O valor virtual

O valor virtual

A herança industrial e cultural de uma montadora de veículos é um poderoso instrumento de marketing, mas deslocado do valor real da marca.

Renato Rossi

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A Mercedes-Benz comemora a oitava colocação no consagrado “Best Global Brands”, promovido pela renomada consultoria de marcas dos Estados Unidos, a Interbrand. Na escolha 2020 das marcas mais valiosas das dez com maior valor de mercado, somente duas são montadoras de veículos. A Toyota ficou em sétimo lugar no ranking, com valor de mercado de 52 bilhões de dólares. A Mercedes vale 49 bilhões. 

A “nuvem”, cada vez mais densa e abrangente, avaliza o poder de uma Apple, Microsoft ou Google, que são as três marcas mais valiosas do mundo. No entanto, há 10 anos, as marcas automobilísticas eram dominantes em valor de mercado. Hoje, o heritage ou herança industrial e cultural de uma montadora de veículos é um poderoso instrumento de marketing, mas deslocado do valor real da marca.

A Peugeot comemora espantosos 200 anos. Então, a montadora que nasceu antes do automóvel, se vale desta ancestralidade para vender carros no presente. Entretanto, enquanto o valor de mercado da líder Apple é de 323 bilhões de dólares, o valor de mercado da Peugeot não chega aos 6 bilhões de euros. E, afinal, alguém lembrará do carro a combustão quando prevalecer somente a necessidade ecológica do carro elétrico, a hidrogênio, a energia solar? As marcas automotivas que apostam as suas fichas na eletrificação e na inteligência do chip podem ter uma tremenda valorização poucos anos à frente. 

Há previsões de que carros poderosos, como as Ferraris e os Porsches, continuarão com seus motores a combustão e o seu ronco ameaçador. Porém, só terão licença ambiental para trafegarem em parques de lazer. Enquanto a Apple, Microsoft e Google, hoje as marcas mais valiosas do mundo, produzirão chips, hologramas e avatares, que tornarão as experiências humanas reais inviáveis, se não forem mediadas na virtualidade.


Correio do Povo
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