O
mundo maravilhoso de Lula
| Vai bem o turismo do governo
de Lula. Em pouco mais de um ano, ele já visitou duas das maravilhas
do mundo. Foi à pirâmide de Gizé e acaba de esticar
uma viagem à Índia para passar no Taj Mahal uma maravilha
fora de mão que se pode bem ver em fotos.
Isso no mesmo dia do anúncio
em São Paulo de que falta pouco para se bater a marca dos 2 milhões
de desempregados na região Metropolitana: 1,96 milhão.
Em agosto de 1996, depois
de anunciar em Paris que o desemprego de Pindorama não era coisa
tão dramática (estava em 15%), FFHH foi jantar na casa de
pasto para grã-finos Lasserre, onde um filé com fritas sai
por 300 dólares. Tomou um bom vinho, safra 1991. Qual? Só
podia ser Romanée Conti.
FFHH foi um viajante
cauteloso. Recusou-se a trocar o avião da Presidência. Com
o desemprego encostando nos 20%, Lula não só decidiu importar
um Airbus por 56,7 milhões de dólares, como rebarbou a possibilidade
de encomendar o novo modelo da Embraer, que pode sair por 30 milhões
de dólares. Trata-se do ERJ 190, concebido para concorrer com o
Airbus. |
Na
montagem, Lula, a pirâmide, o Taj, o Airbus e o 190
|
Os reis Alberto e Paula
da Bélgica voam num avião ERJ 145 comprado em 2001 à
Embraer por 20 milhões de dólares. A Embraer emprega 13 mil
brasileiros, toma dinheiro emprestado no BNDES (4,15 bilhões de
dólares entre 1995 e 2003) e quer vender o seu modelo aos companheiros
do Planalto. Em termos de mão-de-obra, se Lula comprasse o avião
nacional, daria empregos diretos e indiretos a umas 400 pessoas durante
seis meses. (Do engenheiro da Embraer ao caixa do McDonald'' s de São
José dos Campos.) Se elas forem somadas aos trabalhadores que fazem
suas cigarrilhas holandesas (Café Crème) e os roupões
de algodão egípcio que licitou, deve-se temer que o presidente
adquira obsessão pela criação de empregos no exterior.
A Embraer lança o
ERJ 190 no próximo dia 9. Lula disse que vai à festa. Boa
oportunidade para o companheiro se perguntar por que alguém deve
comprar esse avião, se o presidente do Brasil prefere um Airbus
importado e mais caro.
A ekipenômica
superou a escravidão
Na
montagem, Palocci e dois maus investimentos
Por
conta da proximidade dos festejos do 11O aniversário do predomínio
da ekipekonômica sobre os demais ramos da administração,
aqui vai um bom caso para que se meça a ruína que impuseram
ao Brasil. O livro 'O Rio de Janeiro setecentista', de Nireu Cavalcanti,
conta o seguinte:
Em 1787, o escravo Felipe
servia a Custódio Martins Ribeiro e queria comprar a sua liberdade,
estipulada em 256 mil réis.
Esse dinheiro equivalia à
metade do preço de uma casa térrea num bairro modesto. Custódio
não quis libertá-lo e Felipe recorreu à rainha dona
Maria. Sustentou que rendia ao seu dono entre 28 e 38 mil réis anuais.
O escravo dava um retorno bruto de 11% a 15% sobre o capital investido.
Custódio não o alforriava porque a aplicação
dos 256 mil réis renderia apenas 5% (12.800 réis).
Custódio teve a falta
de sorte de viver no reinado da Rainha Louca. No reinado do companheiro
(dele) Lula podia ter se livrado de Felipe e de todos os encargos escravistas,
tais como seguro-saúde e amparo na velhice.
Entregando seu capital à
ekipekonômica em 1994, ao longo dos últimos dez anos Custódio
teria faturado uma renda real média de 16,2%.
No primeiro ano de Lula,
o capital investido em Felipe teve um rendimento real de 12,8%.
Os juros da ekipekonômica
rendem mais que um escravo de 29 anos e dão para os felizes maganos
a tranqüilidade de um retorno sem custos de manutenção
nem aborrecimentos políticos. Negros como Felipe acabavam reclamando
à rainha.
De
novo: vão leiloar a matemática
O ministro da Ciência
e Tecnologia, Eduardo Campos, já tem uma proposta para sua agenda
na tarde do dia 12 de fevereiro. Poderá abrilhantar a cerimônia
de leilão público do prédio do Instituto
de Matemática Pura e Aplicada, no Rio. É provável
que encontre por lá a alma do professor Mário Henrique Simonsen,
que foi um dos mestres a trabalhar no edifício.
Por conta de um processo
de uma indenização trabalhista, iniciado em 1986 por oito
físicos e do costume de se cozinhar os direitos alheios, a Viúva
deve R$ 1,4 milhão. O edifício está avaliado em R$
10 milhões.
Numa demonstração
do que é a coordenação do governo do PT Federal, vale
lembrar que o prédio ia a leilão no dia 13 de novembro passado.
No dia 20, o presidente da República foi informado pelo ministro
da Ciência e Tecnologia de que ordenara 'a realização
de depósito judicial no Banco do Brasil'.
Cadê? Talvez o superávit
primário tenha comido.
Lenda
do mercado
É lorota essa história,
segundo a qual o Banco Central não baixa os juros porque teme a
inflação. O Brasil não paga os juros reais mais altos
do mundo porque isso é necessário para segurar a inflação.
O governor Henrique Meirelles sustenta os gatos gordos porque, do contrário,
a banca tira o seu dinheiro de Pindorama.
A renda da patuléia
declina desde 1998 . Numa economia estagnada, juro alto não é
remédio estabilizador. É um dinheiro que se confisca ao andar
de baixo para adoçar a vida do andar de cima.
Presa
na Cúria
Aconteceu uma coisa estranha
com a substituição de dom Aloísio Lorscheider na Arquidiocese
de Aparecida. Desde 1999, quando ele completou 75 anos, o Papa tinha a
sua carta de renúncia na gaveta. Às vezes, o pedido é
aceito na hora, como aconteceu com o cardeal Arns, de São Paulo.
Às vezes fica anos sem resposta, como sucedeu ao cardeal Sales,
do Rio de Janeiro. Em todos os casos, quando o Papa resolve aceitar a renúncia,
deixa passar um pouco de tempo até anunciar a escolha do substituto.
O tempo necessário para que as forças terrenas se mexam e
o Pontífice estude o quadro.
O que sucedeu com a substituição
de Lorscheider indica que a Cúria Romana tem alguma pressa. E também
que o Papa afastou-se dessas questões.
| Dirceu
manda
O comissário José
Dirceu disse o seguinte ao repórter Lourival Sant'Anna:
'Se você olhar o que
o parlamento brasileiro aprovou em 2003 e olhar os do mundo inteiro - eu
mandei o presidente José Sarney fazer esse estudo comparativo -
você cai de costas.'
Dirceu parece convencido
de que manda em Sarney, mas aí está uma das muitas lições
que o comissário ainda não aprendeu.
Quando Dirceu achava que
Sarney era seu adversário político, houve uma reunião
de todas as pessoas que, em algum momento de suas vidas, acharam que mandavam
em Sarney. Resultou no maior encontro de otários já ocorrido
neste e noutros mundos.
Sopa
do Saddam
Documentos liberados no Iraque
mostraram que a tirania de Saddam Hussein passou 4,5 milhões de
barris de petróleo ao MR-8 para vendê-los no mercado internacional.
A operação durou alguns anos e foi encerrada em 2001. A venda
do petróleo de Saddam pode ter rendido 90 milhões de dólares
e uma comissão, por baixo, de 500 mil dólares.
É muito difícil
que exista algum registro desse ervanário na contabilidade da Viúva.
Felizmente, os arquivos iraquianos poderão trazer mais novidades
mostrando as tenebrosas transações de políticos, empresários
e governantes de Brasília com Saddam Hussein.
Tarso
Genro passou pelo século XIX
O ministro da Educação,
Tarso Genro, deu a sua opinião sobre o sistema de cotas para beneficiar
os estudantes negros que, tendo sido aprovados nos exames vestibulares,
não conseguiram se classificar:
'Sou totalmente favorável,
mas elas são totalmente insuficientes.'
'Um grande processo de inclusão
é que vai resolver em definitivo essa questão.'
Não disse nada de
novo. Em maio de 1870, o deputado Rodrigo da Silva dizia o seguinte do
projeto da Lei do Ventre Livre:
'Não teremos necessidade,
por exemplo, de auxiliar estabelecimentos de educação que
recebam as crianças escravas libertas pelos seus senhores ou pelas
sociedades humanitárias? Não será isso um embaraço
para o aumento das libertações a falta de estabelecimentos
desta ordem?'.
A idéia, segundo a
qual a medida A é insuficiente, pois a patuléia precisa da
medida B, muito mais abrangente, faz parte do patrimônio retórico
do andar de cima. Destina-se a deixar o andar de baixo sem A nem B.
Por falar em cotas, o primeiro-ministro
Ariel Sharon determinou que toda empresa estatal israelense tenha pelo
menos um representante da comunidade árabe em sua diretoria.
Até 2007, o
serviço público e as estatais de Israel deverão adotar
uma cota de 8% para árabes, drusos e beduínos. Depois, a
cota subirá para 15%.
Se o doutor Tarso Genro não
se cuidar, presidirá as festividades comemorativas da ocasião
em que a percentagem de árabes no Estado judeu terá superado
a de negros nas universidades públicas brasileiras. |
E N T
R E V I S T A
Leonarda Musumeci
(52 anos, professora do Instituto
de Economia da UFRJ e co-autora - com Julita Lemgruber e Ignacio Cano -
do livro 'Quem vigia os vigias - Um estudo sobre o controle externo das
polícias no Brasil'.)
Seu livro traz uma pesquisa
sobre o funcionamento das ouvidorias de Polícia em São Paulo,
Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Pará. No balanço,
resulta que as polícias não se deixam controlar. Ainda assim,
vocês acham que se deve manter o otimismo. Por quê?
A simples existência
das ouvidorias é um grande avanço. Já há nove
no Brasil e elas foram percebidas pela sociedade. Os cidadãos começam
a procurá-las. Em São Paulo, por exemplo, entre 1998 e 2001,
chegaram à ouvidoria 12.500 denúncias. É verdade que
temos casos de instituições esvaziadas, como aconteceu no
Rio de Janeiro em 2000 e em São Paulo mais recentemente. Mesmo nesses
casos, cria-se pelo menos o constrangimento. As ouvidorias precisam ser
fortalecidas, de forma a criar um mecanismo alternativo de controle. Hoje,
uma denúncia que envolve policiais de um batalhão ou de uma
delegacia é investigada pelo próprio batalhão ou pela
delegacia onde estão os denunciados. A pesquisa que fizemos no Centro
de Estudos de Segurança e Cidadania da Cândido Mendes comparou
experiências internacionais e mostrou que as ouvidorias não
são utopia de malucos. Tome o exemplo da ousadia da África
do Sul, que dá grande uma independência e autoridade para
os seus sistemas de controle.
Em termos de malfeitorias
que pedem mais controles da sociedade sobre as polícias, o que sua
pesquisa revelou?
Para os cariocas, o
maior problema é a corrupção. Em São Paulo
e no Pará, o item que lidera as reclamações é
a violência. Em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, é o abuso
de autoridade. Tomando-se um índice baseado na relação
entre o número de denúncias e o tamanho das corporações,
vê-se que em São Paulo há mais queixas contra oficiais
da PM e delegados da Polícia Civil do que contra praças e
investigadores. Quando se vai ver a estatística do resultado das
investigações, as punições recaem mais sobre
investigadores e praças (65%) e menos sobre oficiais e delegados
(45%). A PM pune mais que a Polícia Civil. No Pará, de cada
duas denúncias mandadas pelo ouvidor à Corregedoria da PM,
30% resultaram em punição. Para a Polícia Civil a
percentagem fica em 12%. O fato de a sociedade saber disso já é
um avanço. O menor índice de punições veio
do Rio de Janeiro (7,4%). O maior, com números de 1998 a 2001, de
São Paulo (26%).
Cite três providências
capazes de melhorar o controle da sociedade sobre as polícias.
Os controles aperfeiçoam-se
quando as ouvidorias ganham independência e autoridade.
1) As ouvidorias devem ter
autonomia orçamentária e de pessoal. Devem ficar livres da
asfixia por falta de recursos, como disse um ouvidor durante a pesquisa.
2) O ouvidor deve ter independência
para obter informações. Em Los Angeles, ele tem a senha da
rede de computadores e do banco de dados da Polícia.
3) A ouvidoria deve ter poder
para investigar. Na Inglaterra, se há uma denúncia de má
conduta numa cidade, o ouvidor tem poder para determinar a ida de uma equipe
de investigadores de outra região. |
Correio
do Povo
Porto Alegre
- RS - Brasil
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