Quantas histórias um engraxate com 30 anos de profissão tem para contar?

Na história de Porto Alegre, certas profissões ajudaram a montar o cenário da Capital ao longo dos anos. Os engraxates do Centro da cidade, certamente, são um deles. A Praça da Alfândega, há pelo menos 30 anos, contava com 34 cadeiras para engraxar sapatos. Hoje, são apenas 12. Entre esses poucos profissionais está Leandro Furtado, 49 anos, sendo 30 dedicados à arte de embelezar sapatos alheios. Com um sorriso no rosto e alegria de exercer aquilo que mais ama, Fabiano conta a sua trajetória pessoal e profissional. O engraxate é mais um dos personagens com belas histórias no entorno da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Os familiares de Leandro partiram do município de Piratini, passando por Pelotas até finalmente chegar em Porto Alegre, mais precisamente na Ilhota, primeira grande comunidade. O local era formado por moradores pobres e descendentes de escravos que não tiveram para onde ir após a assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, em 1888. Aos 19 anos, com incentivo do avô, Leandro começou a “fazer uma graxinha” no Centro do capital e nunca mais parou. De lá para cá, muita coisa aconteceu na Praça da Alfândega, aos olhos do engraxate, que é da terceira, e última, geração de profissionais da família.

Leandro acredita que a não renovação é o principal motivo na diminuição de cadeiras. “O cara acha que é só chegar aqui e sair engraxando. Pensa que é fácil. Demora muito tempo para conseguir clientela e pegarem confiança em ti. Mas quando pega, até a bota da ‘patroa’ trazem pra dar uma lustrada”, comenta entre uma risada e outra. Atualmente, Leandro engraxa de 10 a 20 pares de sapatos por dia, mas quando começou, mais de 50 passavam pelas mão de Leandro. “Antigamente todo mundo tinha trabalho aqui. As 34 cadeiras estavam sempre ocupadas, mas com o passar do tempo os vovôs que aqui trabalhavam não tiveram pra quem passar a permissão de uso do local e foram saindo, pouco a pouco. Isso é ruim pra cidade e pra Praça. Imagina um dia tu passar por aqui e não ver mais os engraxates. Vai ser estranho, sem graça. Já somos parte do local, assim como a Feira, o tio da pipoca e o pessoal da dama. A Feira do Livro é demais, não tem coisa melhor do que tu ir numa praça, encontrar conhecidos e outras pessoas, comprar livros e coisas do tipo. Tem uma troca entre as pessoas. Isso mostra que o lugar tá vivo, faz. Deveria ter mais eventos aqui. É muito lindo de ver”.

Clientela fiel faz parte da trajetória

Leandro acorda todos os dias às 6h10min. Às 9h, em ponto, já está na sua cadeira, ou como ele mesmo diz, em seu escritório, para mais um dia de trabalho. Com tanto tempo de profissão, tem cliente que o acompanham desde o início. Entre jovens e senhores, muitas histórias e conversas já passaram pelos ouvidos de Leandro. “Aprendi a conversar com qualquer um que senta aqui. Tem gente que chega e quer falar de futebol. Fala de Inter ou Grêmio, às vezes de política. Entre uns e outros tem aqueles que não conversam e só quererem saber do serviço. Tenho cliente que hoje, aposentado, conversa comigo, mas na época que começou tava atrás do dinheiro e dava só o bom dia/boa noite. Hoje eles vêm com mais calma e falam sobre a família, filhos e a vida. Alguns acabam sozinhos e vem aqui só para ter com quem conversar. Os sapatos não estão sujos, mas ele tá procurando por alguma companhia e tem em mim isso”. A relação de proximidade que o profissional criou com os clientes é um dos principais trunfos dentro da profissão, mas principalmente para a vida.

Amor pela profissão é a principal conquista

“Tu tem que acordar todo o dia e pensar: vou fazer de novo e melhor.”

Para ele, sua maior vitória é o trabalho e a vida. Graças ao que faz, Leandro tem hoje casa própria e estabilidade financeira. “Gosto de estar aqui. Vou trabalhar nisso até onde a saúde aguentar. É ela quem define até onde a gente vai. Muita gente me pergunta ‘ tu tá lá na praça ainda?’ como se isso aqui fosse um emprego provisório. Eu amo estar aqui e isso me faz bem. Às vezes a conta vence, mas a gente dá um jeito e paga ela. Eu tenho um planejamento e sei da minha condição, não tem como trabalhar como engraxate e pensar que vou ter um salário de bancário ou engenheiro. Não adianta eu querer algo além do que posso sem economizar e me organizar. É assim que funciona, ainda mais para quem é autônomo como eu. Sempre é bom ter aquela gordurinha na carteira na hora que a coisa aperta. Apesar disso eu sigo aqui porque faço o que amo”. Além do trabalho, Leandro tem no filho de apenas 10 anos uma das principais conquistas e por ele é menos “mão de vaca” como diz. “Meu guri é tudo. Posso ficar com um tênis ou roupa rasgada até ter mais como usar, mas ele não. Ele tem que estar sempre bem. Quer saber se estou bem é só olhar pra ele. É meu orgulho”.

No final da conversa, já estava quase na hora de bater o ponto. Leandro volta para a casa no bairro Cavalhada, após mais um dia de trabalho, mais um dia de conversa e risos com os clientes. Leandro é apenas mais um entre os milhões de brasileiros que apesar das adversidades luta para o melhor para sí. Histórias como a dele existem aos montes no país e inspiram quando tem a oportunidade de ser contada.

 

Texto e foto: Jean Monteiro/Ulbra

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