Sesquicentenário da Floresta Aurora

Sesquicentenário da Floresta Aurora

Por Antônio Carlos Côrtes*

Antônio Carlos Côrtes

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Mergulho no ano de 1880, quando se criou a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, Luís Gama eram alguns líderes cuja principal arma era a oratória e execução das falas. Entidades abolicionistas começaram a surgir pelo Brasil, sendo que aqui no RS destacou-se a Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora. Fundada por negros alforriados e ainda em plena atividade. A importância da sociedade para o Brasil neste ano de 2022 vai além de nossas fronteiras. Os 150 anos que comemora são de resiliência. Observem o seguinte olhar comparativo em nível internacional envolvendo negros.

Trinta por cento da população pobre em Ferguson, Missouri-Estados Unidos, considerando os 21 mil habitantes, são de não negros. Na Polícia, dos 53 elementos, só 3 são negros. Esse o motivo da morte de Michael Brown, que a mídia mundial em boa hora abraçou. Mas os habitantes de lá vivem sob barril de pólvora pelo jeito de agir da Polícia que primeiro atira no negro para depois ver o que aconteceu. O Estado é omisso na questão. Aliás, lá e aqui no Brasil. Pensa-se “que exagero!”? Pois indico leitura do nosso Correio do Povo de 27.08.2014, p. 8: Policial em Ferguson atirou dez vezes. A rede CNN divulgou gravação em que o policial branco teria efetuado aquele número de disparos. No áudio é possível ouvir o que parecem ser 6 tiros, seguidos de pausa e depois outros 4 ou 5. 

O ponto nuclear situa-se na pobreza e no desrespeito dos não negros aos valores culturais dos negros. Exibe-se uma polícia cega no que concerne aos aspectos sociais dos direitos humanos. O assassinato desses quase adolescentes pela polícia não negra foi a gota d’água que faltava para inundar a real situação. Newsweek, 21 e 28 de agosto de 2006, p. 59, registrou que, em 146 instituições de ensino em nível superior nos Estados Unidos, somente 3% dos estudantes tinham origem nas classes mais pobres (leia-se negros) na comparação com os 74% que integravam classe rica, lá em 2003, cuja etnia não preciso dizer.

Pergunto: será que muita coisa mudou de lá para cá? Será que aqui no Brasil é diferente? Por que será que sociedade negra há 150 anos luta por diminuir o fosso da desigualdade social? O toque de recolher em bairros populosos da cidade, especialmente na Grande Cruzeiro, é prova da omissão do governo do estado no policiamento ostensivo. Lá, como em outros lugares pobres, à noite não sobem taxi ou aplicativos. Ainda que o governador seja delegado de polícia.

Todos sabem como se trata os pretos no Brasil (Caetano Veloso). O grande Joaquim Nabuco já sentenciava de forma definitiva a não comportar nenhum tipo recurso, portanto com trânsito em julgado: “Não basta acabar com a escravidão, é preciso destruir sua obra”.

Ex-presidente da Sociedade Floresta Autora*


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