Luta diária
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Luta diária

Com o olhar voltado para os profissionais autônomos, em “Você Não Estava Aqui”, Ken Loach questiona os excessos exigidos para sobreviver.

Por
Marcos Santuario


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Depois de impactar o universo cinematográfico com “Eu, Daniel Blake”, o cineasta britânico Ken Loach coloca na tela uma outra dura realidade universalizada, em “Você Não Estava Aqui” (“Sorry We Missed You”). Se em “Eu, Daniel Blake” Loach aponta para a difícil saga do homem do título para receber os benefícios concedidos pelo governo aos doentes e longe do emprego, o diretor foca agora na realidade dos empregos informais. Neste novo longa está a exaustiva e difícil rotina de uma família que vive em Newcastle, numa Inglaterra ainda assolada pela crise econômica de 2008. O pai é Ricky, a mãe é Abby e ao lado de seus dois filhos não têm uma vida fácil. Enquanto Abby é cuidadora de idosos, Ricky só consegue trabalhos mal remunerados. O drama começa quando ele vê uma oportunidade real de melhoria de vida como entregador de encomendas. Mas para isso precisa vender o carro, comprar uma van e se tornar um motorista de entregas por conta própria. O roteiro é assinado por Paul Laverty, parceiro de Loach há algum tempo. Nele se construiu a estória de um cidadão e sua família, tentando sobreviver em um sistema cuja estrutura, cada vez mais, leva a relações de trabalho sem as seguranças tradicionais de remuneração, saúde e carga horária.

Dono de uma obra realista, voltada para questões sociais, Loach mostra aqui, com intensidade dramática, uma situação que pode ser detectada em muitos de nossos países: a saga do personagem principal, pai de família responsável e honesto, lutando por sua família. Assumindo o desafio de dirigir uma van durante 14 horas por dia, para dar conta de pagar dívidas mensais da família, incluindo a mensalidade da própria van. O título do filme remete ao fato de que algumas pessoas não estão no local da entrega quando ela deve acontecer. Sem a entrega ser comprovada pela assinatura, Rick não recebe pagamento.

Com o olhar voltado para esses profissionais autônomos, em “Você Não Estava Aqui”, Ken Loach questiona os excessos exigidos para sobreviver. Aborda o que considera “exploração do trabalhador”, e as consequências disso em escala familiar e nas relações humanas em geral.


Kenneth “Ken” é dono de uma obra realista, voltada para questões sociais, e se consolidou como um dos maiores nomes do cinema britânico. Entre seus filmes mais recentes, além de “Eu, Daniel Blake”, destaca-se outro vencedor da Palma de Ouro em Cannes, “Ventos da Liberdade”, e “A Parte Dos Anjos” (2012), que ganhou o prêmio do júri no mesmo festival. "Você Não Estava Aqui" segue a linha de fazer pensar sobre questões contemporâneas, que envolvem a vida real das pessoas reais. Intenso.