Leiteiro e bolicheiro
capa

Leiteiro e bolicheiro

Por

publicidade

Eu acordo no meio da noite e parece que estou lá, de novo, atrás do balcão do bolicho na beira da estrada real, entre a indiada guapa, um guri de dez, onze anos, dando seus primeiros passos na vida, trabalhando e aprendendo a viver. Servia um trago de canha para um, uma rapadura para outro, dois maços de palha, um naco de fumo em rolo trazido por um gringo mascate da região de Faxinal do Soturno,  um pacote grande de bolacha, três latas de sardinha, dois quilos de erva-mate pura folha, um quilo de banha, um litro de querosene que servia direto de uma lata com uma bombinha de metal. Uns vinham comprar mantimentos básicos como arroz, feijão sal, açúcar, e eu ali, me virando, de um lado para outro. Mas como dizia seu Turíbio, era um "devertimento", pois quando se é guri a gente não tem canseira para nada.

Na verdade, naquela época, como disse há poucos dias aqui na redação para alguns colegas, a vida era bem difícil. Acordava muito cedo, antes das cinco horas, ainda escuro, e saia tateando, sem enxergar direito, lavando o rosto na bacia alouçada, já descascada, e sem mesmo calçar as botas de borracha,  já trazia as vacas para a mãe tirar o leite. Sempre ajudava também na ordenha, mas minha função principal era buscá-las, prendê-las, separar os terneiros, e depois soltar tudo para o potreiro. Era um serviço que precisava destreza e força, mas isso eu tinha. Durante o ano inteiro vendíamos o leite em casa, o que sobrava das nossas necessidades. Porém nas férias de verão,  atrelava o Tostado na carroça e me mandava para a Vila Rica entregar leite de casa em casa. O leite ia num tarro grande e quase sempre voltava vazio, pois o pessoal gostava de um produto gordo para fazer doces e rapadurinhas. "É leite puro, direto da vaca, esse não tem água", eu alardeava pelas ruas, ainda cedo, e vendia tudo. Do que arrecadava, a mãe separava uma parte para mim. Então comprava figurinhas, bolitas e foi com esse dinheiro que comprei meu primeiro Kichute para me exibir nas peladas domingueiras.

Hoje me orgulho de ter crescido trabalhando como leiteiro e bolicheiro, acordando cedo, passando o dia na labuta, ir dormir com os músculos doloridos. E, apesar de tudo, das inúmeras ocupações e obrigações, sempre sobrava um pequeno tempo para aquelas brincadeiras de guri ao final do dia, um jogo de bola ao lado das taquareiras, no campinho das rosetas, um gol a gol, uma pescaria ligeira de lambari na sanga ou um banho de açude ao anoitecer.  E ler um conto do Simões Lopes Neto debaixo das laranjeiras. A vida, para mim, era um jogo, uma bola que sem eu saber ia girando, girando, mas passou tão ligeiro que quando me dei conta já era homem feito e precisava ir para o quartel.

Depois virei jornalista, viajei pelo mundo, fiz muitos amigos importantes, trabalho num veículo de comunicação respeitado, mas ainda me sinto um pequeno bolicheiro atrás do balcão de tábuas, riscado de faca e manchado de banha e fumo, ou um humilde leiteiro com seu tarro vendendo leite de vaca Jérsey pelas ruas de uma pequena cidade do Interior. Vivi sempre no meio do povo que  luta dia e noite para sobreviver com o pouco que tem. E assim também seguirei, para sempre, dignamente, debaixo dos remendos da minha simplicidade.