A dialética dos ensaios de Homero

Livro de ensaios de Homero Vizeu Araújo “Variados Mas Combinados: Ensaios sobre Literatura” será lançado nesta segunda, 19h, na Aldeia, em Porto Alegre

Luiz Gonzaga Lopes

O livro “Variados Mas Combinados: Ensaios sobre Literatura” (Editora da Ufrgs), com ensaios do professor de Literatura da Ufrgs Homero Vizeu Araújo terá lançamento nesta segunda-feira, dia 20, às 19h, na Livraria Baleia, do Aldeia (Santana, 252), em Porto Alegre. Para lançar a obra nada melhor do que um bate-papo com dois outros bambas da docência em Literatura da Ufrgs, cada um em sua respectiva geração, Luís Augusto Fischer e Guto Leite para um bate-papo sobre a obra. O livro estará à venda no local por R$25,00. Guto Leite no prefácio intitulado “Um Intelectual Dialético” apresenta Homero como um conhecido defensor da ortodoxia materialista: “os ensaios procuram um número variadíssimo de diálogos, com pesquisadores de diversas formações e métodos, colegas, alunos, referências mais ou menos canônicas do ponto de vista da crítica marxista tradicional. Em certo sentido, a natureza deste livro confronta qualquer prática de especialização, visto que obras e temáticas muito variadas recebem a atenção do crítico”. Como não consegui ler o livro em sua integralidade, roubo descaradamente de Guto Leite a palavra “dialética” para titular este texto chamando para o lançamento do livro de Homero.  

Por sua vez, Fernando Cerisara Gil avisa que o “sentimento com que o leitor sai, depois de atravessar esta nova coletânea de ensaios de Homero Vizeu Araújo, parece não ser outro senão o de impacto, quando não o de atordoamento. Trata-se de um ensaísmo à brasileira fora da curva, ou bem acima da curva dos especialistas monotemáticos e desproblematizados que assolam o modo de pensar a literatura e a cultura brasileiras de hoje. O melhor do desconserto se sustenta num olhar crítico e numa inventividade ensaística que se mantêm numa espécie de equilíbrio instável suscitado não somente pela matéria variada em exame, como também pela sua abrangência no tempo e no espaço”. Para finalizar, Fernando elogia o achado do título “Variados mas combinados”: “a paráfrase parodística de Trotsky, que também não deixa de a ser marca de uma posição crítica diante do debate proposto. Nada aqui é de graça. O livro revela, nesse ponto, também o desigual mas combinado das formas culturais e literárias em perspectiva dialética. Sempre com o espírito aberto de quem mais pergunta do que responde”. 

 

O próprio Homero em papo por e-mail com este humilde blogueiro e crítico comentou que “o livro consiste em uma coletânea heterogênea de escritos, com um texto sobre Philip Roth, por exemplo, publicado há mais de dez anos na Zero Hora e também um ensaio mais longo, coisa para revista acadêmica, sobre Robinson Crusoé e sua aventura brasileira. Mas a maior parte é Literatura Brasileira, de os ratos, de Dyonelio, até Drummond e algum João Cabral, enfim variados mas combinados em alguns pontos de vista”. Segue agora a resenha do orientando de Homero no Doutorado em Letras, Tiago Lopes Schiffner, publicado neste sábado, no Caderno de Sábado, do Correio do Povo, com mais fortuna crítica sobre o livro:   

Crusoé brasileiro, ratos endividados e três Joãos

Tiago Lopes Schiffner*

“Variados mas combinados”, novo livro de Homero Vizeu Araújo, persegue as contradições sociais que emanam da temática e da arquitetura das obras literárias examinadas ao longo de quatorze ensaios. Num momento em que as vítimas das incongruências do capital são encarceradas e em que emergem soluções segregacionistas nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Brasil, Homero procura entender os impasses presentes em textos de lá e daqui, de diferentes épocas. A fidelidade ao método de pesquisa dá unidade aos variados assuntos e vai apresentando os matizes críticos num texto muito convidativo. Quem teve contato com os outros livros do autor não vai se surpreender com o tom bem-humorado das sínteses argumentativas e com a espontaneidade da escrita que não foge às polêmicas, sempre com uma ironia fina. Todos os artigos são combinados pela leitura atraída pelas tensões e pelas incoerências dos antagonismos que dividem o centro e a periferia do capitalismo.

Homero não subdivide os artigos de “Variados mas combinados” em seções, mas, salvo engano, o livro poderia ter três segmentos. O primeiro se chamaria O lá e o aqui, o centro e a periferia. O segundo talvez pudesse ser denominado de Os intelectuais e a descentralização do Brasil. O terceiro se intitularia A modernização do Brasil: a prosa, a poesia e a música de invenção. A divisão proposta ajuda a destrinchar os argumentos e perceber a unidade entre grupos de ensaios e o movimento do livro, que é variado mas com combinações bem definidas.

Variados mas combinados abre com alguns comentários certeiros sobre o romance de Philip Roth. Homero trata de um processo de gradativa impessoalidade do narrador que é acompanhado de uma maior diversificação temática nos romances dos anos 90. A vida sexual, o judaísmo e a violência entre Israel e Palestina perdem espaço para o trauma da guerra do Vietnã na vida americana (Pastoral americana, 1997), os efeitos do macarthismo (Casei-me com um comunista, 1998) e os dilemas do racismo (A marca humana, 2000). A atenção para o movimento de transformação do narrador de Roth segue a tradição da crítica brasileira, sempre compenetrada nos trejeitos da voz narrativa e no que eles podem revelar.

Na sequência, a obsessão de Ishmael pela caça da baleia branca revela os negócios espúrios de Moby Dick (1851). Em Machado e Arredores (2011), Homero compara as ideias fixas do marujo narrador às monomanias de Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Agora, o enfoque se volta para o tráfico de mercadorias no Atlântico nos dois hemisférios. No Brasil, o comércio em alto-mar carrega mulheres e homens negros em embarcações precárias e é justamente condenado, acendendo o sentimento patriótico e o espírito condoreiro do Romantismo. Nos EUA, a perseguição ao óleo animal é celebrada com entusiasmo pela sociedade já atravessada por valores éticos capitalistas. O crítico alinha uma tradição de representações de comércios marítimos indignos em que os animais ou as pessoas niveladas aos bichos são explorados indiscriminadamente.

As inverdades do mito do individualismo moderno são enfrentadas também na interpretação das aventuras do traficante Robinson Crusoé. Antes de naufragar numa viagem pelo Atlântico, Crusoé faz negociações na Bahia de Gregório de Matos e de Padre Vieira e troca manufaturas inglesas por criados e escravos de bom porte. Ele encarna o perfil do aventureiro weberiano antes de se tornar o homem concentrado, disciplinado e ordeiro, preso na Ilha do Desespero. Homero segue indicações de Franco Moretti em O burguês (2013) e explicita as oscilações entre a moralidade cristã e a sanha individualista que contaminam cada linha do clássico da literatura inglesa. Os subterfúgios ilícitos de Crusoé ficam mais claros no olhar brasileiro e por meio da comparação com o arranjei-me e com o jeitinho de Memórias de Um Sargento de Milícias (1854). O cruzamento entre o romance do mundo desenvolvido e o do subdesenvolvido distingue práticas semelhantes e lança luz sobre o caráter perverso do sistema minimamente interligado.

O último ensaio dessa seção trata de justificar a rotina escravista a partir dos escritos de Padre Vieira. A dualidade metrópole e colônia remonta à base de sustentação exploratória que tinha como vítimas os negros e os índios. A palavra de Deus serve para apaziguar os ânimos e conceder uma explicação redentora para o infortúnio dos massacrados.

O percurso retroativo que vai de Roth à Vieira apresenta um grupo de narradores brancos, estrangeiros e civilizados. Eles entram em contato, de uma forma ou de outra, com as aberrações do capital, que podem chocar, servir de meio de lucro ou ser defendidas como naturais, segundo regras mundanas ou extramundanas.

A segunda seção apresenta os dilemas dos pobres coitados, que podem se engajar na luta política, mudar de vida e se tornarem heróis, como o de Jubiabá (1937). Ou ficam entregues à própria sorte sobrevivendo por meio da troca de favores para conseguir pagar as contas do dia a dia, como em Os ratos (1935). São os marginalizados dos romances urbanos que ainda encontram semelhanças estéticas e temáticas em Angústia (1936) e em O Amanuense Belmiro (1937). O ensaio sobre Os ratos, escrito com Octávio Reis, é o destaque nessa sequência. É fértil em indicações sobre a organização e o funcionamento do mundo desmonetarizado, em que as relações de favor dão as cartas num universo sem notas.

Em seguida, Alcides Maia, Augusto Meyer e Raymundo Faoro são referências importantes da tradição do debate machadiano no Rio Grande do Sul. É apresentada uma série de interpretações da obra de Machado de Assis, num grande painel desses estudos em terras gaúchas, que mostra o interesse e capilaridade da discussão por aqui. Em Raymundo Faoro, leitor de Simões Lopes Neto e de Ramiro Barcellos, Homero e Luís Augusto Fischer procuram entender o pensamento formativo de Faoro e a concepção sobre o gauchismo e sobre a compreensão do Brasil para além do litoral e das definições de brasilidade do Sudeste. Se na primeira parte de Variados mas combinados estavam compostos os intelectuais e artistas do centro do mundo, agora é a vez do debate sobre as coisas brasileiras e sobre as contradições internas, entre o centro e a periferia caseiros.

A última seção é dedicada aos poetas nacionais e às suas criações pós-anos 50. Os capítulos trazem o contraste entre a poesia mais dura e seca de musicalidade da obra de Drummond e João Cabral e o lirismo mais espontâneo de Morte e Vida Severina (1955) e da Bossa Nova. No diálogo com João Gilberto entra outro João, o Guimarães Rosa. O ensaio sobre este e Gilberto dá conta da inventividade e do fluxo temporal da canção gilbertiana, que lembra a travessia guiada pelo São Francisco em Grande Sertão: veredas (1956). A canção Águas de março e a narrativa de Riobaldo confluem na criação que se desenvolve sem margens fixas, aberta para o futuro utópico. As promessas de desenvolvimento nacional são celebradas pela criatividade sem limites, mas, no conjunto dos ensaios de Variados mas combinados, percebemos os efeitos desiguais da modernização, que não apaga a vida Severina e que pode ser vista com um sinal negativo na poesia e na rigidez de Fazendeiro de ar (1954).

Os três grupos de ensaios compõem uma série de temas e problemas que elaboram um entendimento profundo das dificuldades e das sequelas desencadeadas pela mercantilização da realidade. As visões artísticas e intelectuais vão da euforia ao pessimismo, evidenciando os efeitos colaterais de uma dualidade equilibrista. Os quatorze artigos de Variados mas combinados vão dos Estados Unidos ao rincão da fome do Nordeste e se unem porque exibem as variáveis que afastam e aproximam a penúria e a prosperidade através de diferentes representações literárias dos efeitos do capital ao longo da história.

*Mestre em Estudos Literários com ênfase em Literatura Brasileira pela UFRGS 

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