A tristeza fantástica de ‘Alegria’

Escritor Eduardo Mahon lança livro nesta sexta, 20, às 18h30min, na Letras & Cia do Paseo Zona Sul

Por Luiz Gonzaga Lopes

O advogado, professor e escritor carioca, radicado em Cuiabá (MT), Eduardo Mahon, estreou em texto no RS com a publicação de um conto no Caderno de Sábado em março, “Manual de Instruções”, no qual um pai compra um arco-íris para o filho, mas não lê o manual de instruções e o brinquedo pifa. Pois este escritor com mais de uma dezena de obras lançadas, terá lançamento em Porto Alegre do seu novo romance “Alegria”, nesta sexta-feira, dia 20, às 18h30min, na Letras & Cia Livraria, do Shoping Paseo Zona Sul (Wenceslau Escobar, 1823, loja 14), no bairro Tristeza. O romance conduzido à maneira de Albert Camus (do qual Mahon epigrafa trecho de ‘A Peste’) trata de uma cidade fictícia com o nome Alegria, mas que convive com a tristeza de uma espécie de praga que leva as pessoas e até os peixes a cometerem o suicídio. O livro é um lançamento conjunto da gaúcha Editora Sulina e da editora Tanta Tinta, do Mato Grosso. Mahon é autor de obras de contos como “Contos Estranhos”, “Doutor Funéreo e Outros Contos de Morte”; de poesia como “Palavrazia” e “Meia Palavra Vasta” e de romances como “O Cambista” e “O Homem Binário e Outras Memórias da senhora Bertha Kowalski”. 

 O blog Livros A+ resolveu dar dois dedos de prosa via whatsapp com este autor que estará em Porto Alegre nesta sexta para falar do romance Alegria, das suas influências de Camus a Saramago e outros papos literários.

 

Livros A+ – Como tiveste a ideia de “Alegria”?

Eduardo Mahon – Alegria é um livro que é essencialmente Camusiano. Ao contrário do Gabriel García Márquez e do Juan Rulfo, a minha principal influência para o Alegria talvez tenha sido o Albert Camus em A Peste. Tanto que o último parágrafo de A Peste dá início ao Alegria, na página preta como a epígrafe. Ele diz que a peste pode voltar. Eu pensei numa peste absolutamente incompreensível, que é a dos suicídios em Alegra. Uma peste que não depende do outro, de contágio, depende muito mais dos nossos infernos pessoais. Depois de acabar o livro, você pode traçar uma série de paralelos. Um deles poderia ser o Ensaio Sobre a Cegueira, do José Saramago. Não me passou nada além do que a influência do Albert Camus.

 

Livros A+ – De onde vem tuas influências, tuas referências literárias?

Eduardo Mahon – é claro que eu li García Márquez, o Saramago, o Rulfo, o Ernesto Sábato, enfim todos os grandes escritores que flertam com o fantástico, mas acho que o fantástico foi despertado em mim quando era bem mais jovem e li o Nikolai Gogól. Ter lido O Capote, o Nariz, isto me influenciou mais do que com Cem Anos de Solidão, Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada, O Amor nos Tempos de Cólera, Memórias de Minhas Putas Tristes, os livros do Gabo em geral. Acho que já mais maduro eu li bastante coisa do Saramago e me interessei pelo Saramago mais pela técnica e pela estética do que pela história. Comecei a lê-lo com Todos os Nomes, depois O Evangelho Segundo Jesus Cristo, O Cerco, Jangada de Pedra, Ensaio sobre a Cegueira, o Elefante. Dele, a inovação estética é absolutamente incrível. A maneira dele escrever me influenciou muito, na supressão de sinais gráficos do texto, como travessão, aspas, a utilização do parágrafo monobloco, isto é muito Saramago. Acho, por exemplo, que o parágrafo está com seus dias contados.

 

Livros A+ – Como pensas que deve ser a boa literatura nos dias de hoje?

Eduardo Mahon – A questão da boa literatura é muito subjetiva. Eu acho que nós temos que partir de algum lugar. Como é impossível se ler tudo o que temos disponível hoje, nós precisamos priorizar, ir por algum caminho. O meu caminho foi ler os clássicos primeiro. Eu li os clássicos russos. Me lembro bem disso. Depois, os europeus em geral e finalmente eu comecei a ler a teatrologia grega, que no final das contas é a raiz comum dos ícones ocidentais. Este é o meu caminho. Tem gente que começa por um autor, que começa a se seduzir por um estilo. Em função de uma proximidade que eu tinha com pessoas que tinham coleções de clássicos. Comecei a ler o cânone primeiro. O meu padrão de avaliação eu confesso que é muito alto, canônico. Depois li o anticanônicos, leio os contemporâneos, leio os lançamentos, os prêmios Pulitzer, os Book Prime, os Nobel. A boa literatura cuida do ser humano. Para mim, ela é aquela que daqui a cem anos continuará instigante, falando do ser humano. Ela não é circunstancial, ela é universal. O sujeito que está produzindo no Crato (CE) ou na Sibéria está falando do ser humano. Ele não está contanto uma história circunstancial. Ele está expressando um dilema do ser humano. É claro que há questões estéticas e uma maneira brasileira de fazer literatura, pois aí é a nossa personalidade em ação.

 

Livros A+ – E as novidades da tua carreira, além de “Alegria”?

Eduardo Mahon – Está sendo traduzido este ano o livro “Contos Estranhos” para a Bélgica e para a Holanda. Este ano ainda, eu lanço “O Homem Binário” e “Alegria”, em Portugal. E no ano que vem, eu lançarei “Contos Estranhos” na Primavera Literária, em Paris, além de Bélgica e Holanda. Eu fico satisfeito de encontrar outras pessoas que embarquem na minha maluquice. A estética do conto é muito diferente da do romance. Há muita coisa implícita no conto. O bonito é estar implícito. No romance é preciso explicitar mais. A estética do conto é de uma escrita frenética, mais agudamente fantástica e insólita. Então, entrar em outros países é fenomenal. Mandando um abraço aos gaúchos e querendo encontrar pessoas que amem e falem de literatura, além da gastronomia aí do Sul que é fantástica.

FICHA TÉCNICA:

Livro: Alegria, de Eduardo Mahon

Editora: Sulina/Tanta Tinta

Capa: Elaine Caniatto

Nº de páginas: 333

ISBN: 978-85-205-0809-1

Preço de Capa: R$ 35,00

Departamento editorial e divulgação: (51) 3019. 2102

Confira as páginas iniciais: https://goo.gl/Ajpasr

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