Foco na amizade
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Foco na amizade

No filme "O Melhor Está Por Vir" , com leveza e bom humor, a temática tão profunda de vida/doença/morte/culpa/perdão se reveste de uma densidade envolvente, real, mas com a suavidade da absorção audiovisual.

Por
Marcos Santuario

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Produções francesas trazem consigo, normalmente, elementos para uma reflexão sobre a vida e suas nuances. Uma destas produções é “O Melhor Está por Vir”, filme dirigido pela dupla Matthieu Delaporte, Alexandre De La Patellière. A dupla de roteiristas e diretores, que já trabalhou unida em outras produções, coloca na tela, em quase duas horas de exibição, os atores Fabrice Luchini, Patrick Bruel para viver uma comédia dramática que transborda inteligência, humanidade e emoções. O foco central se divide entre amizade, desejos e os conflitos do passado. Mas não se assuste. Não se trata de um daqueles dramas pesados, difíceis de digerir e que fazem o espectador sair do cinema com sensação de “não deveria ter vindo”. Ao contrário. Com leveza e bom humor, a temática tão profunda de vida/doença/morte/culpa/perdão se reveste de uma densidade envolvente, real, mas com a suavidade da absorção audiovisual.

O argumento não é novo: uma doença terminal é revelada, e pessoas tratam de aproveitar ao máximo, à sua maneira, o tempo que lhes resta. Depois de um grande mal-entendido, dois amigos de infância, convencidos de que “o outro” tem apenas alguns meses de vida, deixam tudo para compensar o tempo perdido. A busca pela intensidade de vida se dá a partir deste ponto. E a amizade é o ponto central para acompanhar os humores, os desejos e as necessidades dos personagens. De prazeres simples à mesa, até complexas relações a reestabelecer. O roteiro, bem construído e filmado pelos realizadores, que conhecem o projeto em todos os seus detalhes, mantém o ritmo e envolve o espectador na medida da emoção e do riso.

Os amigos são Arthur (Fabrice Luchini - nascido Robert Luchini) e César (Patrick Bruel). Nutrem um amizade desde a infância até que, adultos, em meio a uma grande confusão, César é informado de que Arthur está com câncer. Decide então buscar o amigo para recuperar o tempo perdido e ajudá-lo a conseguir fazer tudo que deseja antes de morrer.

Arthur é um professor de medicina, nada popular com seus alunos. Ainda ligado emocionalmente à ex-esposa, começa o filme com uma relação nada amigável com a filha única. Já César é um homem de meia idade que vive uma adolescência postergada, sem responsabilidades e com relacionamento fugazes. Até que surge uma personagem que será central na sequencia da trama, a atriz francesa-marroquina Zineb Triki. Ela encarna uma integrante de grupo de apoio à doentes terminais, que padecem da mesma doença que ela. As relações humanas são apresentadas com delicadeza e verdade. Sem excessos narrativos e sem excessos cômicos, como acontecem na maioria das comédias dramáticas que vemos serem produzidas em nosso país. Mais uma lição de cinema francesa.