Classe contesta critérios de seleção do edital das lives
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Classe contesta critérios de seleção do edital das lives

Chamamento público do Banrisul para shows virtuais segue até 1º de julho, enquanto músicos e parlamentares questionam número de seguidores como influenciador de seleção

Deputado estadual Luiz Marenco, presidente da Frente Parlamentar de Fortalecimento da Cultura Regional Gaúcha da Assembleia, é um dos que questiona número de seguidores nas redes como critério


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O edital público de seleção para o patrocínio de lives, de R$ 700 mil para 200 apresentações, lançado pelo Banrisul há uma semana está tendo um de seus critérios contestado pela classe musical. No item 7 do edital 001/20, o processo de seleção e de desempate será para proponentes que tiverem maior número de seguidores nas redes sociais. O presidente da Associação dos Músicos do Rio Grande do Sul (Assmurs), Rodrigo Lentino Machado, destaca que a entidade discorda dos requisitos para habilitação e valores do edital. “O edital é limitador em sua abrangência, pois na atual situação dos músicos em geral, com impedimento de seu exercício profissional, a Associação promoverá junto ao Banrisul a proposta de iniciativas assistenciais mais abrangentes para amparar a categoria”, diz. O deputado estadual e músico Luiz Marenco também não concorda com os critérios de seleção baseados no número de seguidores. “O Banrisul deve fazer pelas mais de 24 mil pessoas que vivem da cadeia produtiva da música e pelas mais de 130 mil pessoas que vivem da economia criativa no Estado, oferecendo uma linha de crédito com juros subsidiados e carência maior para pagamento”, afirma Marenco, que solicitou à Mesa Diretora da Assembleia Legislativa o encaminhamento de um documento ao banco, solicitando reavaliação de critérios. Em nota, a Assembleia destacou que está encaminhando ao banco as demandas que vem recebendo dos músicos desde o início da semana.

 

Em nota, a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa, presidida pela deputada Sofia Cavedon, enviou algumas sugestões de alteração do edital à presidência do Banrisul. “Solicitamos a alteração parcial da etapa 2 do edital: Projetos patrocinados com a inserção de outras possibilidades de lives, contemplando vídeo-aulas/workshops técnicos, seminários, ampliando ainda mais o acesso de outros profissionais da cadeia produtiva da música, como técnicos, técnicas, compositores, professoras e professores de música; alteração parcial da etapa 3 do edital: Das condições de participação, com a inserção da possibilidade de inscrição por CPF/Pessoa Física; alteração parcial da etapa 7: Do processo de seleção e suas fases, com a retirada do critério que leva em conta a soma do maior número de seguidores nas redes sociais do proponente e a inserção como critério da diversidade musical do RS, de gênero e étnicoracial; criação de comissão de avaliação/comitê de seleção com diversidade entre os representantes; e abertura de novos editais para outras linguagens culturais como teatro, circo, dança, cinema, livro e leitura, festivais, saraus, entre outros”.

 

Em nota, a Frente Ampla da Música, coletivo de profissionais da música de diversas regiões do Estado, elogiamos a iniciativa do Banrisul em promover um edital específico, mas também questiona o critério de seleção por número de seguidores nas redes sociais. "Avaliamos que esse critério será excludente, do ponto de vista dos recursos, pois quem mais precisa provavelmente não constará entre os nomes com os maiores números de seguidores, e que também não contemplará a questão artística, que é o meio pelo qual o Banrisul pretende ter o seu retorno. Para garantir a arte como fim indicamos que sejam adotados critérios artísticos, com um comitê curador, formado por especialistas da área, e que sejam contempladas lives de vídeo aulas,  para ampliar a abrangência entre os profissionais", destaca a nota.

 

Músicos como Adriana Deffenti e Daniel Debiagi questionam o número de seguidores em vez de uma curadoria. “Num momento cheguei a pensar que não fosse possível considerar a quantidade de likes, seguidores e inscritos nas redes sociais como critério excludente de avaliação de um edital 'cultural'. As empresas esperam retornos 'institucionais' das ações culturais que promovem, não o retorno imediato em visualizações na internet”, comenta Adriana. “Se o único critério de seleção é o número de seguidores nas redes sociais, não se trata de ‘edital de cultura’. Trata-se de uma ‘licitação para influencers’. O número de seguidores (que inclusive podem ser comprados) não garante audiência, muito menos qualidade e diversidade. Um edital precisa ter curadoria”, pontua Debiagi.

 


Em nota, o Banrisul esclarece que não mudará os critérios de seleção. “O patrocínio de atividades artísticas musicais virtuais, promovidas por músicos gaúchos, tem o propósito de oferecer entretenimento para o maior número de pessoas possível, neste momento de adversidade em que este segmento cultural tem utilizado cada vez mais as redes sociais, trazendo uma nova forma de conexão entre os indivíduos. Quanto à seleção dos projetos, o número de seguidores de cada músico nas mídias sociais (Instagram, Facebook e YouTube) reflete a intenção de, com critérios objetivos, ser transparente e imparcial, dentro de normas estabelecidas no edital”. As inscrições seguem até 1º de julho no site do Banrisul.