Encontros literários ganham novo formato

Encontros literários ganham novo formato

Novos projetos são criados durante a quarentena para promover debates com escritores, donos de livrarias e leitores

Camila Souza*

Reginaldo Pujol Filho, Manuela D'Ávila e Nanni Rios promovem debates literários em lives

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A conversa entre leitores e escritores é comum no universo literário. Troca de experiências, debate sobre obras e indicações de novas leituras acontecem quando os agentes da literatura se reúnem. Os encontros que eram realizados com frequência, agora foram interrompidos pela pandemia do novo coronavírus. Diante disso, foram criados projetos em plataformas on-line para que público e autores continuem conectados.

A Livraria Baleia, de Porto Alegre, promovia eventos, oficinas, cursos e bate-papos com convidados variados. Agora, a livreira Nanni Rios, responsável pela loja, realiza lives diariamente com diversos autores. Nanni conta que o projeto surgiu quando a livraria passava pelo processo de adaptação ao meio digital. Conforme aconteciam os encontros virtuais, a audiência aumentava. Assim, Nanni estendeu o convite a diversos autores. “Tomei coragem pra dar passos mais além, chamei para conversar gente que eu tinha um mero contato profissional e foi ótimo para manter essas relações que são tão importantes no mundo das artes e da cultura”, explica. As lives são transmitidas no Instagram da livraria e ficam gravadas no IGTV.

Nas conversas ao vivo, Nanni busca dar espaço para diferentes perfis da literatura. Além de escritores, os poetas, ensaístas, tradutores e editores fazem parte da lista de convidados para o projeto. A livreira explica que sua intenção é fugir do “universal”. “Eu não queria que fosse aquela voz que todo mundo já ouviu, então na lista das primeiras pessoas que eu queria chamar tinha muitas mulheres, negras e trans, além de pessoas de fora do Rio de Janeiro e São Paulo, como escritores do nordeste e outros que estão morando fora do país”, disse. Enquanto são realizados os debates, outros eventos que aconteciam na Baleia seguem em plataformas virtuais, como o “#leiamulheres” e o “Somos + Literatura”. Mas, para Nanni, os encontros presenciais são fundamentais para conquistar leitores e formar público. “Eu acredito muito em uma literatura viva, feita de gente. Acho que isso a gente perdeu um pouco na quarentena”, explica. 

Outro projeto que nasceu durante o período de isolamento social é o Clube da Leitura, criado pela jornalista, escritora e política Manuela D’Ávila. Ela percebeu que o público de suas redes sociais demonstrava interesse nas publicações relacionadas à literatura. “Por conhecer vários autores, seria interessante fazer algo que eu gostaria como leitora, que é debater as obras com os escritores.” O projeto estreou no dia 7 de maio e teve como primeira convidada a escritora Marcia Tiburi, que falou sobre o seu livro “Feminismo em Comum”. Também já participaram do clube os escritores Valter Hugo Mãe, Scholastique Mukasonga e Silvio Almeida.

“O projeto pode ser tanto um elemento de divulgação de obras que eu acho importante que as pessoas tenham acesso, como também um espaço de debate para quem já leu”, disse Manuela. As lives têm tradução de idiomas e na semana passada contou com a primeira tradução em libras. Os encontros acontecem nas quintas-feiras, às 16h, no Instagram e ficam disponíveis para acesso no YouTube. O escritor Giuliano da Empoli é convidado do clube de amanhã (4) e falará sobre o impacto das fake news na política com o seu livro “Os Engenheiros do Caos”. Para incentivar a leitura e também apoiar livrarias de bairro, negócios ameaçados durante a pandemia, Manuela fez uma parceria com a Livraria Baleia. Através de uma página no site da livraria, os leitores ganham um selo de desconto na compra de livros promovidos pelo Clube da Leitura. 

A “Live de Cabeceira”, criada pelo Instituto de Cultura da PUCRS, também promove entrevistas on-line e ao vivo com autores do Brasil e do mundo. O projeto começou em maio com o propósito de seguir os encontros que já eram realizados entre escritores e leitores. O escritor Reginaldo Pujol Filho, mediador das entrevistas, conta que as lives também buscam dar espaço para autores de diferentes lugares. “A gente acaba concentrando só em gente de São Paulo, mas estamos tentando alcançar outras cidades também para mostrar mais perspectivas sobre esse período para o público”, disse. 

O debate com autores nas lives incentiva o interesse pelos livros, que podem ser um refúgio em dias de incertezas. “As pessoas têm encontrado um espaço de fuga nos livros, um estímulo de imaginação. Isso sempre foi um benefício da leitura, mas, agora, talvez seja mais urgente pelo momento que estamos vivendo”, explica Reginaldo. A “Live de Cabeceira” é transmitida ao vivo nas quartas, às 18h, pelo canal da PUCRS no YouTube. e os vídeos ficam salvos. O convidado de hoje é Marcelino Freire, autor de “Angu de Sangue”, que ganhou o Prêmio Jabuti em 2006.

*Sob a supervisão de Luiz Gonzaga Lopes


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