À frente da PF no RS

À frente da PF no RS

Álvaro Grohmann

José Antônio Dornelles de Oliveira, superintendente regional da Polícia Federal no Rio Grande do Sul

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Nascido em São Jerônimo e morador de Porto Alegre, o novo superintendente regional da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, delegado José Antonio Dornelles de Oliveira, 62 anos, já tem 39 anos de carreira na instituição. Extremamente exigente com o trabalho, ele ingressou como agente em 1981 e passou a ser delegado em 2003, aprovado em concurso público. Preocupado em oferecer as melhores condições de trabalho para os servidores, destaca a lealdade à instituição e a busca em ser justo em suas decisões. Em entrevista ao Correio do Povo, o delegado revela o que pensa sobre o combate à criminalidade e os desafios no comando da PF.

O sonho de ser policial surgiu antes ou depois de ingressar na Polícia Federal?

Entrei na Polícia Federal como agente, função que ocupei por 22 anos, antes de ser aprovado em concurso para delegado. Ao todo, são quase quatro décadas dentro da Polícia Federal em Porto Alegre. Tenho muito orgulho por chegar ao cargo de superintendente no mesmo local onde iniciei minha história na PF. Mas devo confessar que a vocação para ser policial somente descobri após ingressar na carreira, pois não tinha o sonho de criança de ser policial. Cheguei a trabalhar em banco e a cursar engenharia antes de fazer o concurso.

O início como agente foi na área de combate ao tráfico de drogas. Atualmente, como delegado, como o senhor vê a questão do narcotráfico?

Trabalhei por muito tempo na Delegacia de Repressão a Drogas (DRE), no enfrentamento direto a este tipo de crime. Na época, não tínhamos toda a estrutura que a Polícia Federal tem hoje, trabalhávamos muito mais na rua e mantínhamos fichas em papel com as informações dos investigados. O foco era na apreensão da droga, mas não levávamos a investigação para frente. Hoje em dia, temos o conceito de que é importante apreender, mas desde o início precisa-se mapear toda a estrutura da organização criminosa e chegar a seus líderes, pensar na lavagem do dinheiro e na origem da droga. Só assim teremos um enfrentamento eficiente, diminuição da oferta e redução do consumo, em paralelo às ações de prevenção ao uso de drogas. Dentro da Polícia Federal, temos grupos de prevenção ao uso de drogas que realizam palestras em escolas para os alunos, pais e professores.

Já na área de crimes patrimoniais, o destaque da sua atuação foi no caso do túnel dos “toupeiras”, da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em Porto Alegre, em 2006. Como o senhor analisa a luta contra as grandes facções criminosas?

A Polícia Federal tem o seu papel no combate às facções. Dentro de um processo legal, identificamos os bens adquiridos pelas organizações criminosas, pedimos o sequestro e chegamos aos líderes. Com provas consistentes e contundentes, é mais difícil que a organização se remonte. É uma luta permanente, e temos a máxima: siga o dinheiro. Sem o capital, o criminoso não tem proteção, não comanda nada. Para quebrar a organização criminosa, o foco precisa ser o topo da pirâmide.

O senhor atuou ainda no Aeroporto Internacional Salgado Filho, na Capital. Como foi a experiência?

Estava trabalhando na unidade da Polícia Federal no Aeroporto Internacional Salgado Filho quando começaram os voos para a Europa. Então, foi preciso buscarmos conhecimento com equipes da Polícia Federal de outros aeroportos do Brasil e isso deu muito certo, pois passamos a ter com frequência a interdição de drogas que saiam do país para o exterior e adquirimos a expertise necessária. Também foi desafiador a prestação do serviço de controle migratório, principalmente no período da Copa do Mundo, com jogos da seleção argentina e com a sua torcida apaixonada, além dos cuidados necessários com as delegações que desembarcavam em Porto Alegre. Normalmente, as pessoas somente identificam a Polícia Federal pelas suas grandes operações, mas temos toda a parte de polícia administrativa que deve ser valorizada também, como o controle migratório, emissão de passaportes, registro e porte de armas, controle de produtos químicos. Antes de ser Superintendente, fui Delegado Regional Executivo e coordenei diretamente essas áreas e pude ver o quanto são importantes, pois lidamos diretamente com o atendimento ao cidadão.

Por passar por vários órgãos internos da Polícia Federal, o senhor teve uma visão ampla da instituição. Quais os desafios no comando dela?

A Polícia Federal que temos hoje é infinitamente mais estruturada do que quando ingressei. Viaturas novas e equipadas, notebooks para todos os servidores, boa estrutura física, ferramentas de investigação, enfim, todas as condições para executarmos plenamente nossa missão constitucional. Os concursos têm sido realizados com frequência. No início de outubro, mais de 300 policiais federais foram formados pela Academia Nacional de Polícia e uma nova turma já iniciou a formação. Então, temos reposiçãoe a direção-geral está com o objetivo de que nos próximos anos tenhamos o maior efetivo da história da Polícia Federal. Além disso, a implementação de novas tecnologias na área de investigação fará com que a instituição dê um novo salto na sua capacidade operacional.

Quais os pilares e prioridade da sua gestão no enfrentamento à criminalidade?

Na parte operacional, acompanhando as diretrizes nacionais da Polícia Federal, pretendemos seguir no combate intenso das organizações criminosas e da lavagem de dinheiro, mirando sempre o ápice da pirâmide e a descapitalização, atacando a capacidade financeira dos grupos.

A integração com outros órgãos de segurança pública, inclusive dos países vizinhos, é fundamental. O que ainda precisa ser feito para avançar nas parcerias?

Aqui no Rio Grande do Sul, pretendemos formar uma Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), iniciativa que já existe em outros estados. Temos que unir nossas forças de segurança, cada uma dentro de suas atribuições. Esse ano teremos as eleições, e formaremos um centro de comando para atuar em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral, Brigada Militar, Ministério Público e Polícia Civil. A cooperação internacional com as polícias de outros países tem sido um ponto forte no combate à criminalidade, seja através da Interpol ou de outros mecanismos. Vimos recentemente na Lava Jato a recuperação de ativos no exterior. Frequentemente, temos a extradição de criminosos brasileiros foragidos fora do país e também temos capturado estrangeiros no Brasil e entregue aos seus países de origem. Há poucas semanas tivemos o caso de um morador de Porto Alegre preso na Bielorrússia. Então, não há fronteiras para as polícias.

Como o senhor vê a instituição em comparação às outras forças policiais no mesmo nível de atribuição?

Sem soberba, mas vejo a Polícia Federal brasileira como uma das melhores do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, são várias agências estatais para fazer o que nós fazemos aqui. Investigação, imigração, controle de fronteiras e aeroportos, entre outras atribuições que são divididas por várias instituições.

Como avalia este momento na sua carreira na Polícia Federal?

Entendo que a minha indicação para Superintendente Regional é um reconhecimento ao trabalho dos servidores da Polícia Federal no RS. A escolha de alguém do local demonstra isso. Como superintendente regional, chego a minha mais honrosa missão: a de liderar policiais federais e servidores de alta capacidade e reconhecidos pelos colegas dos outros estados. Quando me aposentar, pretendo me dedicar mais aos passeios de moto, outra paixão que tenho além da atividade policial.

Como cidadão, o que espera para esse país?

Tenho os mesmos anseios de todos os brasileiros. Termos uma nação forte e desenvolvida, com educação, segurança e prosperidade para todos, enfim, deixar um país melhor para nossos netos.


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