Vou dizer: quando uma bateria ataca com tudo, não tem para ninguém. Mas para ninguém mesmo. NINGUÉM.
Nem para Mozart.
Nem para Beethoven.
Nem para Wagner.
Para ninguém.
É genial.
Simplesmente genial.
E não estou falando isso por causa de uma bateria excepcional. Essa loucura que toma conta de mim quando uma bateria dispara sua magia pode ser detonada até por baterias medianas. Ontem, no caso, fui incendiado pela bateria do bloco Simpatia é quase amor, que sai da praça General Osório, na Zona Sul do Rio, ao grito de “Alô burguesia de Ipanema”. O carnaval é uma grande invenção. Libera o selvagem em nós. Mesmo um selvagem domesticado como eu, que, ao final, sempre se comporta muito bem.
O bom, no Rio de Janeiro, é que o carnaval vem buscar a gente em qualquer lugar. Tem bloco em cada canto e de todo tamanho. Em venho ao Rio uma semana antes do carnaval oficial para ser contaminado pelo carnaval de bairro. Sonho com o dia em que o Bom Fim, em Porto Alegre, cairá na folia ao grito de “Alô classe média do Bom Fim”. Tenho fé. Vai acontecer. É questão de tempo.
Se duvidar, viro presidente de bloco.
Hoje, enquanto escrevo, o Bloco da Boa esquenta aqui bem na frente do hotel. Vai ser um arrastão. No bom sentido. Um arrastão da boa. Fico sempre meio grilado quando uma marca de qualquer produto resolve se apropriar de algo que deveria ser espontâneo. Só que lá embaixo, na Vieira Souto, ninguém está dando a mínima para esse tipo de prurido anticomercial e já há um enxame de boas e de bons na ponta dos cascos para a festa. Vai ser a loucura.
Ah, a cerveja é de graça.
Há uma campanha contra o xixi ao ar livre: “Segure o xixi que o banheiro é logo ali”. E tem até uma equipe com bombas de essência de eucalipto para aliviar o estrago dos mijões. Chego na janela e só vejo gente jogando, sambando, bebendo e beijando. É mulher quase pelada, homem fantasiado até de homem e muita animação. Encontrei um francês de primeira viagem ao Brasil que me disse:
– Estou sonhando!
O Bloco da Boa tem um refrão sugestivo: "Se não quiser me dar, me empresta". Faz sentido.
Como eu sempre digo: tudo é uma questão de entendimento.
Simples e direto. Chato é o pós-bloco, quando estão todos detonados e as ruas ficam com cara de cenário de uma batalha campal. É o preço a pagar pela alegria. Mesmo assim, em meio à explosão, dá para fazer coisas convencionais. Por exemplo, ir ao cinema. Fomos ver “Guerra ao terror” depois que o Simpatia é quase amor nos estafou. Manoel Carlos, o Maneco, autor de “viver a vida”, estava lá com cara de entediado. O filme é fraco. A diretora, ex de James Cameron, vai tomar um banho do agora rival no Oscar. É um filme convencional: três ou quatro piadas, duas críticas ao belicismo dos americanos, cinco ou seis casos de perigo absurdo na guerra e uma historinha bem amarrada para demonstrar que o Ocidente consumista não entende a cultura dos outros. Correto e medíocre. Avatar dá de dez a zero.
É isso aí. Falei.
O resto é trocadilho, trocadalho e samba no pé.
Mala direta: chato que diz tudo o que pensa ao vivo.
Fiquei aí que já vou colar no bloco da Preta Gil.