A Coronavac no RS

A Coronavac no RS

Taís Teixeira

Dr. Fabiano Ramos, chefe do serviço de Infectologia do Hospital São Lucas

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De residente no Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) a chefe do serviço de infectologia da instituição e atual coordenador dos testes da Coronavac no HSL, efetivados em parceria com o Instituto Butantan. Esse não é o primeiro desafio na área da saúde do gaúcho de Ijuí, de 43 anos, o médico Fabiano Ramos. Em 2009, ele atuou na epidemia de dengue no Estado, momento em que era chefe da Infectologia do Hospital Ernesto Dornelles. Hoje, gerencia pesquisas com grupos de voluntários imunizados para estudo e observação a fim de investigar a eficácia da vacina Coronovac. O uso deste imunizante foi liberado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em caráter de urgência. O estudo, em busca das respostas que ainda faltam, prossegue, mas Ramos garante que é “uma esperança em meio à pandemia”.

O senhor liderou os testes da Coronavac no Estado. Como essa responsabilidade foi atribuída ao senhor e ao Hospital São Lucas da PUCRS?

Este trabalho é resultado de parceria entre o Hospital São Lucas da PUCRS e o nosso grupo de pesquisa de Infectologia com o Instituto Butantan desde 2015 no desenvolvimento da vacina para a dengue, que começou em julho de 2016. O desenvolvimento dessa vacina exigia a expertise de um grupo de pesquisa porque precisa ficar pronta muito rápido. O São Lucas foi lembrado pelo Instituto para a composição de mais um projeto, entre tantos que atuamos em conjunto.

Como aconteceu e quanto tempo durou o processo de testes?

Essa fase da pesquisa foi de 8 de agosto de 2020 a 10 de dezembro. Neste momento, incluímos 1.337 mil profissionais da área da saúde, que atendem pacientes Covid-19, em uma faixa etária de 18 a 59 anos. E ainda seguem abertas as inscrições e a inclusão de voluntários profissionais da área da saúde com mais de 60 anos.

Como se pode classificar a Coronavac e como ela atua no corpo?

A Coronavac é uma vacina de vírus inativado muito parecida com a vacina do vírus Influenza, que é a vacina para gripe. Ela atua no corpo humano induzindo a produção de anticorpos específicos contra o coronavírus.

A vacina tem período de validade?

A gente ainda não tem essa resposta. Um dos objetivos do estudo é entender por quanto tempo essa vacina vai induzir proteção, por quanto tempo ela vai induzir os anticorpos nesses voluntários que foram incluídos no programa.

Como é a eficácia da Coronavac?

A eficácia, de uma forma geral, evita a doença em 50% dos casos. As pessoas vacinadas que adquirirem a doença vão ter formas muito leves. A maioria terá proteção de 78% a 100% para impedir desde formas brandas que necessitem de atendimento médico até casos mais graves. Então, é uma vacina que, nesse momento, pode auxiliar bastante na redução de atendimento das pessoas e conter a sobrecarga que o sistema de saúde vem apresentando com os casos de Covid-19.

A aplicação da vacina continuará sendo em duas doses? A segunda será dada quanto tempo depois?

Sim, em duas doses. A segunda deve ser feita no intervalo de 14 a 28 dias após a primeira. Quanto mais próximo de 28 dias for a segunda aplicação, maior pode ser a eficácia em termos de produção de anticorpos e imunogenicidade. Depois de 28 dias não sabemos como a vacina se comporta. Então, o intervalo indicado é de 14 a 28 dias para a segunda dose.

Qual é a diferença em relação às demais que estão em desenvolvimento?

O grande diferencial dessa vacina é ser uma tecnologia bastante conhecida, em especial do Instituto Butantan, que desenvolve a maioria das vacinas distribuídas no Sistema Único de Saúde (SUS) para vírus Influenza. Outro fator é a capacidade maior de produção, assim como a resposta que a vacina gera no organismo humano é mais conhecida do que de outras vacinas de vírus inativados. As outras tecnologias são mais recentes, têm algumas vantagens em relação à vacina de vírus inativado, mas que a gente vai saber com o passar do tempo.

Foi previsto algum padrão de possíveis reações à vacina?

Como toda medicação, pode ter reações adversas. No estudo realizado, as reações foram leves, sendo que a reação prevalente foi dor no local de aplicação. No mais, mostrou-se uma vacina muito segura nos testes efetivados tanto nos estudos de fase 1 e 2 quanto no estudo de fase 3 feito no Brasil. Reações graves não foram vistas. Obviamente, a vacina é distribuída em uma escala muito maior, algumas reações podem aparecer, mas a gente não espera que sejam graves porque não há relatos neste sentido até o momento. A Coronavac já está em uso na China e ainda não apresentou efeito adverso grave documentado.

A pessoa ficará imunizada por quanto tempo? Deverá se tornar vacinação anual, como para gripe?

A gente não tem essa resposta. Um dos objetivos do estudo é justamente avaliar por quanto tempo essa vacina vai funcionar em termos de proteção clínica e produção de anticorpos nos voluntários que estão no estudo. Nós não sabemos ainda se será uma vacina anual, como do vírus influenza, mas, do que a gente tem conhecido do vírus e da própria evolução da doença, é possível que isso possa vir a acontecer.

Mesmo sendo autorizada pela Anvisa essa vacinação emergencial, a Coronavac seguirá sendo alvo de estudos? O senhor seguirá à frente das pesquisas no Estado?

Sim, seguirá sendo estudada. Eu sigo à frente do estudo no HSL da PUCRS. Tenho que lembrar que a vacina também está sendo testada na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que reuniu mais de 600 voluntários, o que é um número bastante substancial. A UFPel é um centro de pesquisa muito importante no desenvolvimento da Coronavac, cujos estudos são liderados pela professora Lucimara Salviato Pileggi, mesmo tendo iniciado as atividade depois do centro do São Lucas.

Existe a possibilidade de a rede privada adquirir a vacina e vender a aplicação para pessoas que não queiram esperar a vez no SUS?

Neste momento, não. Os contratos, tanto da Fiocruz quanto do Instituto Butantan, pelo que eu saiba, preveem a entrega para o Ministério da Saúde e para os Estados. Então, agora, acredito que as clínicas privadas não terão distribuição de vacinas.

Uma pessoa que teve Covid-19 e foi vacinada depois pode contrair a doença novamente?

A gente ainda não tem esta definição, mas incluímos participantes que já tiveram Covid-19 em um estudo. Esses resultados deveremos alcançar no decorrer da pesquisa.

O que o senhor diria para a população sobre a vacina Coronavac?

A vacina é uma grande esperança para o controle da pandemia. Porém, não podemos esquecer de manter as medidas de prevenção, que ainda são importantes para o controle da disseminação do vírus e da consequente doença.


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