Juremir Machado da Silva


O ORÁCULO E A VELHINHA


Guma, o oráculo de Palomas, também tem poderes mediúnicos. Ainda que tenha medo de fantasmas. No domingo passado, ele estava cevando um mate com algumas ervas do campo, que cultiva em sua horta de plantas especiais, quando ficou com a vista mais turva que o olhar do Lulla procurando explicações para enrolar a coréia. Foi aí que viu algo estranho.

Primeiro achou que fosse um lobisomem. Mas lobisomem em Palomas não usa saia. Depois, pensou que fosse a Rita Lee. Mas ela só estréia na metade de setembro. Por fim, acreditou que era a juíza e deputada Denise Frossard. Logo viu, pelo sotaque, que não, era gente daqui.

O certo é que a aparição assustou o oráculo. Ainda mais que tinha cheiro de flores e vinha com uma coroa no pescoço, coisa de morto recente. Não deve ter sido bem assim como estou contando, pois não conheço os rituais espíritas e devo estar deturpando um pouco o relato sempre objetivo do Olho Grande. Mas a verdade veríssima é que Guma recebeu a visita de um morto, de uma alma do outro mundo, de alguém que lhe pedia ajuda. O oráculo espremeu os olhos, por trás suas lentes Varilux, e viu que se tratava de uma figura bastante familiar. Alguém que, contudo, não tinha dormido nos seus pelegos. Uma mulher de família. 'Mas tchê, eu te conheço de algum lugar', exclamou.

Chorosa e humilde a aparição apresentou-se: 'Bah, todo mundo me conhece, Seu. Eu sou a Velhinha de Taubaté'. Guma deu salto e derrubou o banco de três pernas por cima do cachorro, que soltou uma latido e safou-se dali. 'Sai pra lá, assombração. Fantasma comigo só o *espírito que anda*. De velha já me basta a minha vida.'

'Preciso fazer uma denúncia', choramingou a senhora.

'Mas Dona Taubaté, a senhora mal morreu de morte morrida e já anda reclamando da vida, quer dizer da morte.'

A Velhinha soltou a bomba com uma lágrima furtiva escorrendo por entre os sulcos das rugas: 'Não morri de morte natural como se noticiou, Seu. Fui assassinada'.

'A la pucha, agora a coisa ficou osca de vez. Quem ia querer assassinar uma carne de pescoço como a senhora?'

'Meu próprio criador, meu pai, o homem que me deu a vida', disse a Velhinha, caindo num choro convulsivo.

'Isso que a senhora está dizendo é mais grave que denúncia do Roberto Jefferson. Me conte como foi isso.'

'Ele me matou com as próprias mãos. Levantou da poltrona, caminhou para a mesa de trabalho, sentou-se na frente do computador, pensou um pouco, espichou os dedos frios e, com meia dúzia de toques implacáveis e certeiros, me sufocou. Fui me apagando, apagando. Morri esganada.'

'A la fresca. Não foi isso que saiu nos jornais.'

'Mas bah! Claro que não. Ele inventou uma história. Até que ficou boa. Me matou e foi ao enterro chorar.'

'A coisa está enroscada. Mas diga, Dona, por quê?'

'Porque eu queria falar o que sentia, eu queria dizer tudo, tudo mesmo, eu não conseguia mais me controlar...'

'Bueno, mas o que a senhora tinha pra dizer assim?'

'Eu queria debochar do Lula, fingir que acreditava no presidente quando ele dizia com a maior cara-de-pau que não sabia de nada sobre o valerioduto e outras cositas mas. Queria fazer como fazia com os outros, até com o FHC. Fazer piadas sobre a lama petista. Acordava cheia de idéias, uma piada melhor do que a outra, só coisa fina. Ele me mandava ficar quieta. Dizia que eu era criatura, não o criador.'

'Mas isso, Dona, é crime político. Vale uma CPI.'

'Ele me matou para eu não ridicularizar o PT. Não queria que eu fizesse o jogo das elites. Cheguei a pedir conselho ao Paulo Caruso. Mas ele é chapa branca e me aconselhou a ter paciência com Lula. Pelo amor de Deus, seu Guma, me ajude, eu fui assassinada. O Brasil precisa saber disso. Um crime não pode ficar impune. Depois do Celso Daniel, sou a primeira vítima fatal do esquemão do PT.'

'A senhora tem certeza do que está dizendo, Dona?'

'Por que eu ia mentir? O Roberto Jefferson e o José Dirceu vão ser cassados. Eu fui assassinada. Não gosto do senhor. Só estou lhe contando isso por saber que vai espalhar para todo mundo. Meu pai, o homem que me tornou célebre e admirada, preferiu me matar covardemente para não me ouvir falar mal do PT.'

'Buenaço, Dona Taubaté, o que a senhora espera mesmo que aconteça depois dessa sua aparição inesperada?'

'Quero justiça. Uma mulher não aceita ser trocada nem por um partido. O criminoso precisa depor nas CPIs e ser indiciado por crime doloso.'

Guma sentencia: 'Encrespou'.


E-mail: juremir@correiodopovo.com.br
Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil