CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, SÁBADO, 12 DE FEVEREIRO DE 2000
O som dos escravos volta às ruas de Pelotas na festa do Projeto Cabobu

01O9SOM9.jpgDjalma Corrêa é uma das atrações
 
 

Alvaro Guimarães/correspondente em Pelotas

Idealizado há mais de 20 anos pelo músico e compositor pelotense Giba Giba, o projeto Cabobu finalmente ganhou as ruas de Pelotas. Com o objetivo principal de resgatar o mais antigo instrumento de percussão do Rio Grande do Sul - o sopapo -, criado pelos escravos que trabalhavam nas charqueadas de Pelotas e Rio Grande, o projeto conseguiu também semear um sentimento de resgate da história e da auto-estima da comunidade negra da região.

Durante os seis meses que antecederam o lançamento do Cabobu - que, segundo seu idealizador, nada mais é do que 'o resgate histórico do único instrumento de percussão legitimamente gaúcho e de toda a cultura que ele simboliza' -, toda a comunidade negra da região foi chamada para integrar-se ao projeto, cujo nome nada mais é do que a união das três primeiras sílabas dos nomes dos mais conceituados tocadores de sopapo de Pelotas, Cacaio, Boto e Bucha, todos já falecidos, que, durante anos, defenderam as cores das três mais tradicionais escolas de samba da cidade (Academia do Samba, Estação Primeira do Areal e General Telles) e promulgaram a arte de tocar o sopapo.

Ao todo, mais de 1,5 mil pessoas se envolveram diretamente no projeto. Isso fez com que do nada surgissem exímios tocadores de sopapo e talentosos bailarinos de dança afro, vindos das comunidades da cidade e cuidadosamente 'lapidados' por Neives Batista, mais conhecido como Mestre Batista, e pelas professoras de dança Maritza Freitas e Raquel Silveira. 'Este é o espírito do Cabobu: integrar as comunidades em torno do que temos de mais valioso: nossas cultura e raízes', resume o coordenador local do projeto, Gilberto Pinheiro.

Durante os ensaios, realizados no ginásio do Colégio Municipal Pelotense, foi possível notar a força do projeto na comunidade negra local. Jovens, velhos e até crianças entregaram-se, quase que literalmente, de corpo e alma ao Cabobu. Soando em uníssono, os 40 sopapos ditam o ritmo dos 50 bailarinos, que entregam-se a melodia criada por Giba Giba. O efeito no público é devastador, deixando à mostra sorrisos orgulhosos e emocionados.

A partir deste domingo, quando será encerrada a grande festa, na praia do Laranjal, terá início a segunda parte do projeto: realizar, em Pelotas, o maior evento que o Estado já viu, no dia 20 de novembro, quando se comemora o Dia da Consciência Negra.
 
 


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