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  • 18/08/2018
  • 11:14
  • Atualização: 12:17

Cultivos históricos estão em declínio com expansão da soja

Produção de bergamota e pêssego volta a crescer nos últimos anos

Censo Agropecuário 2017 revela expansão de lavouras de soja no Estado | Foto: Gerson Pantaleão / CP Memória

Censo Agropecuário 2017 revela expansão de lavouras de soja no Estado | Foto: Gerson Pantaleão / CP Memória

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Presentes no dia a dia dos brasileiros, alimentos como o feijão, a cebola e a mandioca perderam espaço no campo, nas últimas duas décadas, devido à baixa rentabilidade e à escassez de mão de obra. A produção de bergamota, companhia dos gaúchos, especialmente durante o inverno, já foi maior do que a atual, mas voltou a crescer em anos recentes, após um declínio na década passada. O pêssego, que vem perdendo área, registrou aumento de produção e continua dando sabor aos doces finos de Pelotas, município com a maior produção do Estado.

Vinculado predominantemente à agricultura familiar, o cultivo do feijão tem encolhido a cada safra. Em Canguçu – que tem o maior número de minifúndios do país –, a produção do feijão preto caiu pela metade entre 2006 e 2017, passando de 2,2 mil toneladas para 1,1 mil toneladas, segundo o IBGE. A área dedicada ao cultivo, que era de 5,4 mil hectares, recuou para 2,9 mil.

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O secretário do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Canguçu, Delair Radtke, afirma que há quatro anos a área de soja no município alcançava 18 mil hectares. Na última safra, ultrapassou 40 mil hectares. “O preço não ajudou, então o pessoal migrou do feijão para a soja”, justifica. Na última safra, a cotação da saca ficou entre R$ 150 e R$ 170, enquanto o dirigente calcula que o valor justo teria que ser 100% superior. Na avaliação de Radtke, faltam políticas públicas e compras governamentais que possam dar ao produtor a certeza da comercialização.

Os dados preliminares do Censo Agropecuário 2017, divulgados há duas semanas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atestaram a expansão das lavouras de soja no Rio Grande do Sul e também revelaram o panorama de alguns cultivos tradicionais no Estado, menos atrativos financeiramente, mas que desempenham papel importante nas economias locais.

O caso da mandioca é um dos mais significativos. Segundo o IBGE, em 1985 a produção era de 1,2 milhão de toneladas por ano. No último Censo, caiu para um terço deste volume. Enquanto isso, a lavoura de soja – principal produto agrícola do Rio Grande do Sul – , que ocupava 3,6 milhões de hectares há 23 anos, chegou a cair para 2,4 milhões de hectares na década de 1990, mas deu um salto nos últimos 11 anos até chegar aos atuais 5,1 milhões de hectares, com recordes sucessivos de produção.

Uma vez que muitas dessas culturas contam com maior necessidade de mão de obra e são desenvolvidas em pequenas propriedades, a diminuição da população rural é um dos fatores que explicam o declínio de alguns produtos. Por outro lado, o crescimento da produtividade de outros cultivos, com redução de área, demonstra uma profissionalização do produtor, como no caso do pêssego. “O que se percebe nitidamente nestas culturas perenes é uma especialização do produtor. Aqueles que estão ficando, estão qualificando a produtividade”, explica o agrônomo Alencar Rugeri, assistente técnico estadual em culturas da Emater.

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O declínio de algumas culturas preocupa os agrônomos não apenas pela tendência de queda na diversificação. “Em termos de questões econômicas, colocar todos os ovos numa cesta só aumenta o risco”, complementa Rugeri. Apesar do futuro incerto para alguns produtos, Rugeri acredita que haja potencial para a retomada de culturas como a da batata-doce, que conta com boa demanda por ser vista como opção saudável para o cardápio. Também confia no avanço da cana-de-açúcar, que será tema de reunião com produtores no dia 28 deste mês, durante a Expointer. “São culturas que, em função do que está sendo oferecido em termos técnicos e agronômicos, estamos com a possibilidade de resgatar”, confia.

Entre as culturas que apresentaram crescimento, chama a atenção a presença das frutas, como a uva e a maçã. O pesquisador João Carlos Costa Gomes, chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Clima Temperado, de Pelotas, destaca que estes produtos são cultivados em áreas de topografia acidentada, que não são aptas à mecanização, o que dificulta a entrada da soja, por exemplo. Além disso, há o crescimento da demanda por sucos, puxado por consumidores que buscam hábitos saudáveis. Outro exemplo de expansão é a produção de azeitona, que soma 444 toneladas no Rio Grande do Sul.

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Em 2006, o cultivo sequer havia sido incluído no Censo. “É uma cultura com valor agregado muito maior, que vem se consolidando nos últimos anos, basicamente com empresários de grande e médio porte”, observa Gomes. Um dos cultivos que é alvo de pesquisas da Embrapa, mas que compõem uma economia praticamente “invisível”, é o da batata-doce, que não consta no Censo 2017. Cinco variedades foram lançadas nos últimos anos. Uma delas, a BRS Amelia, teve 210 mil mudas produzidas entre 2011 e 2016. Diferente do que ocorre com a soja, estas culturas são impactadas pela ausência de garantias de comercialização e estabilidade nos preços.


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