Exposição mostra história de sofrimento e erotismo do sapato
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Exposição mostra história de sofrimento e erotismo do sapato

A proposta mostra desde o culto ao pé pequeno na China imperial aos dias de hoje

Por
AFP

Par de botas de 1935

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Durante séculos na China e na Europa, era preciso enfaixar os pés para que se encaixassem nos sapatos da moda, ou para se distinguir socialmente, mas o conceito de calçado confortável finalmente começa a predominar, deixando dentro do armário até mesmo os sensuais saltos altos, como mostra uma exposição em Paris.

"O calçado é o exemplo mais persistente de como a moda impôs uma forma idealizada à anatomia natural", afirma a exposição no Museu de Artes Decorativas. Os aristocratas e os grandes burgueses dos séculos XVIII e XIX na Europa comandavam essa tendência sacrificada, tendo como exemplo o ícone da moda da corte francesa, Maria Antonieta, que conseguia calçar o número 33, apesar de seus pés serem números acima, explica à AFP o curador da exposição, Denis Bruna. Mas como pés tão maiores conseguiam calçar sapatos tão menores?

"Na verdade, as classes altas não andavam. Elas permaneciam confinadas em casa. Caminhar nas poças, na lama, na sujeira: tudo isso era reservado para as pessoas da cidade e seus grandes pés", explica Bruna, que é historiador de moda. Um manual de podologia de 1802 foi lançado para dar conselhos de como manter os pés bonitos e pequenos. A geração abastada do início do século XX tinha pés finos, porque usavam sapatos apertados durante a infância, um ou dois números a menos.

Objeto erótico

O culto ao pé pequeno vem da China, onde, desde o século XI, meninas de cinco anos de idade eram obrigadas a usar os dedos dos pés comprimidos. "Até ossos foram quebrados com uma haste de metal para acentuar a curvatura. O ideal na idade adulta era um pé na forma de uma flor de lótus", relata Bruna.

Apesar desse calvário, "as meninas se vangloriavam de ter pés pequenos quando procuravam um bom par para se casar", e esses pés de flor de lótus, como evidenciado por uma pintura na exposição, eram um "objeto erótico muito admirado pelos homens".

O fetichismo tem um lugar reservado no programa do Museu, por trás de cortinas pretas: botas altas fazem alusão aos desejos dos clientes dos bordéis, enquanto fotografias do cineasta David Lynch de 2007 mostram o universo fetichista do cabaré parisiense Crazy Horse, no qual as dançarinas usam calçados da conhecida empresa Louboutin com saltos simplesmente impossíveis.

12 cm de vertigem

O conforto virou preocupação somente em meados do século XX. No desfile de julho deste ano da Dior, em Paris, a diretora artística Maria Grazia Chiuri baniu praticamente os saltos, desenhando sapatos compostos apenas por uma sola presa às meias. Para essa estilista feminista, o salto alto é "uma evolução contemporânea da tradição chinesa dos pés de lótus". "Há cerca de 20 anos, o que importa na escolha de calçados é o conforto", diz o curador, destacando o sucesso atual dos calçados esportivos.

Apesar de tudo, "ainda há meninas que me perguntam por que não há mais sapatos com salto de 12 cm", disse à AFP Pierre Hardy, designer de calçados de luxo. "Parece paradoxal, até milagroso", acrescenta. A exposição convida o visitante a calçar sapatos extremamente pontudos, ou com plataformas vertiginosas. Para conseguir andar é preciso se apoiar... em barras.