além de um apanhado sobre a sua fortuna crítica, Débora Mutter analisa seis livros do autor nos quais a memória e as paixões humanas compõem uma equação mais ampla que incide sobre o imaginário dos leitores, humaniza a História e converte o passado em outrora. A mesa que tratou do livro na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre teve, além de Débora, a presença das professoras Maria Alice Braga e Márcia Ivana Lima Silva e do próprio autor estudado, Luiz Antônio de Assis Brasil. As seis obras analisadas por Débora no livro são “Perversas Famílias”, “Concerto Campestre”,  “A Margem Imóvel do Rio”, “O Pintor de Retratos”,  “Música Perdida” e “Figura na Sombra” (estas quatro compondo o conjunto da tetralogia de Visitantes ao Sul, sendo que “Figura na Sombra” foi lido após o doutoramento e incluído somente na obra lançada neste sábado).

Diante de uma sala cheia, Débora falou da emoção de poder falar do livro e do seu estudo diante do próprio autor, o objeto de estudo presente.  O primeiro a falar foi o próprio Assis Brasil que exaltou os ficcionistas que organizam as histórias e as contam para que elas virem literatura para dizer um romance faz mais sentido ainda quando um crítico organiza e dá sentido à obra. “Estamos num momento cultural e literário em que não há quase livros de ensaios.  Vale lembrar a importância de grandes ensaístas que formaram gerações de críticos como Otto Maria Carpeaux e Antonio Cândido. O que a Débora conseguiu com este livro foi recuperar esta ensaística e nestes nove anos teve o grande acessório de estar partindo do seu doutoramento”, afirmou.

A análise de Maria Alice Braga partiu do fato de ser uma das professoras da banca de Débora na defesa do Doutorado há nove anos.  “Fui revisitar a dissertação e ler o livro e posso partir do tripé Tempo, Memória e História para analisar esta obra. A memória é individual e coletiva e nestas seis obras analisadas o olhar do narrador está sempre externo. Sobre o tempo, podemos pensar em Santo Agostinho, que dizia ser o tempo é a obrigação de pensar uma linguagem que fala do tempo e o que nela está embutida, que o tempo são as imagens recolhidas na memória, guardadas como vestígio.”  Maria Alice lembrou de um capítulo quase final do livro “Viagem ao Sul: a Dramatização do Olhar”, concluindo o seu pensamento com a frase: “Não há espaço sem tempo, nem tempo sem memória. E isto tudo não existiria sem a fundamentação da literatura”.

Márcia Ivana tratou de colocar a intertextualidade na conversa, analisando que a obra de Débora aborda a relação/jogo da literatura de Assis com a literatura universal. “Débora recupera, na análise da tetralogia, a noção de olhar que está por trás das obras. Os quatro protagonistas são sempre estrangeiros ao Rio Grande do Sul. O jogo que se estabelece entre realidade e imaginário faz pensar o quanto é difícil entender o outro, a cultura do outro. A narrativa surge para resolver o problema, para o imaginário poder substituir a realidade”, analisou Márcia. Para a professora da Ufrgs, Débora chama a atenção deste olhar como metonímia da realidade. Depois, Márcia leu um trecho da obra que inicia assim: “Na escritura assisiana, a transtextualidade e olhar do estrangeiro transfigurado pela experiência da viagem se estabelecem como realidade possível em uma hipertextualidade específica que pode ser lida como outra história de consolidação cultural do RS, e, por extensão, do Brasil”. O fechamento de Débora foi de emoção para dizer que a obra de Assis Brasil oferece uma infinidade de possibilidades e articulações e que muitas vezes as classificações quase não dão conta.  Depois da mesa, já na noite deste sábado, Débora teceu dedicatórias na Praça de Autógrafos.

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