CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 22 DE JULHO DE 2009
 
Núcleo de holandeses no Alto Jacuí
 
SIMONE RAMOS
simoneramos@correiodopovo.com.br

Considerada berço da imigração holandesa e a única colônia dessa etnia no Rio Grande do Sul, a cidade de Não-Me-Toque, na região do Alto Jacuí, busca preservar os costumes e as tradições herdadas de seus antepassados, que escolheram o município como lar. O primeiro grupo de holandeses veio para o Brasil em 1911 e se instalou nos Campos Gerais do Paraná, formando, depois, a comunidade de Carambeí (PR). Foram eles que abriram caminho a um número maior de imigrantes, que vieram depois da 2ª Guerra Mundial, a partir do final da década de 1940. A saída do país de origem foi motivada pelos traumas e rigores gerados pela luta.
Orientados pelo governo holandês a escolherem áreas de clima temperado, em função da agricultura, e na procura de melhores condições de vida, os imigrantes partiram para o Brasil atrás de novas oportunidades e de paz para trabalhar e progredir com suas famílias. Neste período, a bordo de um navio, os holandeses, a maioria agricultores, operários de indústrias mecânicas e comerciantes, desembarcaram em São Paulo. No início, fincaram suas raízes na cidade de Holambra.
Apesar das dificuldades enfrentadas, devido às diferenças culturais, à língua e à falta de estrutura para o trabalho, os holandeses iniciaram a organização de suas comunidades em algumas cidades brasileiras. Em Não-Me-Toque, o frei Roberto Gense foi o primeiro holandês a integrar a comunidade. Ele chegou em agosto de 1946. No mês seguinte, teve a companhia do compatriota frei Marcolino Melis, proveniente de Belo Horizonte, um dos maiores incentivadores da vinda de imigrantes para o município, o que começou a acontecer em janeiro de 1949. Na época, a região era habitada, predominantemente, por descendentes de alemães e de italianos.
Para marcar o centenário da imigração holandesa no Brasil, está sendo realizado um movimento nacional para instituir o ano de 2011 como Ano Brasil-Holanda/Centenário da Imigração e Colonização Holandesa no Brasil. As tratativas já estão em andamento e, segundo a vice-prefeita de Não-Me-Toque, Teodora Berta Lütkemeyer, a possibilidade de o projeto ser concretizado é bastante viável. 'As cidades que possuem colônias de imigrantes holandeses estão trabalhando no sentido de viabilizar essa comemoração. Buscamos apoio nos âmbitos estadual e federal para a aprovação do projeto', revelou. A iniciativa também pretende contar com o apoio de empresas holandesas que atuam em todo o território nacional, promovendo investimentos e intercâmbio cultural com as cidades envolvidas.
De acordo com a vice-prefeita, a proposta é envolver as comunidades em uma programação nacional e também as colônias de cada município. 'Queremos marcar de forma destacada essa data, valorizando aquelas pessoas que adotaram municípios brasileiros como seus verdadeiros lares e que, de alguma forma, contribuíram para o desenvolvimento de nosso país', disse Teodora. A ideia é ressaltar a presença do povo holandês em cada município, a exemplo do que foi feito em Não-Me-Toque, em 1999, quando houve a inauguração de um monumento ao imigrante na praça Dr. Otto Schmiedt. O ato integrou a programação do cinquentenário da imigração holandesa na cidade. O monumento retrata o arado e a cruz, como forma de simbolizar o trabalho e a religião do povo que, atualmente, está representado por um grupo de 350 pessoas em Não-Me-Toque, no universo de 15,9 mil habitantes.
 
SIMONE RAMOS / ESPECIAL / CP

Município de Não-Me-Toque é a única colônia da etnia no Rio Grande do Sul. Detalhes nas casas remetem à terra natal dos imigrantes