Arte & Agenda

Unesco estima reconstituição "longa, cara e dolorosa" de acervo do Museu Nacional

Documento revela que a entidade apresentará a versão final de um plano de recuperação do museu em janeiro

Prédio do museu no Rio de Janeiro foi tomado por chamas no início de setembro
Prédio do museu no Rio de Janeiro foi tomado por chamas no início de setembro Foto : Mauro Pimentel / AFP / CP Memória
A reconstituição do acervo do Museu Nacional será "longa, cara e dolorosa". É dessa forma que Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aponta para o trabalho que enfrentarão as autoridades nacionais, com o apoio de doadores estrangeiros. Um documento obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo revela que, em janeiro, a entidade apresentará a versão final de um plano de recuperação do museu. Mas, em sua introdução, a Unesco deixa claro que não se pode ainda ter certezas sobre o que conseguirá ser recuperado.

No início de setembro, o prédio do museu no Rio de Janeiro foi tomado por chamas, com uma repercussão internacional. Naquele momento, estimou-se que o fogo teria levado à perda de 90% de seu acervo de 20 milhões de peças. Foi então enviada ao Brasil uma missão da Unesco, com especialistas que chegaram a atuar na recuperação do museu de Bagdá durante a Guerra do Iraque. O objetivo era avaliar a situação e começar a montar um plano de recuperação.

Um primeiro rascunho do projeto foi concluído em Paris e enviado aos diferentes órgãos públicos nacionais e, em janeiro, a Unesco espera publicar o informe completo. Em sua introdução, porém, a agência da ONU dá a dimensão do trabalho que terá pela frente. O Plano de Ação irá colocar como prioridade "a estabilidade estrutural" e criar uma espécie de abrigo para o prédio do museu. Outra parte do plano é o resgate de artefatos dos escombros e reconstituir as coleções por meio de empréstimos e doações de outros museus espalhados pelo mundo.

O projeto ainda irá desenvolver planos de emergência para outros museus no Brasil.  Foi apurado que uma das preocupações em Paris é de que o Museu Nacional não seja o único a viver o drama do incêndio. Em dez anos, foram oito os museus, teatros e institutos nacionais de porte histórico que foram vítimas de incêndios. A percepção é de que, sem um plano completo, o risco é de que o Brasil fique afastado de turnês internacionais de obras de arte ou ignorado em políticas de empréstimos de pinturas ou exposições.

Essa não seria a primeira vez que tal marginalização ocorreria. No final dos anos 70, o incêndio que atingiu o Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro destruir centenas de peças e obras de pintores estrangeiros, levando as coleções internacionais a evitar empréstimos de grande porte ao Brasil durante quase 20 anos.

Agora, o documento da Unesco não deixa dúvidas de que a tarefa não será fácil. "Ainda que não esteja claro quantos artefatos do museu poderão ser salvos, o maior desafio para especialistas em patrimônio cultural e autoridades brasileiras será o longo, caro e doloroso trabalho de resgatar, identificar, documentar e eventualmente restaurar os restos das coleções", alertou.

O informe aponta que mais de onze países já anunciaram sua disposição para ajudar, incluindo a Suíça, Alemanha, Itália, Portugal ou EUA. Eles indicaram que poderão emprestar coleções com itens similares ou "oferecer apoio que vai desde especialistas técnicos à contribuições financeiras". O governo de Berlim, por exemplo, ofereceu 1 milhão de euros para os trabalhos.

Um mês depois do fogo, foi estimado que a reconstrução do Museu Nacional deverá custar de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões. A avaliação era do diretor da instituição, o paleontólogo Alexander Kellner.

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