Um exercício que não é só de inspiração

No final da tarde de terça-feira, 14, a escritora Leticia Wierzchowski esteve na Praça de Autógrafos da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre autografando seu novo romance Travessia, conclusão da trilogia A Casa das Sete Mulheres. A autora deu atenção e conversou com todos os leitores que estavam presentes para ganhar o autógrafo da escritora. Para ela, “se alguém, nesse mundo moderno sai de casa, num horário de pico, vem no centro de Porto Alegre pedir uma dedicatória minha. Como é que eu não vou tratar com toda a simpatia do mundo essa pessoa?”

Após a sessão de autógrafos, a escritora conversou com o Correio do Povo sobre suas experiências literárias, como iniciou sua carreira como escritora e sobre seu novo romance Travessia.

Como iniciou o seu desejo de ser escritora?

Acho que iniciou por conta de ser uma boa leitora. Mas depois de fazer várias coisas eu encontrei no processo criativo uma liberdade maior de inventar qualquer coisa com palavras, sem orçamento, sem precisar do auxílio de ninguém, e aí eu comecei a escrever.

Antes de ser escritora, você iniciou a faculdade de arquitetura. Como foi a mudança para o mundo literário?

Entre arquitetura e virar escritora eu tive uma confecção de moda, porque eu era uma boa desenhista e gostava de moda e foi ali que eu comecei a escrever. Um dia eu estava esperando uma pessoa para uma reunião e comecei a escrever uma história e eu falei “que alívio isso aqui, eu não preciso de ninguém”.Todos os dias depois do final do expediente eu ficava na confecção para escrever mais um pouco daquela história. Até que um dia eu falei, “eu odeio essa confecção, eu quero é ser escritora”. Então eu fechei a confecção e comecei a escrever. Arranjei um emprego, porque não podia viver só de um sonho. Até que eu comecei a publicar e as coisas começaram a acontecer.

Desde o livro da Trilogia Farroupilha, A Casa das Sete Mulheres você imaginava fazer uma série desses livros?

Quando eu fiz A Casa das Sete Mulheres, eu queria fazer uma continuação. Mas depois de fazer a continuação, eu quis fazer uma trilogia, que nem o Érico Veríssimo. Mas isso demorou 15 anos. Eu fiquei muitos anos sem fazer o terceiro volume.

Você pode falar um pouco do teu novo romance, Travessia?

A Travessia é a história dos dez anos que o Garibaldi e a Anita viveram juntos. Desde o dia que ele sai da casa das sete mulheres levando os barcos pelo pampa puxado por bois para chegar em Laguna e conhecer Anita. Eles vão ficar juntos e lutarão três guerras juntos, no Rio Grande do Sul, a Revolução Farroupilha, depois no Uruguai, Guerra contra Rosas e depois na Itália, primeiro movimento de unificação. Até o dia em que a Anita morre e o Garibaldi é preso. Mas ele vai voltar dez anos depois e unificar a Itália. Esses dez anos de história é que estão nesse livro.

O que você espera das pessoas ao ler suas obras?

Eu espero transformar as pessoas de alguma maneira. Provocar algum sentimento, uma espécie de elucubração sobre o assunto, sobre a emoção do tema que eu estou propondo. Todo autor quer que o leitor saia de alguma forma transformado daquela leitura.

Qual o grande desafio da literatura na pós-modernidade?

Acho que o grande desafio é fazer as pessoas se concentrarem, porque o mundo está muito liquefeito.

O que você diria para alguém que assim como você, gostaria de ser escritor?

Eu diria, escreva. Porque as pessoas acham que para escrever um livro tem uma inspiração e tu senta e escreve quando está inspirado. Não, você tem que trabalhar muito. Um livro de quase 500 páginas como Travessia são muitas horas diárias de trabalho. E se você quiser fazer mais um livro, multiplica isso para quantos quiser fazer. É um exercício de determinação, não só de inspiração.

Texto e foto Mariana Gomes/PUCRS

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