Max 2019: Realizadoras debatem caminhos para ampliar a presença feminina na animação brasileira
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Max 2019: Realizadoras debatem caminhos para ampliar a presença feminina na animação brasileira

Painel reuniu profissionais que dividiram suas experiências no mercado

Por
Lou Cardoso

Realizadoras debateram a presença feminina na indústria da animação brasileira


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A presença feminina no mercado de animação brasileira foi tema de um dos painéis da 4ª edição do Max - Minas Gerais Audiovisual Expo, realizado no Sebrae MG, em Belo Horizonte, nesta sexta-feira. Fernanda Salgado, produtora do Apiário Estúdio Criativo, a artista visual Giuliana Danza e a diretora de animação, Lena Franzz, dividiram as suas experiências e projeções para este nicho que está crescendo, mas que ainda necessita de mulheres dispostas a entrar nesta indústria. 

O trio destacou as dificuldades que existem no meio, como machismo, estereótipos e a subestimação da capacidade profissional e criativa das mulheres. Juliana compartilhou alguns dados de um estudo da Ancine. Segundo ela, de 60% mulheres que possuem formação superior em animação, apenas 30% chegam no mercado de trabalho. 

Para Juliana, muitas questões desanimam as profissionais a permanecerem na área, já que classificam o ambiente como hostil, sentem suas qualidades subvalorizadas e são sempre colocadas em cargos de produtoras "porque sabem cuidar”. "São várias questões que precisamos discutir juntos. As mulheres querem ascender, assumir outros cargos, querem ser diretoras, produzir seus próprios projetos", citou. 

A falta de representatividade negra no gênero também é outro problema, de acordo com Juliana. "Não há nenhum longa-metragem de animação dirigido por uma mulher negra. Por que não podemos nos expressar? O que isso significa? O que a gente vê são os olhares dos outros. Restringir o acesso, a comunicação e a expressão do imaginário das mulheres prejudica todos nós."

Presente no mercado da animação há sete anos, Lena Franzz percebe que a insegurança acaba atrapalhando o processo de muitas mulheres. No curso de animação em que leciona no Rio de Janeiro, a diretora gaúcha disse que, a cada ano aumenta o número de jovens inscritas e selecionadas, mas que a auto sabotagem acaba prejudicando. "A gente se bloqueia antes mesmo de tentar. As minhas alunas têm um trabalho sensacional, mas elas se sabotam", disse. 

Lena ainda salientou que é preciso consciência para seguir em frente. "Na medida do possível, tento mostrar que elas não estão sozinhas. Não pode deixar essa insegurança impedir de avançar."

A insegurança quase fez com que Lena perdesse a oportunidade de dirigir a quarta temporada de "O Irmão do Jorel", ainda sem previsão de estreia. "Parece que muitas vezes a primeira resposta é 'não' porque a gente acha que vai falhar. Não é culpa nossa, mas como faz pra vencer isso?". 

Para Giuliana Danza, a pressão, o assédio, a desigualdade salarial e a falta de compreensão no período da maternidade dificultam a permanência feminina em estúdios . "Tem preconceito e um estereótipo muito grande. É ridículo, mas ainda acontece. Tem uma brecha muito boa no mercado, mas (as mulheres) não estão conseguindo se inserir", criticou.

Como forma de reverter esta situação, Giuliana incentiva que as mulheres do audiovisual e, principalmente, da animação se organizem para conquistar o mercado de trabalho, seja em eventos ou em grupos fechados nas redes sociais. "Tem uma parcela de culpa social e cultural no mercado, mas temos uma parcela de culpa também. Por que a gente se coloca para baixo? Por que a gente tem medo de assumir cargos importantes, quando surgem poucas oportunidades? Por que a gente não se organiza? Se a gente não se unir, não vai rolar", enfatizou. 

O medo de errar é um empecilho que trava ou desmotiva muitas mulheres profissionalmente dentro do audiovisual. Fernanda contou que precisou trabalhar mesmo com medo para conseguir avançar profissionalmente. "Errei muito, mas acontece. Tem que mostrar serviço."


Para o trio, iniciativas como encontros, debates, fóruns e grupos nas redes sociais são os meios para as mulheres começarem a ocuparem espaços na indústria. "A meta é ter equilíbrio. Não precisa eliminar ninguém. A gente precisa se organizar como um grupo para se posicionar e somar forças. O jeito é dar espaço, chamar mulheres. É formar mulheres e apoiar o crescimento de todas elas", encerrou Giuliana.