Casas noturnas resistem ao tempo e troca de gerações em Porto Alegre
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Casas noturnas resistem ao tempo e troca de gerações em Porto Alegre

Ocidente e Opinião abraçam diversidade musical e de tribos e somam mais de 35 anos de história

Por
Lou Cardoso

Ocidente completa 40 anos de atividade na noite gaúcha no próximo ano

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Chega o final de semana em Porto Alegre e muitos já começam a sexta-feira se questionando sobre qual será o melhor lugar para se divertir. A busca para algum lugar para poder desopilar nem sempre é fácil.

Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE), a capital gaúcha dispõe, no total, de 61 estabelecimentos com serviços noturnos com alvará ativo, sendo que destes, 52 são do tipo casas noturnas, quatro boates, quatro casas do estilo “bailão” e uma discoteca. Boa parte delas estão espalhadas pela cidade, mas entre o bairro Bom Fim e a Cidade Baixa existem dois pontos de referência histórica da noite boêmia. 

Prestes a completar 40 anos em 2020, o bar Ocidente nunca deixou de acolher os jovens (e não tão jovens) gaúchos. O velho casarão, que fica localizado na rua João Telles com a avenida Osvaldo Aranha, ganhou notoriedade ao longo do tempo por causa da sua resistência cultural em Porto Alegre. Inaugurado por seis sócios no dia 3 de dezembro de 1980, hoje o lugar continua sob comando de Fiapo Barth. Na época, recebeu o nome de Bar Show Seis Amigos Ltda., quando contou com apresentação espontânea de membros do grupo teatral Balaio de Gatos. 

Nomes fortes

Por muito tempo foi um berço undergroung de escritores, músicos e atores e, atualmente, é um dos pontos mais famosos da noite gaúcha. Tanto que até ganhou o título de patrimônio cultural de Porto Alegre em 2012. Por lá já passaram as mais diversas tribos e muita moda musical também foi lançada naquele sobrado do Bom Fim. Para Fiapo, o segredo para se manter em relevância é persistência. Para o jornalista e produtor de festas João Rosa, o Ocidente é um lugar antológico e vive o seu melhor momento. “O nome do Ocidente é muito forte. Muitas pessoas que não foram querem conhecer ou estão indo direto”, contou. 

Não muito longe do Bom Fim, no bairro Cidade Baixa, também nos anos 80, especificamente em 1983, surgia um outro ponto criado por amigos. Opinião foi criado pelos então estudantes de engenharia Claudio Favero e Alexandre Lopes, que queriam ter o seu próprio bar para beber. Sediado inicialmente na rua Joaquim Nabuco, o espaço não tinha a intenção de ser uma casa de espetáculo, como é tão reconhecida hoje, mas começou com festas universitárias para depois somar-se a canjas de músicos locais, lançamentos de discos e livros que agitavam as noites do bairro boêmio da Cidade Baixa. 

Com o nascimento da Opinião Produtora, quase dez anos depois, é que a casa começou a marcar território. “Era uma deficiência de mercado em Porto Alegre, onde não existia a cultura de shows e eventos. A gente entendeu que poderia ser uma condição favorável por não ter uma concorrência muito grande”, contou Claudio Favero, um dos proprietários do Opinião ao lado de Alexandre Lopes.

Logo o bar da Joaquim Nabuco ficou pequeno e a empresa mudou para um espaço maior, na rua José do Patrocínio, para poder receber shows, eventos e vernissages, seguindo as tendências do momento. A sua estrutura hoje conta com pista de dança, mezaninos, bar e capacidade para 2 mil pessoas que aproveitam a programação de festas e shows com artistas nacionais e estrangeiros.

Chico Science durante show no Opinião. Foto: Guilherme de Almeida / Acervo Opinião / Divulgação / CP 

Assim como o Opinião, o Ocidente também abriu as portas para shows, valorizando principalmente a cena roqueira gaúcha que efervescia com o surgimento de bandas como TNT, Cascavelletes, Graforréia Xilarmônica, De Falla, Replicantes, entre outras tantas. Além disso, a casa também não se limitou a música e abriu espaço para os representantes da literatura terem o seu momento com o Sarau Elétrico, que é uma atração presente na casa desde 1990, até hoje tradicionalmente às terças-feiras.

Fora isso, existem festas que fazem parte da identidade do Ocidente: Balonê, Blow Up, Late Bar e a Fun. De acordo com João Rosa, cada festa possui uma faixa etária, mas que não deixam de se misturar eventualmente, sendo que, nas sextas-feiras, os jovens costumam ser mais presentes e, no sábado, o público mais adulto, dos 30 para cima, continua mantendo a sua fidelidade com o Ocidente. 

Para Fiapo, o que mantém o Ocidente tão vivo na memória dos gaúchos é a sua diversidade de público desde do seu início, em que punks e GLS (termo usado antigamente para o público LGBTQ) frequentavam. Ele, que está no comando desde o seu início, ainda recebe antigos clientes da casa, embora não com tanta frequência, mas que se fazem presente por tudo que a casa representa.

Inclusive, os jovens voltaram a se conectar com o Ocidente graças a renovação de festas como a Rockwork, Goodbye Lenin, Meltdown e Tieta, todas que já fizeram história em outras casas de Porto Alegre e migraram juntamente com o seu público para o casarão do Bom Fim.

Festas no Ocidente contam também com divulgação do público. Foto: Nicolle Codorniz / Divulgação / CP

E também, conforme explicou João Rosa, as divulgações nas redes sociais, com o apoio de grupos no WhatsApp, e oferecimento de descontos nos ingressos, atraem cada vez mais novos clientes. “Temos um grupo de divulgação no WhatsApp com umas 40 pessoas. Elas gostam das festas, geralmente estas pessoas vêm até a gente e querem divulgar junto”, disse. 

Diversidade

A diversidade também é prioridade no Opinião. Segundo Favero, o que fez a casa se manter aberta por tanto tempo é “cada dia trabalhar com uma tribo diferente”. “A referência desta sobrevida que se tem deste tempo todo é justamente o conteúdo que a gente consegue trazer para dentro do espaço. Hoje fazemos festas para diversos nichos. Você tem desde um Pagode Anos 90 a uma Rock’n’Bira”. 

O segredo das duas casas, além de manter toda a bagagem histórica, também é fazer pesquisa da cena atual, tanto nos gêneros musicais quanto dos artistas que estão bombando. Claudio Favero conta que se preocupar com as tendências e manter a essência da casa são fatores que constroem a longevidade de qualquer espaço. 

Opinião promove festas e shows de artistas dos mais variados estilos musicais. Foto: Reprodução / Facebook / CP

Outras casas que também somam bons anos de atividade são o Cabaret que, no dia 20 de novembro, completou 27 anos. A casa por um bom tempo fez história no bairro Independência, próximo do Beco, hoje já fechado, e atualmente marca presença na rua Sete de Setembro, no Centro Histórico.

Voltado para o público LGBTQ+, a casa noturna está sempre lotada e agrada ao gosto de muitos frequentadores apaixonados. Na Cidade Baixa, ainda tem o Cucko, que mesmo tendo o seu início em 2013, já é uma das opções para quem gosta de fazer festa. A casa assumiu o lugar onde era o Dhomba, na rua Lima e Silva. 

Local democrático e acolhedor

Frequentadora tanto do Opinião quanto do Ocidente, a psicóloga autônoma Juliana Mendes, de 27 anos, acredita que os dois locais seguem firme na cena noturna gaúcha por causa da identificação do público com os eventos. “São locais democráticos, com festas diversas, públicos tolerantes às diferenças. Isso faz com que os frequentadores se fidelizem ao estabelecimento.”

Sobre as festas no Ocidente, Juliana aponta que o ambiente proporciona uma liberdade inigualável. “O que me faz gostar de lá é o espaço, não só físico (que é bem grande), mas o espaço que dão para as pessoas se expressarem como são. É um local totalmente democrático e com um público cabeça aberta e fiel. Me sinto bem lá, o que hoje em dia não é fácil em baladas no geral.”

Já para a turismóloga Lidiane Mesquita, de 33 anos, o que mantém tanto o Opinião quanto o Ocidente tão vivos é que eles não se limitam a apenas um serviço, mas que as demais atividades culturais oferecidas abrem ainda mais oportunidades de público e oferta. “São lugares que as pessoas acabaram se identificando. Por mais que a pessoa não tenha ido ao Ocidente ou Opinião, ela sabe que estes lugares existem. Tem que resistir por mais 30, se possível.”

Juntas, o Ocidente e o Opinião somam 75 anos de história. Apesar de integrar praticamente a terceira idade, as casas continuam mantendo a sua alma jovem e antenada para continuarem resistindo e fazendo festa sem ter hora para acabar.