A história da cardiologia

A história da cardiologia

O professor e cardiologista Carlos Antônio Mascia Gottschall lança, como coordenador, o livro “Bases históricas da Cardiologia e desenvolvimento no Brasil”

Giullia Piaia

O cardiologista já lançou mais de dez livros autorais.

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O professor e cardiologista Carlos Antônio Mascia Gottschall já lançou mais de dez livros autorais e agora lança, como coordenador, o livro “Bases históricas da Cardiologia e desenvolvimento no Brasil”. A publicação faz parte do projeto Memória da Cardiologia Brasileira e teve apoio de uma equipe de historiadores no trabalho de pesquisa e escrita, além de uma comissão composta por médicos membros da Sociedade Brasileira de Cardiologia. O livro foi um pedido do ex-presidente da SBC e atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que assinará o prefácio

Do que trata o livro que o senhor está para lançar?

“Bases históricas da Cardiologia e desenvolvimento no Brasil” é o primeiro livro sobre história geral e brasileira da cardiologia editado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, que me deu grande honra em ser convidado para editá-lo e redigi-lo com mais 19 colaboradores. O coração sempre fascinou a humanidade e os médicos. A cardiologia acabou apontando caminhos estruturantes para medicina, porque foi a primeira especialidade a se desvincular da clínica médica, isso porque as doenças cardiovasculares são as que mais matam no mundo, à medida que a sociedade humana cresce e se complica. A Sociedade Brasileira de Cardiologia, então, resolveu registrar sua história para conhecimento e lição de como pequenos passos podem construir o grande monumento que é a cardiologia atual. Então, nesse livro são descritas várias situações, como o passo mais fundamental, que foi dado pela descoberta da circulação do sangue pelo inglês William Harvey, em 1628. Essa descoberta é considerada a maior descoberta médica do milênio 1000 a 2000 porque sepultou míticas suposições imaginárias e aplicou pela primeira vez o método científico na medicina, transformando a medicina em ciência. Um século depois começaram as primeiras medidas fisiológicas e, no começo do século 19, o francês René Laennec inventou o estetoscópio, que foi o instrumento médico mais importante na clínica no século XIX e é importante até hoje, porque permitiu um extraordinário desenvolvimento da clínica. Somente no fim do século XIX é que foi inventado o aparelho para medir a pressão arterial. Com isso, os médicos começaram a diagnosticar e tratar a mais prevalente moléstia da cardiologia, que é a hipertensão arterial. Também no fim do século XIX surgiram os raios-X de ampla aplicação diagnóstica. Aí, nos primeiros anos do século XX, o holandês Willem Einthoven desenvolveu o eletrocardiógrafo e a eletrocardiografia, que foram os gatilhos da especialidade. A cardiologia nasceu pela eletrocardiografia. Nessa época, eram efetivos apenas três medicamentos cardiológicos: pó de folhas de Digitalis, para insuficiência cardíaca, e nitritos, e quinina para arritmias cardíacas. Outros remédios efetivos não se conheciam. Em 1915, o inglês James Mackenzie tornou-se o primeiro cardiologista clínico a se dedicar integralmente à especialidade e a atender frequentes problemas cardiológicos, principalmente de soldados do exército britânico que apresentavam doença cardíaca devido à sobrecarga por estresse e esforço. A partir daí, a especialidade se desdobrou em braços clínicos, epidemiológicos e acadêmicos.

Quantos autores escreveram o livro?

Essa parte da história da cardiologia geral foi escrita por mim e a segunda parte são outros 20 autores, inclusive dois historiadores para levantar arquivos, registros de toda a história da implantação da cardiologia no Brasil.

E ele foi escrito para qual público?

A história da cardiologia é muito inserida na história geral, porque o coração foi um órgão desbravador em vários sentidos. Uma parada cardíaca sempre foi associada com morte. O coração sempre foi associado com vida. O coração no passado era considerado o órgão mais quente do corpo, porque ele era o produtor do calor corporal. Claro que essas ideias hoje estão sepultadas, mas apenas para mostrar a importância do coração. Em todas as culturas, muitas comemorações são voltadas para situações cardiológicas, a descoberta da circulação do sangue foi, como eu já referi, a maior descoberta científica da medicina no milênio passado. A cardiologia foi a primeira especialidade que se desvinculou da clínica médica, então, todos esses fatos estão inseridos no contexto da história da humanidade, porque a história da medicina também está inserida no contexto da humanidade. É um livro que pode ser lido por leigos, como cultura geral, mas é fundamentalmente voltado para médicos, para cardiologistas, mas é perfeitamente acessível para quem tem interesse na história da medicina

O senhor é cardiologista há muitos anos…

Eu tenho mais de 50 anos de medicina e eu sou cardiologista desde 1968. Considerando cardiologista quem recebeu o título de especialista pela SBC, foi na primeira fornada que a Sociedade Brasileira de Cardiologia forneceu o título de especialista. E eu, felizmente, nessa época fui contemplado com título de especialista. Então, já pratico a medicina há muito tempo e sempre voltado para essa especialidade. Eu sou membro titular da Academia Nacional de Medicina, sou ex-presidente da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, eu sou professor emérito de pós-graduação em cardiologia na Ufrgs e na pós-graduação do Instituto de Cardiologia, sou fundador e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista e tenho a honra de ser presidente de honra da Associação Gaúcha de História da Medicina. Essas coisas não são nada de mais, representam apenas uma dedicação a um campo específico.

E, nos últimos anos, quais foram os maiores avanços na cardiologia?

Os avanços seminais qualitativos, a maioria foi até os anos 1980. A partir daí, os avanços foram quantitativos: aperfeiçoamento de equipamentos, digitalização de equipamentos, coisas desse tipo, progressos materiais. Nos últimos 30 anos, além do contínuo progresso em medicamentos antitrombose, técnicas e materiais cirúrgicos, novos equipamentos permitiram o aperfeiçoamento de stents imunes a reestenose, válvulas cardíacas artificiais, intervenções sem abrir o tórax e aplicação da robótica.

Qual o papel do Brasil na cardiologia mundial?

A cardiologia brasileira, que foi tão primitiva nos anos 1930, quando perdia muito para Argentina, muito mais desenvolvida nesse campo, em 90 anos igualou e mesmo ultrapassou muito dos mais avançados centros internacionais. Contribuiu com conhecimentos seminais em setores particularizados, como doença de chagas, leishmaniose, eletrocardiografia, hemodinâmica, cardiologia intervencionista, técnicas cirúrgicas e farmacologia. Tudo isso foram contribuições seminais do Brasil. A média de vida em 1900 era em torno de 40 anos. A média hoje dobrou. Está em torno de 80 anos. Certamente, a cardiologia contribuiu com importante parcela para este sucesso. É claro que outras ciências e especialidades contribuíram também, mas a cardiologia também teve importante participação nesse sucesso.


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