Alice Guimarães: "O teatro deve ser sempre um ato político"
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Alice Guimarães: "O teatro deve ser sempre um ato político"

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Alice Guimarães no espetáculo “MAR”. Foto: Max Toranzos / Divulgação / CP Alice Guimarães no espetáculo “MAR”. Foto: Max Toranzos / Divulgação / C


Uma das duas atrações internacionais do 12º Palco Giratório Sesc PoA, o grupo boliviano Teatro de Los Andes - com 26 anos de trajetória - está marcando sua participação no festival cênico da Capital com a apresentação de um espetáculo com riqueza metafórica e profundidade de encenação e engenho, chamado "MAR", além de um intercâmbio com o grupo gaúcho Usina do Trabalho do Ator (UTA) e uma oficina de 23 a 26 de maio, na Casa de Cultura Mario Quintana, novamente em conjunto com a UTA, que completa 25 anos de atividades. A programação completa pode ser conferida no site. "MAR" conta a história de três irmãos que decidem fazer uma viagem para cumprir o último desejo da mãe moribunda: ter o corpo abandonado nas ondas do mar, desconhecido para ela. A peça trata da relação dos bolivianos com o mar, que é ausente, perdido para o Chile na segunda metade do século 19, mas tão presente nas águas íntimas do seu povo, no oceano de sonhos e identidades.
A atriz gaúcha Alice Guimarães participa do grupo há quase 20 anos, desde que deixou a UTA no final dos anos 1990 para fazer uma oficina de 15 dias com o Los Andes e depois um experimento de um ano. De lá para cá, já montou 12 espetáculos com a companhia, onde é atriz, diretora pedagógica, dramaturga, figurinista, entre outras atividades do grupo sediado em Yotala, na região de Sucre, Bolívia. Em entrevista ao Correio do Povo, a atriz fala do grupo, da escolha de viver e atuar na Bolívia, das questões do povo local, dos espetáculos e de que o teatro deve ser um ato político, transformador da realidade à volta.

Correio do Povo: Como está sendo esta experiência no Palco Giratório Sesc, na sua cidade natal, Porto Alegre?
Alice Guimarães: Para nós está sendo super importante participar deste festival. Todas as vindas do Teatro de Los Andes ao Brasil foram pelo Sesc, em São Paulo, Campinas e Salvador. É uma coisa interessante, dentro das finalidades do grupo, trabalhar a questão dos intercâmbios, das diferentes propostas cênicas e dramatúrgicas, a nossa relação com a Usina do Trabalho do Ator, com outros grupos e o público. Na Bolívia, o teatro é pequeno, não está tão desenvolvido, mas ao mesmo tempo acontece algo diferente do Brasil, a gente sempre tem público. A nossa preocupação é onde a gente vai colocar tanta gente. As pessoas vão pelo teatro, não por algum apelo comercial, de artistas televisivos. A relação massiva com a TV também é menor. Acho que no Brasil ainda falta formar um público para teatro, que é o que festivais como o Palco Giratório fomentam.

CP: Como foi conceber um espetáculo tão cheio de signos identitários e metáforas como "MAR"?
Alice Guimarães: Quando a gente foi criar o espetáculo, parecia que o tema da guerra e da perda do mar seria o principal, mas a gente queria falar deste sentimento. Os bolivianos não têm o mar, mas a presença dele é gigante. Eles sentem uma coisa que não existe. Contamos a história dos irmãos que querem levar a mãe para o mar, mas falamos dos choques entre etnias e classes sociais. A mãe tem um duplo sentido, pois também é a Mãe-Pátria. Nos giros que fizemos com este espetáculo pela América Latina e Europa, pudemos divulgar um pouco mais deste sentimento que é do boliviano. As pessoas logo se identificam com esta presença/ausência e acabam se perguntando "Qual é o meu mar?".

CP: Antes desta montagem, vocês impressionaram o Brasil e outros países como uma releitura de Shakespeare, "Hamlet, de los Andes". Conte-nos um pouco sobre esta projeto?
Alice Guimarães: O espetáculo é de 2012, mas ainda estamos encenando. Só não trouxemos para o festival. É uma proposta mais contemporânea, de investigação mais aprofundada. Pelo texto de Shakespeare e a nossa leitura, acabamos contando também um pouco do que é a Bolívia na tentativa de ser contemporâneo, mas sendo um país que ainda está cheio de tradições ancestrais, rituais, crenças. Também há uma identificação muito grande do público. Foi o primeiro espetáculo montado depois da saída do grupo, do diretor e fundador César Brie e para o qual trouxemos um diretor convidado. A metáfora da morte do pai em Hamlet também estava em nós em forma de metalinguagem, pois estávamos trabalhando com a morte metafórica do nosso pai teatral.

CP: Você tem acompanhado algo da cena teatral do RS? Como tem visto o desenvolvimento dos grupos e dos espetáculos feitos no RS?
Alice Guimarães: Eu não estou por dentro. Sempre que venho para Porto Alegre visitar meus familiares, eu procuro acompanhar os espetáculos que estão sendo apresentados. Tenho acompanhado mais o Ói Nóis Aqui Traveiz. Viajamos praticamente juntos em um festival na Argentina. Penso que em relação à Bolívia, aqui tem muita possibilidade de desenvolvimento. Existe muito mais conhecimento, universidades, pesquisa, acesso. Na Bolívia, tudo é muito autodidático, é mais difícil o acesso à teoria e empreender a pesquisa. O que vejo por aqui, às vezes, é um certo vazio. Há o conhecimento e uma possibilidade estética fantástica que acaba não se realizando, que não fica muito clara. Tenta-se fazer muito e acaba no vazio de proposta. Nos nossos países, Brasil e Bolívia, o essencial é olhar à nossa volta e perguntar o sentido daquilo que estamos fazendo. O teatro é um ato político, não partidário, mas precisa indagar sobre as questões que angustiam no momento ou resgatar a história não contada.

CP: Como estás há muito tempo na Bolívia, gostaria de saber um pouco da tua trajetória teatral.
Alice Guimarães: Eu nasci em Porto Alegre, mas passei minha infância em Pelotas. Fiz teatro amador na Escola Técnica Federal, em Pelotas e quando vim novamente morar em Porto Alegre, eu queria fazer Arquitetura, mas acabei no Departamento de Arte Dramática da Ufrgs. Depois comecei a atuar com a Cia. Eteceteratral, sob a direção de Néstor Monastério, em peças como "Bella Ciao" e a infantil "Guerreiros da Bagunça". Em 1992, fui uma das fundadoras da UTA e fiquei com o grupo até 1997, quando fui fazer uma oficina de 15 dias com o Teatro de Los Andes. Depois, fiquei mais um ano de experiência por lá, em 1998, e participei do espetáculo Graffiti, em 1999, e de La Ilíada, em 2000 e desde então permaneci com o grupo desenvolvendo espetáculos, oficinas, intercâmbios.

Por Luiz Gonzaga Lopes