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Karim Ainouz apresentou "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" em Cannes

Brasileiro Karim Ainouz ganha prêmio Um Certo Olhar em Cannes

Diretor venceu o segundo prêmio mais importante com filme "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão"

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O diretor brasileiro Karim Ainouz ganhou, nesta sexta-feira, o prêmio Um Certo Olhar, o segundo mais importante do Festival de Cannes, com seu "melodrama tropical", "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão". Baseado no romance homônimo de Martha Batalha, o filme acompanha Eurídice e Guida, almas gêmeas, mas que o destino separa e leva para caminhos muito diferentes. 

Ao receber o prêmio, Ainouz dedicou-o às suas protagonistas, Carol Duarte e Julia Stockler, bem como "a todas as mulheres do mundo". "Vivemos um momento de muita intolerância" no Brasil, denunciou o cineasta.

Em seu terceiro longa-metragem exibido em Cannes, Ainouz retoma a temática que mais o comove: as mulheres, uma forma de homenagear sua mãe, que o criou sozinha, e sua avó, que viveu até os 108 anos, a quem dedicou seu primeiro trabalho. No Facebook, o cineasta comemorou a vitória. 

Karim é um dos grandes autores brasileiros de sua geração, com filmes como "O Céu de Suely" e o visceral "Praia do Futuro". E foi em no Festival de Cannes, há 17 anos, que ele estreou seu com "Madame Satã".

Agora foi a vez dele voltar com a história das irmãs Guida e Eurídice, que são cúmplices no afeto que têm uma pela outra, inseparáveis no dia a dia. O elenco ainda conta com nomes de Carol Duarte, Julia Stockler, Fernanda Montenegro e Gregório Duvivier, entre outros.

Voltando atrás 

As irmãs compartilham a frustração de não poderem se realizar e a enorme dor de viverem separadas no Rio. Assim, Eurídice, cujo sonho é ser pianista, luta por anos para ser admitida no conservatório, embora seu pai e seu marido não consigam entender por que uma mulher não quer ficar em casa e cuidar da família. 

Guida é atingida muito jovem por uma tragédia e precisa formar uma família menos convencional. "Minha mãe era solteira e quando pequeno não me dei conta de como foi duro para ela. Ao mesmo tempo, tinha a impressão de que as coisas tinham mudado nos últimos 30 anos para as mulheres, mas com o que está acontecendo politicamente no mundo e no Brasil, vejo que estamos andando para trás", disse o cineasta nessa segunda-feira, após exibir seu filme na mostra Um Certo Olhar. 

No Rio dos anos 1950 de Ainouz, uma mãe não pode sair do país com seu filho pequeno porque é necessária a autorização do pai. Uma jovem que ainda não quer ter filhos vive com medo de ser abandonada pelo marido. Outra mulher se cala quando o patriarca humilha sua filha. 

O filme é uma "denúncia do patriarcado e do prejuízo que pode causar", disse Ainouz. Mas também "quero evitar apresentar os personagens como vítimas e explorar suas possibilidades de resistência", acrescentou. 

Novelas como inspiração 

"Isso é o mais importante do cinema hoje em dia: mostrar que é preciso resistir e dar esperanças". Potente em sentimentos, o filme reforça visualmente seu aspecto melodramático com grande densidade de cores e uma atuação com mais cara de teatro.

Sua inspiração: as novelas brasileiras dos anos 1970. "Tenho lembranças maravilhosas daquelas novelas, de seus atores, que vinham, em sua maioria, do teatro. Mas até agora sentia certo pudor para retomar seu estilo. É preciso ser muito cuidadoso para não fazer um filme sem graça". 

Ainouz afirma ter perdido o medo de deixar os sentimentos aflorarem. "As novelas têm força de chegar a um grande público, e não é por acaso que gostam tanto delas no Brasil", resumiu.

O Festival de Cannes termina neste sábado quando anunciará do vencedor da Palma de Ouro. 


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