Arte & Agenda

História do Festival de Cinema de Gramado: do Kikito aos filmes em destaque

O Correio do Povo faz um retrospecto do festival cinquentenário e traz curiosidades sobre as premiações e os longas-metragens exibidos ao longo de sua trajetória

Festival de Cinema de Gramado
Festival de Cinema de Gramado Foto : J. Silva / CP Memória

Por Carolina Santos e Letícia Pasuch*

Completando 52 edições em 2024, o Festival de Cinema de Gramado já se consagrou como uma das premiações mais importantes do Brasil. Com início oficial em 1973, o evento foi idealizado pela união da Prefeitura Municipal de Gramado com a Companhia Jornalística Caldas Júnior, a Embrafilme, a Fundação Nacional de Arte e as secretarias de Turismo, Educação e Cultura do Estado.

Porém, antes de chegar a este ponto em que as instituições estavam já envolvidas, foi necessário sonhar em um local para o cinema nacional. Então, afinal, quem criou o Festival de Cinema de Gramado?

Podemos destacar a atuação do crítico Paulo Fontoura Gastal, ou P. F. Gastal como era mais conhecido, juntamente com o prefeito de Gramado, Horst Volk e o Secretário de Turismo, Romeu Dutra. Juntos planejaram o evento que transformaria a serra gaúcha em uma cidade para as estrelas.

Ao longo dos anos o Fesitval foi tomando diferentes formatos, houve uma época em que Mostras Paralelas também concorriam a difentes homenagens, como é o caso da Mostra do Super 8 e a Mostra Retrospectiva do Cinema Brasileiro.

O Arte & Agenda procurou reviver essas memórias do evento cinematográfico com imagens do arquivo fotográfico do jornal Correio do Povo, visto que a história do cinquentenário Festival de Gramado se confunde com a da Serra Gaúcha e do cinema nacional.

Cartazes do Festival de Cinema de Gramado | Foto: Motangem CP / CP Memória

Verão na Serra Gaúcha

As primeiras edições aconteceram no verão, o que rendia muitas fotos de celebridades na piscina do Hotel Serra Azul e Laje de Pedra. Nos anos 70, se percebia que o pudor passava longe do Festival, que ainda estava se afirmando como um local de discussão e celebração da sétima arte.

Ao longo dos anos, o evento passou a acontecer no inverno, prolongando o período de plena ocupação para o turismo e dando mais tempo para os cinegrafistas planejarem e divulgarem seus trabalhos.

O Kikito

O troféu que é a personificação do “Deus do Bom-Humor”, no início, era de madeira. Ele foi idealizado pela artista gaúcha Elisabeth Rosenfeld em 1966, e a escultura passou a ser utilizada como troféu do festival em 1971.

Com 33 centímetros de altura, ela era confeccionada em madeira de imbuia pelo artesão Orival da Silva Marques, mais conhecido como "Xixo", que foi o escolhido para esculpir o Kikito em um concurso onde participaram artesãos brasileiros e estrangeiros. Isso tudo mudou em 1989, quando o troféu passou a ser confeccionado em bronze. Hoje, é possível encontrar uma versão gigante do Kikito junto à Rótula das Bandeiras, na entrada de Gramado, na Av. Borges de Medeiros, localizada no Centro da cidade.

Há ainda o Kikito de Cristal, a honraria tradicionalmente entregue a grandes nomes do cinema ibero-americano. Neste ano ela passa a ter status global, pois Mariëtte Rissenbeek, Diretora Executiva do Festival Internacional de Cinema de Berlim entre os anos de 2019 e 2024, será a primeira homenageada dessa nova etapa. A homenagem será entregue durante o 52º Festival de Cinema de Gramado.

O Troféu Kikito de Cristal é dedicado a expoentes do cinema internacional. A honraria foi entregue pela primeira vez em 2007 ao cineasta Eduardo Coutinho. O também cineasta Ruy Guerra, os atores Jean Pierre Noher, César Troncoso e Leonardo Sbaraglia e as atrizes Cecília Roth, Soledad Villamil e Alice Braga foram outros nomes homenageados.

Palácio de Festivais e Caminho das Estrelas

Conhecido anteriormente como Cine Embaixador, o Palácio dos Festivais é utilizado como palco do Festival de Cinema de Gramado desde o seu início, em 1973. A construção combina elementos clássicos e modernos. Com detalhes em madeira, incluindo o Kikito, a fachada do Palácio dos Festivais é em alvenaria e de estilo colonial. Com capacidade para receber 1.100 pessoas, o espaço conta com uma programação semanal de filmes em exibição. Serve de bilheteria para espetáculos como o Natal Luz e o Korvatunturi, e atrações como o Snowland. Por sua excelente localização e estrutura confortável, também costuma sediar eventos privados.

O espaço ainda conta com o Museu do Festival de Cinema, que fica no andar superior do prédio, e apresenta uma estrutura que conta a história deste grande evento. E em frente ao Palácio dos Festivais foi criado o Caminho das Estrelas, fazendo uma alusão a famosa Calçada da Fama, de Hollywood. A ação foi retomada em Gramado em 2022, após 16 anos sem ocorrer. De lá para cá já foram mais de 30 novos nomes eternizados como Antônio Pitanga, Cacá Diegues, Cauã Reymond, Dira Paes, Letícia Colin, Marcos Palmeira, Otávio Muller, Reynaldo Gianecchini, Laura Cardoso, Ingrid Guimarães, Alice Braga, entre outros. As placas com as mãos e assinaturas são inseridas e fixadas na calçada em frente ao Palácio dos Festivais e ao longo da Avenida Borges de Medeiros, principal via da cidade.

Troféus aos montes

Para além do Kikito, o festival conta com outros tipos de distinção, como é o caso do Troféu Oscarito. Essa homenagem é concedida desde 1990, e tem como foco grandes atores e atrizes e eventualmente outros profissionais e instituições, que tenham uma relevante contribuição ao cinema brasileiro. O troféu leva o nome do ator Oscarito (1906 – 1970), considerado um dos maiores humoristas do Brasil, ele ficou famoso pela sua atuação em dupla com Grande Otelo.

Este ano o Troféu Oscarito será entregue a Matheus Nachtergaele, um dos maiores nomes das artes brasileiras. Entre os muitos papéis do ator estão “Anahy de las Misiones” (1997), “O que é isso, companheiro?” (1997), “O Auto da Compadecida” (2000) e “Cidade de Deus” (2002). Atrás das câmeras mostrou um novo talento ao dirigir “A Festa da Menina Morta” (2009). O longa foi selecionado para a mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes, e venceu os prêmios de Melhor Ator, Melhor Fotografia, Melhor Música, Melhor Filme do Júri Popular e prêmio da crítica no Festival de Gramado. Também em 2008, a obra arrematou os prêmios de Melhor Direção de Ficção e Melhor Ator no Festival do Rio. Em 2024, Matheus retorna aos cinemas como João Grilo, personagem emblemático de sua carreira, para a continuação de “O Auto da Compadecida”, de Guel Arraes. A sequência estreia nos cinemas no dia 25 de dezembro.

Ator Matheus Nachtergaele recebe Kikito na 36ª edição do Festival de Cinema de Gramado | Foto: Carla Ruas / CP Memória

Além dessa honraria, o Festival conta com o Troféu Cidade de Gramado, que é dedicado a nomes ligados a Gramado e ao Festival, contribuindo para o crescimento e divulgação da cidade e do evento. Entregue pela primeira vez em 2012 à atriz Eva Wilma, a mais jovem honraria concedida pelo Festival de Cinema de Gramado foi entregue, também, a nomes como Tony Ramos, Ney Latorraca, Antonio Pitanga, Wagner Moura e Ingrid Guimarães.

Na edição de 2024, a homenagem será para a atriz Vera Fischer. A atriz catarinense é uma das mais clássicas personalidades da televisão e do teatro no Brasil. Em Gramado, esteve na tela do Palácio dos Festivais com os filmes “Intimidade” (1975), de Michael Sarne e Perry Salles, “Eu Te Amo” (1981), dirigido por Arnaldo Jabor, e com “Doida Demais” (1989), de Sérgio Rezende.

Já o Troféu Eduardo Abelin é uma homenagem concedida a diretores, cineastas e entidades de cinema pelo trabalho feito em benefício do cinema brasileiro. A honraria leva o nome de um dos pioneiros do cinema gaúcho, o diretor Eduardo Abelin (1900 - 1984). O cineasta Carlos Reichenbach foi o primeiro a receber a honraria, em 2001. Juntam-se a ele nomes como Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Carla Camurati e Laís Bodanzky.

Este ano o prêmio será de Jorge Furtado, que iniciou a sua carreira no cinema, na década de 1980, quando foi um dos fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre, um dos mais importantes núcleos de produção de filmes do país, a qual integra até hoje. Entre os filmes que dirigiu estão: “O dia em que Dorival encarou a guarda” (1986), “Barbosa” (1988) e, principalmente, “Ilha das Flores” (1989), com os quais recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, inclusive no Festival de Berlim. Como diretor de longas-metragens foi responsável por: “Houve uma vez Dois Verões” (2002) e “O Homem que Copiava” (2003).

Há ainda mais troféus, a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), por meio do Instituto Estadual de Cinema (Iecine), anunciou, nesta segunda-feira, dia 5 de agosto, os selecionados para o Troféu Leonardo Machado e os Prêmios Iecine, a serem entregues durante o 52º Festival de Cinema de Gramado. Você pode saber mais aqui.

Filmes em destaque

Em mais de cinco décadas de festival, diversos filmes parte da história do cinema nacional foram destaque nas edições. Confira, abaixo, algumas produções:

  • Toda Nudez Será Castigada (1972)

Baseado na peça de Nelson Rodrigues, o longa de Arnaldo Jabor foi o primeiro vencedor do Kikito de Melhor Filme do Festival, em 1973. Na trama, baseada na peça de teatro homônima de Nelson Rodrigues, o ator Paulo Porto interpretou Herculano, um viúvo conservador que jura a seu filho Serginho (Paulo Sacks) que nunca terá uma outra mulher. Porém, apaixona-se por uma prostituta, Geni (Darlene Glória), que conhece através de seu irmão Patrício (Paulo César Pereio), interessado em que Herculano volte a sustentar seus vícios de bebida e mulheres.

Quando resolve se casar com Geni, gera uma série de conflitos em sua família, entre eles a prisão de Serginho por uma briga de bar. O rapaz é estuprado na prisão por um ladrão boliviano, a ponto de ter de ser operado. Depois de ser libertado, torna-se amante de Geni, para vingar-se do pai por haver quebrado o juramento. Desesperada, Geni se suicida, deixando uma fita gravada narrando toda a história para Herculano. Serginho fugira com o ladrão boliviano. O filme está disponível no YouTube.

  • Um Homem Tem de Ser Morto (1973)

O primeiro longa gaúcho selecionado para disputar o Kikito de melhor filme, em 1974, foi o longa de David Quintans. Fugindo da ditadura de Salazar em Portugal, o diretor chegou ao Rio Grande do Sul no início dos anos 1970. No filme, Hasting, o homem de confiança de Simon, presidente da Organização, candidata-se às eleições por sentir que o regime não tem condições de sobrevivência. Sem apoio do povo, Simon se elege fraudulentamente. Hasting, perseguido, é obrigado a exilar-se. Do exílio, através de várias tentativas armadas, tenta recuperar a posição que ganhou legitimamente. Tudo fracassa em virtude da infiltração de homens de Simon. Alguns anos mais tarde, Hasting é atraído à fronteira de seu país por Kramer, pois, segundo este, existem armas e homens suficientes para derrubar Simon. Hasting aceita o plano, mas, no local combinado, descobre que se trata de uma cilada para eliminá-lo.

  • “Gaijin – Caminhos da Liberdade” (1980)

O drama foi dirigido pela cineasta nipo-brasileira Tizuka Yamasaki. Além de marcar a estreia da diretora e roteirista, esse foi o primeiro longa dirigido por uma mulher a ganhar o Kikito de Melhor Filme no festival. O filme retrata a vinda de um grupo de japoneses para o Brasil no início do século XX, com o objetivo de trabalhar em uma fazenda de café em São Paulo. Lá, eles encontram dificuldades para se adaptar, pois são tratados com hostilidade e são roubados pelo patrão. Apenas alguns colonos os tratam bem, entre eles, Tonho, o contador da fazenda.

  • “Técnicas de Duelo” (1988)

Em agosto de 1992, na 20ª edição Festival de Gramado e no ano da internacionalização e inclusão do cinema ibero-americano no Festival, a produção colombiana dirigida por Sergio Cabrera foi a primeira estrangeira a ganhar o prêmio de melhor filme. No longa, um professor e um açougueiro de uma pequena cidade nos Andes tropicais estão ambos apaixonados pela mesma mulher, Miriam. Eles decidem duelar por ela. Todos na cidade ficam sabendo do duelo, exceto ela. O prefeito, então, decide manipular o evento para torná-lo político.

  • “Como Nossos Pais” (2017)

O longa-metragem dirigido por Laís Bodanzky foi o grande vencedor da 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado, em 2017, e também levou outros cinco Kikitos entre os 16 prêmios previstos para longas-metragens nacionais: melhor direção para Laís Bodanzky, melhor atriz para Maria Ribeiro, melhor ator para Paulo Vilhena, melhor atriz coadjuvante para Clarisse Abujamra e melhor montagem para Rodrigo Menecucci. No filme, Rosa é uma mulher que almeja a perfeição como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Filha de intelectuais e mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela se vê pressionada pelas duas gerações que exigem que ela seja engajada, moderna e onipresente.

Homenageados e visitas ilustres

*Com supervisão de Carolina Santos

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta sexta-feira, dia 12 de junho de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio