Correio do Povo

27/07/2018 15:57 - Atualizado em 27/07/2018 16:44

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Multiculturalidade e respeito marcam debates da Flip nesta sexta

Destaque na programação, mesa “Minha Casa” contou com Igiaba Scego e Fábio Pusterla

Noemi Jaffe (mediadora) e os escritores Igiaba Scego e Fábio Pusterla- Crédito: Walter Craveiro / Flip / Divulgação / CP
Noemi Jaffe (mediadora) e os escritores Igiaba Scego e Fábio Pusterla
Crédito: Walter Craveiro / Flip / Divulgação / CP

A sexta-feira está sendo consolidada na 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (RJ) sob a égide da multiculturalidade, o respeito às mulheres, aos afrodescendentes e às diversas manifestações culturais pelo mundo em locais como Somália, Itália, França e Marrocos. A principal mesa do início da tarde na Tenda da Matriz foi com a estudiosa da multiculturalidade e das migrações da África para a Itália, a autora italiana de origem somali Igiaba Scego e com o poeta, crítico e tradutor italiano Fabio Pusterla, mediados por Noemi Jaffe, intitulada "Minha Casa". Igiaba tem três livros traduzidos ao português no Brasil, “Adua”, “Minha Casa é Onde Estou” (este será publicado nas próximas semanas) e “Caminhando contra o Vento”, no qual fala de sua paixão por Caetano Veloso. Em um dos pontos da fala de Igiaba, ela  abordou sua casa. “Por nascer em Roma, mas ter família somali, eu busquei em “Minha Casa é Onde Estou” reconstruir um pouco das memórias familiares por meio de uma Mogadíscio que já não existe. Foram 27 anos de guerra civil. Minha família toda sofreu uma diáspora. Estão todos espalhados pelo mundo. Então, a minha casa é a língua italiana e as suas contradições, pois eu não concordo com um governo que se declara abertamente racista, que condena os migrantes a morrer no mar. Quero saber mais e escrever sobre a Itália negra”, revelou. Fábio Pusterla, que teve o seu livro “Algerman” traduzido para o Brasil, destacou que a casa do poeta é a que perfaz os deslocamentos da palavra na língua original, no caso o italiano. “A língua que escrevo é a da poesia. A palavra literatura deriva de letra e não de palavra. Acho que ao contrário do romance, a poesia não tem ação direta de engajamento contra estes temas como racismo, xenofobia, preconceitos múltiplos. O que a poesia pode tentar fazer é questionar e tentar revisar este mundo. O que se passa na Itália e na Europa toda é que as pessoas, insufladas pela direita, estão com medo de perder seus privilégios, por isso se voltam tanto contra os imigrantes. É preciso entender o que eu chamo de humanismo nômade. A poesia pode exaltar e participar deste nomadismo constante e assim mostrar sua força neste contexto”, observou. Igiaba destacou ainda a importância das contranarrações e que a presença dos negros na Itália existe desde o Renascimento. “Gosto muito de citar quadros renascentistas de Carpaccio, que sempre possuem um personagem negro, como um gondoleiro ou um outro trabalhador”. Ela também falou que escrever sobre Caetano Veloso e olhar mais o Brasil e a América Latina a fez descobrir melhor o mundo, a África e a Itália. “No livro, não falo só do Caetano, mas também do Gil, Gal e Bethânia, mas como certas canções dele mostram um Brasil diferente do estereótipo e falo também do sofrimento dele no exílio e de como ele se tornou um grande compositor”, finalizou. A tarde de sexta também é da mesa “Do Desejo” da franco-marroquina Leïla Slimani e do egípcio radicado nos Estados Unidos, André Aciman. Leïla, que esteve em Porto Alegre em junho, participando do Fronteiras do Pensamento, falou do seu livro “Canção de Ninar” (Tusquets), mas também de “No Jardim do Ogro”, de 2014, que deve ser lançado no Brasil em 2019, e da obra de não ficção “Sexo e Mentiras”, na qual entrevista mulheres marroquinas sobre tabus e liberdade. “Viajei para o Marrocos para lançar 'No Jardim do Ogro' e constatei que era impossível haver intimidade, pois não há como pegar na mão ou beijar em público. Entrevistei mulheres para saber qual a condição delas com o seu feminino e como elas viviam sua sexualidade. Descobri que havia várias violências como o 'cale-se', o fato de mulheres só poderem escrever sob pseudônimo masculino, que elas não podiam ousar ou transgredir leis machistas, sob pena de perder todos que amam e cometer algo passível de julgamento das pessoas ou familiares e de prisão. Minha luta é dizer que a mulher não tem nada a perder quando conquista a liberdade”, observou Leïla. André Aciman falou dos seus dois romances mais conhecidos no Brasil: “Me Chame pelo Seu Nome”, cujo filme foi indicado ao Oscar 2018, e “Variações Enigma”. “A família de Elio, protagonista de 'Me Chame pelo Seu Nome' é multicultural e que dá liberdade de escolha a ele, mas o que todos comentam é que a fala do pai de Elio seria a fala que alguns homens gostariam que os seus pais tivessem tido de incentivar a experimentar uma atração, uma paixão, um amor, seja lá como ele se apresente”, concluiu.

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