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  • 30/08/2018
  • 14:38
  • Atualização: 14:45

Livro exibido por Bolsonaro na TV nunca foi comprado pelo MEC

Em postagens nas redes sociais, obra tem sido relacionada ao que ficou conhecido como "kit gay"

Livro exibido por Bolsonaro na TV nunca foi comprado pelo MEC | Foto: Comprova / Reprodução / CP

Livro exibido por Bolsonaro na TV nunca foi comprado pelo MEC | Foto: Comprova / Reprodução / CP

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Ao longo dessa quarta-feira, uma série de postagens circulou nas redes sociais relacionando o livro "Aparelho sexual e Cia" ao que ficou conhecido como “kit gay”, conteúdos de combate à homofobia para serem divulgados nas escolas públicas brasileiras. O livro, porém, nunca fez parte de nenhum “kit gay” nem foi comprado pelo MEC para ser distribuído nas escolas públicas.

A relação foi impulsionada pela entrevista do candidato à presidência Jair Bolsonaro concedida ao "Jornal Nacional" na noite de terça-feira. A publicação apresentada pelo presidenciável na televisão e nas redes sociais é a tradução do livro francês “Aparelho sexual e cia”, lançado no Brasil em 2007 pelo selo juvenil da Companhia das Letras.

A obra utiliza o conhecido protagonista da série em quadrinhos “Titeuf”, de origem suíça, e seu conteúdo está destinado à orientação sexual para crianças e adolescentes. A assessoria de imprensa da editora confirmou que o interior de um exemplar mostrado por Bolsonaro no mesmo dia da entrevista, em uma publicação no Facebook onde afirma que o mesmo é ensinado nas escolas, realmente faz parte do livro.

Segundo a assessoria de imprensa da editora brasileira, o livro “nunca foi comprado pelo MEC, como tampouco fez parte de nenhum suposto 'kit gay'. O Ministério da Cultura comprou 28 exemplares em 2011, destinados a bibliotecas públicas”. Também afirmou que o livro “conta ainda com uma seção chamada ‘Fique esperto’, que alerta os adolescentes para situações de abuso, explica o que é pedofilia — mostrando como tal ato é crime —, o que é incesto e até fornece o contato do Disque-denúncia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos”. A Companhia das letras informou também que a indicação do livro, quando em catálogo, era para o 6º, 7º, 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, ou seja, para alunos de 11 a 15 anos.

A obra foi publicada em 10 línguas e vendeu mais de 1,5 milhões de exemplares, foi transformada em uma exposição apresentada por duas vezes na Cité des Sciences et de l’Industrie em Paris.

A informação de que o livro da escritora francesa Hélène Bruller seria distribuído em escolas públicas começou a ser difundida por Bolsonaro no dia 10 de janeiro de 2016 através de um vídeo que publicou no Facebook. Dois dias depois, o ministério da Educação e Ciência (MEC) emitiu um comunicado onde afirma que “não produziu e nem adquiriu ou distribuiu o livro ‘Aparelho Sexual e Cia’”. A instituição também declarou que “não há qualquer vinculação entre o ministério e o livro, já que a obra tampouco consta nos programas de distribuição de materiais didáticos levados a cabo pela pasta”.

O Movimento Brasil Livre (MBL) publicou no Twitter a falsa informação de que o candidato pelo PSL expôs o “Kit Gay” na entrevista organizada pela Rede Globo. Outros usuários disseminaram a informação de que crianças recebem a obra nas escolas. O Comprova não verificou se o livro foi distribuído em escolas particulares ou por secretarias estaduais de Educação.

Projeto Comprova

Esta checagem foi publicada pelo projeto Comprova. A verificação foi realizada por jornalistas de AFP e Nova Escola.

O projeto colaborativo Comprova reúne 24 organizações brasileiras de mídia com o objetivo de combater desinformação e conteúdos enganosos na internet durante a campanha eleitoral. Denúncias de conteúdos suspeitos ou falsos relacionados às eleições pelo número de WhatsApp (11) 97795-0022.