Lua na janela

Lua na janela

Esta literatura é como um clarão de lua entrando pela janela, numa noite de primavera, no interior de um município.

Paulo Mendes

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Quantas noites, deitado na caminha antiga, de varões de ferro e lastro de tela, ficava olhando para o céu pela janela aberta naquelas primaveras da Vila Rica. Lá em cima, algumas vezes, com sorte, por entres os galhos dos ciprestes, via a lua prateada a clarear os campos e a estrada de chão batido, a iluminar nossos destinos tão ínfimos, pequenos, diminutos... Futuros que pareciam nem existir. Muitas vezes guardava ainda na memória as melodias de músicas que havia escutado em nosso rádio a pilha. Sonhava, acordava e sonhava de novo. Era tão jovem, um guri, um piá de campanha, um pequeno bolicheiro, carroceiro e leiteiro, vivendo da manhã à noite em contato com a natureza, e que, durante o período escolar, passava as manhãs no colégio, na cidade, aprendendo sobre história, ciências e outras coisas que gostava e pelas quais me interessava.

Nossa vida era dura, puxada mesmo, de trabalho pesado. A família era pequena, tinha muitas atividades e havia pouco tempo para o lazer durante a semana. Os jogos de bola, de bolita, a pescaria de sanga, as pandorgas, tudo isso ocorria aos sábados à tarde e aos domingos. Mas quando a gente é guri, a vida é tão linda, tão vistosa e cheia de cores, mesmo que não tenhamos a consciência disso. Só agora me dou conta dessas coisas, na época nem pensava em nada. Comentei dia desses que até durante os dias de labuta achávamos coisas engraçadas e prazerosas, trabalhando e cantando, assobiando, fazendo chistes, contando anedotas, inventando situações, exagerando, aumentando e criando brincadeiras.

Ah, aquelas noites solitárias, silenciosas, as luas de primavera que muitas vezes chegavam rosadas, amareladas, iluminando os parapeitos, lançando raios de luz pelos desvãos da memória. Com o passar dos dias, dos anos, fui vendo tantas luas, mas parece que aquele luar era diferente, mais luminoso, havia nele uma magia metálica que nunca mais vi. Sempre fui tão grato por aquilo, por aquelas dádivas que tive, por isso recoluto nessas ausências as recordações que me salvam. São lampejos, são elucubrações de um tempo distante, que passou e não volta mais. Sei disso, mas vejo a lua de novo, depois de tanto tempo, e me transporto para lá, outra vez, me torno um pequeno ser sonhando no meio do campo numa noite enluarada.

Olho de novo pela janela e o céu de outubro é o mesmo, mas mudei tanto, o guri virou um senhor de cabelos brancos, com mãos cheias de sulcos e pele enrugada. Os fios tão escassos, fininhos, com entradas na fronte, tão diferente daquela imagem que tinha do guri que se enxergava no espelho dos lagoões de potreiro. O tempo passou como água de lajeado que foge nas corredeiras, fazendo marolas e espumas. Estou aqui, não sei até quando, contando tudo o que vivi. Escrever enfeitado eu sei, imitar, como fazem tantos, também sei, mas prefiro a escrita simples, com cheiro de várzea depois da chuva, palavras que a gente lê como quem caminha na geada numa manhã de inverno ou quem toma banho de açude numa tarde de domingo. Esta literatura é um clarão de lua entrando pela janela, numa noite de primavera, no interior de um município. Não chega a clarear tanto assim, mas mostra o caminho e abre picadas nos escuros da vida.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895