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  • 25/08/2018
  • 10:04
  • Atualização: 10:23

Venezuelanos vivem escondidos em Pacaraima após "toque de recolher"

Refugiados enfrentam dificuldades para trabalhar e estão proibidos de dormir na rua

Voltar para a Venezuela não é uma opção para os refugiados | Foto: Mauro Pimentel / AFP / CP

Voltar para a Venezuela não é uma opção para os refugiados | Foto: Mauro Pimentel / AFP / CP

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  • R7

Dezenas de refugiados venezuelanos passaram a viver "escondidos" em Pacaraima (RR), no extremo norte do Brasil, desde que um grupo de brasileiros atacou migrantes há uma semana, ateando fogo a seus pertences e expulsando 1,2 mil migrantes da cidade, como retaliação a agressão e roubo de um comerciante local.

Diversos imigrantes relataram à reportagem do R7 nesta sexta-feira que, ao longo da semana, caravanas noturnas de carros e motos circularam pela cidade espalhando ameaças e conferindo se há refugiados aglomerados dormindo na rua. Durante o dia, eles reclamam que fiscalizações da prefeitura impedem que trabalhem como ambulantes, única forma de comércio que os venezuelanos têm para fazer dinheiro rapidamente. “Por que nos dão refúgio se não nos querem aqui?”, pergunta Jenire León, de 30 anos, que há três meses deixou para trás Maturín, a 800 km de distância, e a filha de dois anos para recomeçar a vida no Brasil e enviar ajuda à família.

No sábado passado, dia do ataque, Jenire e o irmão, José, tiveram ajuda de um brasileiro para guardar suas bagagens e fugir das agressões “a paus e pedras”. “Eu alertava que a xenofobia era um monstro que a qualquer momento ia atacar, e atacou. O vulcão abriu sua boca e começou a lançar suas lavas de ira, rejeição e raiva. Infelizmente foi dirigida a pessoas inocentes, que estavam na rua com suas crianças, passando fome”, descreve o religioso Jesus Lopez de Bobadilla, espanhol que mora há nove anos em Pacaraima e se tornou o principal acolhedor de refugiados na cidade.  “Não nos querem no meio da rua, se não ameaçam a gente”, conta José León, de 28 anos.

Apesar da violência, das ameaças e da falta de oportunidades, voltar para a Venezuela não é uma opção para os refugiados, mesmo que seja preciso viver às sombras em Pacaraima, até que se encontre uma chance para ir a “Manaus ou São Paulo”.

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Operação sobrevivência

Após três dias dormindo do outro lado da fronteira e vindo para Pacaraima de manhã para trabalhar como ambulantes, Jenire e o irmão alugaram uma casa de 15 metros quadrados, que dividem com mais sete pessoas, entre primos e conhecidos, onde montaram uma verdadeira operação “sobrevivência” para conseguir vender café, tortas, pães, isqueiros e cigarros. Veja em imagens como é a casa dos nove venezuelanos.

Com um cômodo e um banheiro, separados por uma cortina, a casa tem apenas uma cama de casal, dois colchões no chão e cobertores fazendo as vezes de colchonete. O fogão está inativo por falta de um botijão de gás, então eles preparam o café e as tortas em um fogão à lenha improvisado no quintal, com uma grelha sobre uma lata, que começa a arder antes das 4h da madrugada. Os demais produtos eles compram em Santa Elena de Uairén, na Venezuela.

Para escapar da fiscalização, o grupo se divide em três turnos. Uma parte sai cedo de casa para vender os alimentos na fronteira, onde novos refugiados chegam todos os dias — cerca de 600 venezuelanos cruzam a linha diariamente, segundo cálculos do Exército brasileiros, embora a maioria venha apenas para comprar mantimentos.

O primeiro turno vai até as 8h, quando a fiscalização sai às ruas para coibir os ambulantes. Eles então voltam para casa e se preparam para a jornada seguinte, entre 12h e 14h, quando os fiscais estão em suas casas almoçando. “Eles não incomodam os brasileiros que trabalham como ambulantes”, diz Patricia Benavides, de 21 anos, que também vive com o irmão no grupo de nove venezuelanos.

O R7 telefonou na noite desta sexta-feira para o prefeito de Pacaraima, Juliano Torquato dos Santos, em dois números de celular, para questionar o trabalho da fiscalização da prefeitura, mas não conseguimos contato até a publicação desta reportagem. O terceiro turno de trabalho começa às 18h, quando os fiscais já não estão mais trabalhando, e vai até por volta das 20h, quando as caravanas noturnas de carros e motos saem às ruas.

“Quinta-feira foi assim. A Polícia Militar até nos ajudou. Eles vieram antes, nos avisaram que a caravana estava vindo e falaram pra gente ir embora pra não correr risco de sermos agredidos”, conta Benavides.

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Eles não sabem dizer quanto faturam por dia porque as vendas são muito variadas. Na sexta, o grupo vendeu R$ 10 em café no turno do almoço (50 centavos cada copinho) e R$ 15 com os pedaços de bolo. O aluguel da casa sai por R$ 300 por mês, fora água e luz.

Outro grupo de nove venezuelanos se esconde nos arredores de Pacaraima, no meio da mata, estrategicamente próximos da fronteira com a Venezuela. No dia dos ataques na semana passada, eles juntaram seus pertences às pressas e correram para além da linha de fronteira, onde se sentiram protegidos.

Zuri Torres, de 42 anos, deixou Puerto la Cruz há dois meses e desde então vive debaixo de uma lona estendida feito casa. Dividindo espaço com os poucos pertences, ela dorme sobre papelões junto do marido, cinco filhos, a cunhada e um sobrinho. Conseguem água na casa de um brasileiro e preparam a comida também em um fogão à lenha improvisado. “Parecemos delinquentes mesmo sem fazer nada, por isso temos que estar escondidos”, conta Zuri. “Fiquei travada aqui sem poder ir a nenhum lado”.

Ela quer deixar a fronteira e ir até Manaus (AM), onde imagina que a vida possa ser melhor do que em Boa Vista, mas também diz viver com medo e sem condições de trabalhar em Pacaraima. "O maior problema é a segurança. A gente até consegue 2 reais e um pouco de arroz, mas não posso caminhar na rua. Como vou pagar a passagem de R$ 176 até Manaus?"

O sonho de ir além

Há dois meses, o centro pastoral de Pacaraima contou exatas 452 famílias vivendo nas ruas, espalhadas por 11 pontos da cidade. O total era de 1.660 venezuelanos, sendo 296 crianças de 0 a 10 anos. No auge da crise, Bobadilla chegou a servir 1,6 cafés da manhã por dia no centro de imigrantes — café com leite com pão. A quantidade agora caiu pela metade.

Quem faz a contagem dos refugiados é Maria Celeste Vasquez, venezuelana de 34 anos que mora há dois anos em Pacaraima e trabalha no centro de imigrantes. Ela não tem ideia de quantos estão hoje na cidade em situação de rua e desistiu, por enquanto, de atualizar os números.